Pretu Abrakadabra: “Estupro não é uma situação corriqueira”

Após nota de repúdio ao clipe da música “Tigrão Gostoso”, o vocalista Pretu, da banda Abrakadabra, se defende comparando o clipe a outras produções audiovisuais e afirmando que tudo não passa de ficção

Por A.J. Oliveira

Foto: Divulgação

Para os vários Movimentos Sociais que assinaram esta semana uma nota de repúdio à banda Abrakadabra, tanto a música “Tigrão Gostoso” quanto o clipe feito para divulgá-la enaltecem a posição do estuprador, reforçando a imagem da mulher como um ser frágil e submisso, sem autonomia de vontade. Mas para os autores do clipe, tudo não passou de “ficção”. Confira na íntegra uma entrevista com Pretu, vocalista da banda de pagode conquistense.

A.J.: Como foi a reação de vocês a essa repercussão do clipe? Quando vocês gravaram já tinham algum temor de que pudesse ocorrer esse tipo de coisa?

P.: Olha só, quando se grava uma obra, seja ela qual for – um livro, um clipe, um vídeo ou uma novela -, sempre vai ter várias vertentes, então vamos ter várias situações. Quando criamos a ideia do clipe, a ideia do acordar, a ideia de ela sair não de um sonho e sim de um pesadelo, nunca achamos que um determinado público acharia que aquilo ali era apologia ao estupro. Porque quem é que quer fazer apologia ao estupro? Ninguém quer fazer isso. Assistimos a novelas hoje, assistimos a filmes, lemos livros que têm muito sobre isso, muita ficção. O que aconteceu no clipe foi simplesmente ficção. Quando aquele clipe foi montado, existiram pessoas por trás dele que sabiam que aquilo ali era uma ficção, inclusive a própria menina do clipe. Quando você contrata um artista, uma atriz ou então um ator para a sua novela e você pede a ele para fazer o papel de um homossexual, ou de ladrão ou de qualquer que seja, ele não aceita? Não, é o trabalho dele. Ele tá indo ali fazer o trabalho dele – que é ficção. Não quer dizer que ele é aquilo ali, não quer dizer que ele tá querendo fazer apologia àquilo ali. Então quando aconteceu tudo isso, essa repercussão, tomamos um susto, sim, e não gostamos, de maneira nenhuma de ser tachados. Existem pessoas que estão levando pro lado pessoal, e de uma certa forma essa imagem não é uma imagem legal para a gente, se torna uma imagem negativa. Quem quiser ter sua opção, sua ideia sobre o clipe, pode ter. Eu respeito todas as ideias de todo mundo. Agora, falar da gente, das pessoas da banda, eu acho que é errado. Tem estudantes na banda, tem pais de família, pessoas que trabalham em locais que são muito respeitados… Então quem abre a boca para falar que “ah, essa banda só tem estuprador, essa banda só tem vagabundo” não conhece a gente. Seria interessante que conhecessem realmente o nosso grupo, porque o que a gente mais faz é levar alegria para a galera.

A.J.: Você frisa bastante essa questão de que o que é mostrado ali é apenas ficção. Mas então você quer dizer que aquela cena inicial, na floresta, realmente é uma representação de uma situação de estupro?

P.: É uma ficção de uma situação de um homem correndo atrás de uma mulher. E ela com medo, então é um pesadelo, a gente criou um pesadelo em cima da ficção. O que é criado em “Freddy Krueger”, é criado em vários outros filmes de cenário internacional. Porque só vieram falar do Abrakadabra? Do “tigrão”? Velho, essa música é curtida por crianças, e por que uma criança não pensa nessa determinada situação? A música tem 2 anos, por que ninguém nunca falou isso? Essa determinada situação, da mulher correndo e o ator correndo atrás dela, naquele momento é uma cena em que ela está com medo, realmente, mas em momento nenhum a banda Abrakadabra quis fazer aquilo como apologia à sensualidade. Hoje temos Big Brother, temos várias novelas que fazem coisas muito piores que isso aí e ninguém cita nada.

A.J.: Por que vocês resolveram mostrar essa situação de medo no clipe se é uma música que tem a intenção de divertir?

P.: A gente tentou mostrar uma situação controversa no começo do clipe. A ideia não foi só nossa, foi de outras pessoas também. Era fazer uma ideia de Chapeuzinho Vermelho, do bosque e tudo mais. Uma ideia que desse medo. Mas que depois ela acordasse e viesse dançar, e o Tigrão viesse fazer o momento feliz da música. Aquela parte do bosque tem uma intenção comparável à de Chapeuzinho Vermelho. E o Lobo Mau é um estuprador? Não é.

