Rayane Rodrigues: O futebol é minha vida!

Por: Natália Silva

Conhecida nos gramados pelo apelido de Robinha, Rayane sabe na prática o significado da interseccionalidade de raça gênero, mas enfrentou todo o preconceito sofrido para viver seu sonho. 

Quando era criança e estava na terceira série, do Ensino Fundamental I, Rayane Rodrigues ouviu de uma professora que ela não poderia jogar futebol porque aquilo não daria dinheiro e não a levaria a lugar nenhum. A situação fez surgir nela uma vontade enorme de provar que a professora estava errada e a cada jogo, conquista ou salário recebido, é isso que ela faz: mostra que quem acredita que as mulheres não podem ocupar espaços que não foram destinados para elas, ao longo da história, está errado. 

Infelizmente, como é comum, também foi muito nova que ela aprendeu na prática o que é ser mulher negra retinta, em uma sociedade que sabe unir machismo e racismo muito bem. Quando tinha pouco mais de 10 anos, foi convidada para participar de uma competição masculina. Na verdade, o regulamento não dizia que era masculina, só falava da faixa de idade e foi com esse argumento que o professor conseguiu a sua participação. 

Rayane aprendeu cedo a não abaixar a cabeça quando se depara com o racismo.

No entanto, os pais das outras crianças não aprovaram, quando entrou em campo e começou a driblar os meninos, começaram a gritar para que eles pegassem em sua bunda, em seus seios, enfiasse os dedos em suas partes íntimas, para intimidar. Rayane conta que ela seguiu jogando, sempre teve dentro dela que mostraria dentro de campo o quanto é resistência. Mas se sentiu suja, com onze anos teve que parar para pensar se era certo ela estar ali.

Em relação ao racismo, aprendeu na escola a diferença que dar ter a maioria de  brancos em posição de comando. Passou semanas sendo chamada de “bolinho queimado”, “picolé de asfalto” e vários outros apelidos racistas e ofensivos, sem receber ajuda da professora, mas quando reagiu e quase agrediu uma colega, foi expulsa. Questionou com a direção, sua mãe foi chamada e foi a única que a defendeu, exigindo providências porque os outros adultos consideraram uma brincadeira qualquer. 

Em uma noite da primavera de 2020 tive uma longa conversa com Rayane Rodrigues, atleta do Minas Brasília, confira a seguir.

Como surgiu o interesse pelo futebol

A primeira vez que eu não lembro porque acho que dentro da barriga da minha mãe eu já jogava futebol, eu sempre fui louca por futebol. Mas comecei a jogar bola pequena, com os meninos na rua, eu acho que a maioria das meninas começaram desse jeito, né? porque agora que está tendo uma fase do feminino de escolinha, times com sub-13, sub-15, mas antes não tinha. Então eu comecei a jogar com 6, 7 anos de idade, na rua com os meninos.

Em que momento da sua vida decidiu que  o futebol poderia se tornar uma profissão? 

Eu tinha 11 anos de idade, fui numa peneira adulta para completar o time e fui destaque. Eu e a Vitória Albuquerque fomos destaques dessa peneira, foi até engraçado, era o principal, Vitória com 9 anos e eu com 11 anos e fomos destaques. Foi ali que eu comecei, aí eu já falava: acho que dá sim para sonhar em ser uma jogadora de futebol.

Como foi o seu caminho até a profissionalização?

No começo foi bem difícil, porque eu queria treinar só que treinava com o masculino não tinha o feminino e minha mãe falava, não, com homem tu não vai jogar. Eu consegui entrar em uma escolinha de futebol aqui de Paranoá com 8, 9 anos mais ou menos. Via Marta,  a Cristiane, a Maurina na televisão, só que pra mim parecia um sonho, é na verdade um pouco fácil e ao mesmo tempo difícil, uma coisa distante, que tipo assim, aquilo nunca iria acontecer, mas eu treinava, treinava. Comecei a acreditar que tinha que treinar e pensava: se eu quiser ser uma jogadora de futebol, tenho que treinar. Minha prioridade, na época, era jogar o Candangão [Estadual] de campo, então foi mais ou menos ali que comecei a sonhar, comecei a treinar, e por incrível que pareça meu primeiro campeonato foi no futsal.

