Thallyta Mayara: “Se Deus quiser, eu vou ser igual à Formiga”

Apesar de todas as dificuldades, Thallyta enxerga no futebol um local onde pode ser quem é, ser feliz sem pensar na existência de problemas ou preocupações. 

Por: Júlia Belas e Natália Silva

O sucesso do futebol do Brasil é construído de acordo com as referências. Quando se pensa em futebol brasileiro, nacional ou internacionalmente, se pensa nos grandes nomes que já defenderam as seleções, que conquistaram títulos e exibiram suas qualidades dentro de campo ao longo das gerações. Entre os homens e mulheres que pisam nos gramados (terrões, campinhos e quadras) brasileiros e do exterior, jovens atletas se inspiram nos ícones do esporte para buscar seguir o sonho de jogar profissionalmente e viver do futebol.

Em Recife, capital pernambucana, a jogadora de futsal Thallyta Mayara não foge das comparações com a sua maior referência no futebol. Ela não poupa elogios a Formiga, meia da seleção brasileira e do Paris Saint-Germain. “Sou fã de verdade de Formiga. Se Deus quiser, eu vou ser igual a Formiga, todo mundo fala que eu pareço com ela”, diz Thallyta. E a identificação vai muito além do futebol, do estilo de jogo ou da qualidade. É uma identificação mais profunda, entre mulheres de negras, nordestinas, apaixonadas e dedicadas ao esporte.

Talvez justamente pela existência dessas referências, o interesse pelo futebol surgiu de forma diferente para as duas. A jogadora do PSG já contou várias vezes sobre como fugia do padrão das meninas de sua idade, e começou a jogar bola quando arrancou a cabeça de uma boneca que ganhou de presente para chutar. Já a pernambucana sempre teve o apoio da família, algo um pouco mais comum nas últimas duas décadas – graças à boa influência e representação de Formiga e suas companheiras de seleção.

“Minha família sempre me apoiava. Minha mãe ficou com aquela cara de surpresa por eu jogar com os meninos. Ela dizia: ‘menina joga com menina, não com menino’. Agora, minha família me apoia e não me julga. O povo da rua, eu não estou nem aí, mas a minha família sempre me apoia. Dizem assim a minha mãe: ‘oxe, nunca vi menina jogando bola, quem joga bola é sapatona’. Eu digo que não ligo, deixa isso pra lá. Vou seguir meu sonho e o que eu quero ser eu vou ser, não vou ligar para a opinião dos outros.”

Thallyta Mayara não se incomoda em ser comparada a Formiga, enxerga nela uma inspiração. 

A trajetória de Thallyta no futebol acabou sendo marcada pelas dificuldades. Ela, que começou a jogar com os meninos, conta que eles sempre foram os mais preconceituosos e agressivos – ela chama de “críticas”. “Sempre são os meninos que criticam. Ficavam dizendo ‘que bicha preta do caramba’. Isso me deixava muito triste às vezes e eu não dizia à minha mãe, ficava só para mim, eu ficava pensando nisso em casa. Mas levantei a cabeça e deixei isso para lá. Isso acontecia no time em que eu jogava.”

Quando Thallyta é perguntada sobre preconceito, ela conta essa história. Apesar de não usar as palavras “racismo” e “machismo”, ela reconhece inclusive o efeito destes comentários no seu interesse pelo jogo. Essas “críticas”, em tons racistas e machistas, fizeram com que ela desistisse do futebol de campo e resolvesse tentar a carreira no futsal.

“Eu não tinha mais interesse pelo campo e também teria uma última oportunidade de jogar contra meninas. Contra os meninos era sempre ‘tu não sabe jogar, é mulher, não sei o quê’. Eu fiquei muito chateada, me magoei porque os homens sempre me julgavam, dizendo que eu não sabia jogar. Aí eu me magoei, saí do campo e fui jogar só com meninas.”

Meninas e mulheres negras, muitas vezes membros das camadas mais vulneráveis da sociedade brasileira, acabam sofrendo sozinhas sem poder se posicionar ou apontar os preconceitos sofridos em ambientes de trabalho. No futebol, não é diferente: percebe-se na conversa com Thallyta que ela se sente mais segura evitando o tema. “Eu prefiro guardar para mim”, diz. A sua maior oportunidade na carreira como jogadora, no entanto, veio quando ela falou sobre a sua história para a página Fora de Campo e publicou uma foto dominando a bola no peito. “Foi quando esse time de São Bernardo curtiu e comentou. Eles falaram comigo perguntando onde eu morava, em que posição eu jogava e se eu tinha condições de morar lá e jogar”, mas a pandemia da Covid-19 acabou tirando essa oportunidade, ela teve o teste desmarcado por conta das condições sanitárias que o país enfrenta.

Do ponto de vista de alguém que está iniciando uma carreira no futebol, Thallyta vê com otimismo o futuro da modalidade.

Para Thallyta, aos 18 anos, jogando desde os 12, o futebol se tornou a sua maior fonte de tranquilidade. Ela conta que já pensou em desistir do esporte devido a uma frustração em um campeonato escolar. Lembrando que Formiga, por exemplo, tem mais tempo de futebol do que Thallyta tem de vida. Para alguém que ainda tem toda uma vida de jogo pela frente, parece simples. Mas o esporte competitivo na escola já é importante para que jovens atletas saibam lidar com as expectativas no meio amador e profissional. “Passei uns dois dias chorando e até hoje, quando estou contando para alguém, eu fico um pouco triste. Era meu último ano e eu queria ser campeã.”

Do ponto de vista de alguém que está iniciando uma carreira no futebol, Thallyta vê com otimismo o futuro da modalidade. Na Confederação Brasileira de Futebol, o fato de duas mulheres coordenarem o futebol feminino é importante para que ela se sinta ouvida e “entendida” na modalidade. Dedicada ao futsal, ela não descartaria uma oportunidade no futebol de campo e acompanha as mudanças na modalidade para que se torne um ambiente menos excludente. “Sai mais crítica dos homens. As mulheres, não. Uma sempre vai entender a outra, vamos nos unir. Às vezes, é raro o homem entender a mulher.”

Thallyta tem os seus sonhos, os seus traumas e a sua própria identidade atrelada ao futebol. Para ela, é muito difícil se afastar da modalidade – mesmo quando fala sobre os momentos de tristeza ou o preconceito sofrido, ela reitera que levanta a cabeça para continuar jogando. Seja no campo, na quadra de society ou no salão, a pernambucana garante que o futebol é a sua maior paixão: assim como a de Formiga, que segue jogando em alto nível aos 43 anos. “Não tem como disfarçar, o futebol é muita coisa na minha vida. Quando eu estou jogando bola, resolvo todos os meus problemas. Não penso em nada, só foco no futebol.”

A Negra no Futebol Brasileiro é um projeto de Natália Silva na Revista Gambiarra, subsidiado pelo Black Lives Matter Football da Fare Network. Neste texto, conta com a assistência de produção de Edyanne Teixeira.