Quando eu era menor treinava campo e comecei a jogar futsal porque era onde tinha mais competições. Minha primeira competição foi a Taça Brasil de futsal, eu viajei com o “Fut Arte” e os clubes se interessaram por mim, pra jogar futsal. Fui para Santa Catarina com 15 anos e meu primeiro time foi o Jaguará do Sul, fiquei 2 anos jogando futsal lá, o time do Falcão, depois fui para outros e  fiquei mais ou menos 7 anos morando no sul.  Jogando com a melhor do mundo né, Amandinha do futsal. Quando perguntam, eu falo que sou atleta do futsal, comecei e sempre fui do futsal. 

Quando eu voltei pra Brasília, foi até engraçado porque eu não queria jogar campo, eu queria jogar só futsal e as meninas falaram não, você vai jogar campo e eu falei não, não vou jogar campo, não quero de jeito nenhum jogar campo, não sei jogar campo, eu gosto do futsal, quero ficar no futsal. Mas elas falavam: você vai sim, você treina e acaba se adaptando, você vai jogar campo. Foi por tantas insistências que eu falei vou jogar campo e acabei me adaptando ao campo, tipo tive muitas dificuldades mas acabei me adaptando.

Como que seu apelido se tornou Robinha e como se sentiu ao saber que o Robinho havia sido condenado por um estupro, na Itália? 

Ficou uma coisa chata né, eu acho que toda mulher vai achar ridículo e nojento o que ele fez, mesmo ele tentando provar a inocência, a gente, nós  mulheres temos que com certeza nos agarrar e ver, que aconteceu né, infelizmente. Hoje eu me sinto uma pessoa triste, porque ele era cara que eu admirava bastante, ele era um cara que eu era muito fã, quando eu comecei a jogar eu sempre falava, ia pro Campos e falava, a eu sou Robinho, porque quando a gente era criança aqui na rua todo mundo colocava o apelido em cada um, “ah! eu sou o Ronaldinho, eu sou não sei quem o quê, eu sou o Júlio César, o goleiro”. Eu sempre, desde criança, falava: sou a Marta, sou a Marta.

O meu primeiro treinador acabou, de tanto eu falar do Robinho acabou me apelidando de Robinha. Eu deixei a Marta porque a Marta existe, Robinho existe, mas a Robinha não existia. Então pra mim foi uma coisa maravilhosa, porque ser apelidada por um cara craque, um craque, pra mim foi gratificante até porque ficou maravilhoso esse apelido de Robinha. Só que hoje eu fico triste, infelizmente, quando fala Robinha todo mundo liga ao jogador Robinho. Infelizmente, ele cometeu um ato contra as mulheres, então eu fico muito triste, um pouco decepcionada por o meu apelido ser ligado a ele, independente de qualquer coisa, meu apelido tá ligado a ele, porque veio dele, ele foi uma inspiração. É complicado quando você tem uma pessoa de inspiração, você acaba deixando de gostar da pessoa por coisas que ele fez, infelizmente são coisas que não dá pra perdoar. ele poderia pegar a mulher que ele quisesse com o dinheiro que tem, mas fazer o que ele fez pra mim é desumano, é falta de respeito, é não ter caráter, nojento, e um “escroto” pra mim ele se tornou pra mim um homem “escroto”, eu vou usar essa palavra.

Quem é a principal referência para você no futebol?

Hoje eu me inspiro em mim, eu sou minha maior fã, e todo mundo que pergunta isso eu sempre falo que hoje a minha inspiração sou eu mesmo, até por muitas coisas que eu faço. A gente tem que se amar sim, temos que nos usar como referência, e toda vez que eu uso uma pessoa de referência, eu sempre me coloco, eu falo eu, porque eu fiz isso, porque fiz aquilo como atleta. Me considero uma atleta realmente 100% e hoje minha maior inspiração sou eu mesma.

 Rayane foi campeã de tudo com o futsal, hoje representa o Minas Brasília onde foi campeã do Brasileirão A2 de 2018.

Como sua família reagiu ao seu sonho e quando viram que você correria atrás de realizá-lo?

Então minha mãe não reagiu, ela não queria porque eu era muito novinha. Quando eu cheguei pra ela e falei: mãe, eu recebi uma proposta pra jogar em Santa Catarina, vou ter que morar lá, vou receber uma ajuda de custo, não é muito, mas eu quero ir. Minha mãe falou: não, você não vai. Aí eu já comecei aquela drama todo de que você tá acabando com meus sonhos eu quero ir, eu quero ser jogadora de futebol, eu sempre falava pra ela, eu quero ser jogadora de futebol, eu quero ir, se eu não for agora eu não vou ter outra oportunidade e ela respondia, não você não vai, você é muito nova e não sei o que eles querem. Porque quando é criança a mãe sempre tem aquele medo, será que é um time mesmo, será que não vão usar minha filha como prostituta, será que vão cuidar bem da minha filha, será… sempre tem esse “se”.

E eu tive uma pessoa que me ajudou bastante, a Camila Orlando, no começo ela era minha treinadora e ela me ajudou muito, conversou com minha mãe falou: pode deixar que eu me responsabilizo, eu vou tá ligando todo dia, fui atrás pra saber quem são as pessoas, se o time é de verdade, se o time é um time que é visto e sim é um time, é onde o Falcão joga, tem o time feminino, vai ser legal, pode deixar que me responsabilizo. Minha mãe falou: toda responsabilidade,  a partir de hoje se acontecer alguma coisa cai em cima de você. A Camila aceitou e foi aí que minha mãe deixou, mesmo.

Não me arrependo, vivi os melhores momentos da minha vida, joguei no futsal e fui campeã de tudo, Não tem nenhuma competição do futsal que eu não tenha ganhado, Taça Brasil, Libertadores, jogos universitários tudo ganhei no futsal, então sou uma pessoa muito realizada por ter tido essa caminhada no futsal. 

E seu pai? Ele gostava da ideia de te ver sendo jogadora de futebol?

Então eu não moro com o meu pai, mesmo que meu pai falasse sim minha mãe ia falar não, quem manda nela sou eu, ela mora embaixo do meu teto, então eu que mando, então meu pai não se metia muito. Meus irmãos também não, meus irmãos são mais novos, tem uma irmã mais velha só que ela não se metia muito, só tinha um tio que ele me apoiava: deixa a menina, deixa ela ser jogadora de futebol. É minha família inteira, na parte materna, meus tios jogavam bola, todos jogavam bola, sempre gostava de ir pro campo assistir eles jogar, então eles me apoiaram tanto que a galera aqui da rua ficava brincando, falando que todos  os homens da família tentaram ser jogadores de futebol e nenhum conseguiu, aí veio uma menina e conseguiu. Eu tive incentivo de um dos meus tios, teve um tio meu que me apoiou a  ser jogadora de futebol, ele me treinava, a gente ia para o campo juntos, ele treinava e depois eu treinava junto com ele.

A fisioterapia era um plano B ou você sempre quis fazer as duas coisas?

Então na verdade eu sempre pensei em conciliar e é um plano B , sempre é um pouco de cada. Sou apaixonada pelo área da saúde e, com certeza, como a minha mãe sempre falou, faça o que eu mando, mas não seja igual a mim, que minha mãe não fez faculdade, não estudou, minha mãe sempre pegou no meu pé pra estudar. Ao contrário do campo, no futsal lá em Santa Catarina são poucos os times que não dão bolsa de estudo, eu acho que 95% dos times dão faculdade 100%, então como eu era só futsal, eu optei pela fisioterapia porque eu queria tá ali, não queria fugir muito de dentro das quadras, não queria fugir muito dentro dos Campos, então por isso optei pela fisioterapia e sou apaixonada e sempre tento conciliar. Esse ano eu tranquei meu curso porque eu achei que não ia conseguir, por causa da pandemia com os jogos, então em não ia conseguir conciliar aí eu tranquei. Ano que vem pretendo continuar e é sim um plano B.

Como é conciliar estudar e jogar futebol?

Eu acho que pode sim conciliar o esporte com os estudos, aqui no Minas as presidentes sempre tentam conciliar, só que é um pouco difícil. São vários jogos, campeonatos, no feminino nem tanto, mas no masculino é muita coisa. Então é até difícil, porque às vezes eu falo por mim, muitas vezes eu acordava cedo, quando eu tava fazendo a faculdade eu acordava cinco e meia da manhã, ia pra faculdade, depois ia treinar campo, aí sai do campo e ia trabalhar porque eu trabalhava no hospital. A noite chegava em casa esgotada, eu chegava em casa 1hora da manhã e acordava às 5 horas da manhã. Eu acho que é um pouco mais o cansaço do atleta, muitos atletas querem só focar no futebol, não querem focar na educação e nos treinos, é puxado você treinar de manhã, de tarde e ir pra faculdade a noite, não são todos os atletas que querem isso, acho que não é tanto o futebol, não é tanto o time, mas sim os atletas que não tem essa pretensão de correr atrás dos estudos.

O Minas Brasília é considerado um time diferenciado porque além de não ter um time masculino atrelado a marca, possuem muitas mulheres em cargos além das quatro linhas. dirigentes, na comissão técnica. Como é para você representar o Minas Brasília, fazer parte do clube?

Pra mim é gratificante. Eu tive algumas propostas para sair e nunca quis, até pelo carinho e o amor que as presidentes têm pelo Minas, do jeito que elas levam  tudo de um jeito carinhoso. Com certeza, ter líderes mulheres faz diferença. Para mim é gratificante está no Minas, prazeroso, eu sempre falo, acho que eu nunca joguei em um time que eu me senti tão bem igual eu me sinto no Minas. Isso vem da Nayere, por causa da Nayara, pelo amor e pelo carinho que elas passam pra gente. [..] Se eu pudesse com certeza todos os times estariam com presidentes mulheres, porque no feminino eu falo, no feminino é totalmente diferente.

Quais são os principais desafios de competir no Brasileirão Feminino? 

Eu acho que é mais o apoio né, com certeza o apoio financeiro, o apoio do público, hoje a gente não pode reclamar muito do apoio do público, pois na Copa do Mundo a gente teve uma visibilidade maior no futebol feminino. Há falta de patrocinadores, pessoas que apoiam realmente o futebol feminino, pessoas que lutam pelo futebol feminino. O Minas tem pouco tempo tá na A1, a gente tá passando uma experiência com certeza porque ano passado foi uma experiência pra gente bacana, esse ano também foi uma experiência pra gente maravilhosa e, com certeza, o ano que vem, a presidência vai evoluir. Mas é difícil você jogar contra um Corinthians que tem história no futebol feminino, é difícil você jogar contra o Santos que tem história no futebol feminino, até pelos patrocinadores, pela camisa porque tem o masculino por traz. O Minas é pelas louras [presidentes] e por nós, porque a gente trabalhou, lutou, pra ter uma vaga na A2, para ser campeãs e ganhar vaga no A1. 

Fomos campeãs no A2 treinando uma vez na semana, na semana a gente treinava futsal e se reunia no sábado para treinar campo, fomos jogar o A2 desse jeito. Para o primeiro ano a ideia era pegar experiência, mas fomos pegando uma confiança, ganhamos do time mais forte da competição, o Napoli, aí a gente viu que sim, que dava. Mas sabíamos que não ia acontecer de novo, a gente não ia jogar a A1 treinando uma vez na semana e sermos campeãs, isso não ia acontecer denovo, eu acho que não vai acontecer de novo de uma equipe treinar uma vez na semana e ser campeã igual a gente foi. Então encontramos uma dificuldade, o Minas Brasília começou a se adaptar com os treinos, no começo do ano sentamos e conversamos que teríamos que treinar a semana inteira. A gente foi se adaptando, ano passado a gente encontrou muitas dificuldades, até pelos times já terem a experiência de jogar a competição e a gente não, esse ano a gente encontrou outras dificuldades, também, só que certeza a gente aprendeu muito e ano que vem espero que seja um ano diferente e um ano vitorioso para o Minas de Brasília.

Vimos recentemente algumas jogadoras denunciando atos de abuso de poder por parte dos árbitros, um caso em uma partida do seu time, inclusive. Já passou, pessoalmente, por situação semelhante? Qual a sensação de passar por isso ou ver as colegas nessa situação?

Com certeza já pensei nisso, a gente passa por isso muitas vezes porque quando tem um árbitro homem eles usam o poder deles contra a gente, com certeza eles acham que tudo que eles falarem a gente tem que aceitar, ficar calada. Eles falam alto com gente, usam isso querendo ser o centro das atenções e acaba prejudicando a partida. Quando teve a polêmica do jogo contra o Cruzeiro foi vergonhoso, foi chato, foi ruim, porque acaba atrapalhando o trabalho, que a gente treinou a semana inteira, o ano inteiro pra chegar no jogo um árbitro acaba nos atrapalhando. A gente está lá para jogar futebol, ele está ali só para apitar, ele não está ali para derrubar uma atleta nossa. 

Se é o trabalho dele, tem que fazer da melhor maneira possível. Ele não tem que está lá pra querer ser o bonzão, e tipo eu sou o foda, eu mando aqui até porque se a metade dos árbitros que foram “escroto” com a gente, vou usar essa palavra, fosse no masculino, eles teriam apanhado. Um homem teria dado na cara dele, só que eles usam isso porque a gente não vai fazer isso, o feminino tem muito mais respeito que o masculino, então a gente não vai fazer isso. Eles acabam usando o poder deles pra nos desvalorizar, para nos colocar pra baixo.

“Nós precisamos de igualdade, sim, então falta mais pessoas defendendo essas causas.”

Já sofreu algum preconceito, recebeu alguma crítica, especificamente, por ser uma mulher negra jogando futebol? Se sim, como a instituição que fazia parte reagiu?

Quando eu fui pra Santa Catarina, fui jogar em caçador e foi o pior lugar que eu já fui na minha vida. São pessoas racistas, eu fui jogar em jogo contra Kindermann de futsal e a torcida inteira me chamando de macaca, me xingando, perguntando se eu queria banana. Para mim foi uma coisa muito ruim, ruim mesmo, e sempre falo que não gosto de jogar no Kindermann, não gosto de jogar em Caçador porque a galera é racista, não aconteceu uma, nem duas, nem três vezes, quase todas as vezes que eu ai para Caçador, jogar no Kindermann futsal, acontecia isso. A torcida me xingava, ficava falando umas coisinhas e acaba nos machucando por dentro, no fundo acaba nos machucando, só que não ia ser diferente, eu pegava aquilo e queria era fazer gol, fazia gol, mandava a torcida calar a boca, ai que implicava mesmo.

Tinha apoio sim. Quando fui jogar em Caçador, meu técnico o Esquerda, falava: nós não vamos entrar em quadra. Eu falava deixa e ele não, não pode acontecer, e eu não Esquerda  deixa pra lá, isso não vai me diminuir em nada, eu sei o que eu sou, mas ele continuava dizendo que não íamos jogar: enquanto não tirar a torcida, nós não vamos jogar. As meninas ficavam não vamos, aí eu falava gente vamos deixar isso pra lá e meu treinador Esquerda  sempre, toda vez que acontecia isso ele parava o jogo, reclamava e pedia para tirar a pessoas que estavam xingando, parava o jogo: enquanto tiver essas pessoas xingando minhas atletas nós não vamos jogar. Com certeza, eu tive muito apoio das instituições que eu joguei contra o racismo.

Muito se cobra em relação ao posicionamento dos atletas em relação as discriminações. Como vê essa cobrança? Você se sente à vontade no clube em que está para se posicionar e lutar por uma sociedade melhor?

Eu acho que, com certeza, tem que se posicionar. Eu sempre defendo a minha raça, sempre que posso estou falando porque nós não somos diferentes de ninguém, meu sangue é o mesmo que o do branco, eu tenho dois pés e o branco tem dois pés, eu tenho uma cabeça e o branco tem uma cabeça. Então não tem que ter essa desigualdade e eu luto pela igualdade, contra o racismo que existe

Com certeza, as pessoas tem que bater mais na tecla e se posicionar. A gente tem que se posicionar, enquanto a gente não levantar essa bandeira não vai parar, porque senão eles vão olhar isso como uma coisa natural. Olha o caso do Robinho, com certeza, se não tivesse tido o “Ibope” que teve, o Santos não ia romper o contrato com o Robinho, não ia. Então se todo mundo vai lá luta pela mesma causa, com certeza, a gente começou a mudar, entendeu? Então todo mundo tem que, realmente, levantar a bandeira contra o racismo, nós temos que levantar a bandeira contra o feminicídio, nós temos que levantar a bandeira da mulher, defender sim a mulher. Nós precisamos de igualdade, sim, então falta mais pessoas defendendo essas causas.

Qual a situação mais feliz que você se lembra na sua relação com o futebol?

Eu acho sempre falo que o futebol e o futsal me mostraram o mundo. Sempre falo que vim de uma família humilde, minha família não tinha condições de pagar faculdade, não tinha condições de eu fazer uma viagem, não tinha condições de comprar um tênis bom. Então, o futebol me proporcionou isso, quando eu fui jogar a Libertadores eu conheci a neve e pra mim isso foi uma coisa maravilhosa, foi uma coisa tão gratificante que eu não sei nem explicar porque não sei quando isso iria acontecer. Se não fosse o futebol, eu não sei se teria conhecido a neve. Eu penso na faculdade, de lugares, de pessoas que o futebol me proporcionou. Então são essas alegrias que eu sempre pego do futebol.

Minha melhor lembrança eu sempre vou falar vai ser da semifinal do A2, que a gente foi jogar com o 3B. Aqui em Brasília ganhamos de 2×1, fomos jogar contra o 3B lá na arena do Amazonas, uma coisa muito nova pra mim mesmo, pra era uma coisa surreal. Nunca tinha jogado num estádio lotado, torcida organizada, num estádio maravilhoso, estádio de Copa e pra mim foi uma coisa muito gratificante, uma lembrança que eu vou levar pra vida inteira. Até pelo o que foi, elas saíram ganhando 1X0 pra elas e eu aqui meu Deus acaba o jogo, nós tomamos uma pressão, e eu Deus acaba o jogo vai pro pênaltis, outros gol não. Eu já tava aqui, quem é que vai bater os pênaltis e bola no travessão e eu, Deus não deixa essa bola entrar, não vamos ganhar nos pênaltis, até que fomos no contra ataque e empatamos o jogo. 

Sempre vou falar dessas lembranças, do que ela me proporcionou naquele momento, uma mistura  de sentimentos que eu não consigo explicar. Se uma pessoa me pedisse para explicar o que eu senti eu não consigo explicar, se uma pessoa pedir pra explicar aquele dia eu não vou conseguir explicar porque foi o dia mais feliz da minha vida, foi o dia mais emocionante do minha vida o jogo que eu tive mais medo na minha vida, foi o jogo que eu fiquei mais nervosa na minha vida. Com certeza, é a lembrança que eu vou levar sempre, vou contar pros meus netos, vou falar com meus filhos sobre esse jogo.

Tem uma foto, em sua rede social, erguendo o troféu do Brasileirão A2. O que passava em sua cabeça naquele momento?

Eu só sabia agradecer a Deus, obrigada por esse momento, que momento maravilhoso. Foi o principal título do Minas, obrigada por estar ali, por ser campeã e tá na história do futebol feminino de Brasília. Nós fomos o primeiro time a conseguir esse feito, tanto no masculino, tanto no feminino, isso a muito tempo o masculino não tá na elite do futebol. Eu só sabia agradecer a Deus, estava muito feliz, realizada. Valeu a pena muitas coisas que a gente passou, aqueles xingamentos de negrinha, aquele xingamento de você não vai conseguir e que futebol não é pra mulher, com certeza, a gente continua por momentos como esse, momentos que a gente levanta. Para mim foi um momento maravilhoso, muito feliz na minha vida. Eu levantei aquela taça e eu consegui, eu consegui estar na história, eu consegui mostrar pra muitas pessoas que falaram que não era possível.

Diante de tudo isso, o que o futebol representa na sua vida?

O futebol é minha vida, eu respiro futebol, eu vivo futebol, eu como futebol, tudo pra mim é futebol. Quando estou em casa tem uns meninos gritando, Robinha vamos jogar uma raxa ali na quadra e eu vou, mesmo não podendo. É meu trabalho , meu sustento, então hoje pra mim é tudo. Resumindo é  realizador, é alegria e tristeza porque você acaba aprendendo com a tristeza e a dor. Às vezes, você perde um jogo e no outro dia levanta a cabeça e se mantém forte para aquilo não atrapalhar a tua semana de treino. Então futebol pra mim é tudo.

A Negra no Futebol Brasileiro é um projeto de Natália Silva na Revista Gambiarra, subsidiado pelo Black Lives Matter Football da Fare Network.