A.J.: Eu queria que você explicasse por que que a atriz em certos momentos do clipe aparece assustada e por que a música tem versos como: “Ah, eu estou com medo, você vai me machucar”. O que significa isso?

P.: É uma pergunta que é feita para o Tigrão Gostoso. “Mas eu to com medo. Você vai me machucar?”, “sou seu Tigrão Gostoso, só precisa relaxar. É na hora do espanto”, na hora do espanto por quê? Porque ela estava espantada. “Que o bicho vai pegar”. O bicho vai pegar, o Tigrão na verdade pode ser tido como o fetiche feminino. Em momento nenhum o Tigrão vai ser um estuprador. O momento em que ela cria aquela cena em que ela está meio desesperada, é simplesmente porque ela ainda não sabe o que se passa ou o que vai acontecer. Mas, quando ela sabe que o Tigrão é uma cena, é uma música gostosa, até quando ela acorda do sonho, ela já começa a perceber o que é. Não tem nada a ver com espanto dela, o fato de correr por causa de um estuprador. Existe sim, espanto só da fala: “Mas eu tô…” “Não, sou seu Tigrão Gostoso, só precisa relaxar. É na hora do espanto que o bicho vai pegar”. Acabou, não tem segredo essa música. Vamos observar a letra e esquecer o vídeo. Depois vamos olhar o vídeo de uma forma que outras pessoas podem ver. São interpretações diferenciadas de cada um. Hoje, Ricardo Pereira, advogado, mestrando e doutor na área de sexualidade, conversou comigo, analisou o clipe inúmeras vezes, procurando alguma forma de apologia ao estupro. E não achou.

A.J.: Você não teme que, mesmo sem essa intenção de fazer apologia ao estupro, a forma como isso é abordado no clipe possa gerar interpretações erradas e realmente essa questão do estupro acabe sendo naturalizada para algumas pessoas?

P.: É, de certa forma, algumas pessoas que interpretam de outra forma, sim. Elas podem interpretar dessa maneira. E é o que eu falo, eu respeito. Eu respeito as interpretações das outras pessoas. Porque é um tema livre. Você tem o livre arbítrio de respeitar. Do mesmo jeito, eu não gosto de assistir a filmes de terror. Do mesmo jeito que eu gosto de assistir a filmes infantis. Adoro assistir a filmes infantis. A criação, a maldade, está na cabeça de cada um. A maldade está na cabeça de cada um. Eu posso citar o clipe de Alexandre Pires, é um clipe que está sendo apontado como descriminação racial. Porque no clipe tem macacos, eles se vestem de macacos. Mas como ele vai fazer isso, se ele é negro? Mr. Catra é negro. Eu nunca vi nada demais naquele clipe. Mas outros estudiosos, outras pessoas estão vendo isso. Eu não vejo. O momento agora é o seguinte: vamos pegar tudo isso que está acontecendo e vamos usar a favor da situação. A banda Abrakadabra nunca esteve em nenhum momento querendo fazer apologia à sexualidade. Mas já que estamos sendo acusados disso aí, o que vamos fazer? Vamos fazer um retroverso. Estamos fazendo uma campanha a partir de agora, no Facebook está entrando a campanha de prevenção à violência à mulher. Eu gostaria que todos compartilhassem, colocassem no Instagram, onde puderem. Eu chamo os grupos que estavam falando do Abrakadabra, que é apologia ao estupro, para ajudar a gente a divulgar isso aí. Se era intenção nossa fazer apologia ao estupro, como eles estão falando, então agora nossa intenção, já que eles estão falando, continua a mesma: levar alegria. Vamos nos juntar agora com os movimentos e fazer essa ação social.

A.J.: De que forma vai acontecer essa ação?

P.: Essa ação vai acontecer no Facebook, nos nossos shows e nas ruas em outdoors.

A.J.: E qual é a mensagem que vocês pretendem passar?

P.: A mensagem é a prevenção de várias coisas que acontecem com a mulher, até aquela parte do clipe hoje a gente pode usar como prevenção, a própria parte do bosque, prevenir que as pessoas não andem sozinhas na rua, prevenir que as pessoas tomem cuidado ao ir a algum lugar sozinhas por poder passar por essa situação, como eles citam que é uma situação corriqueira. Mas não é uma situação corriqueira. Não é uma situação que acontece de manhã num canto, de tarde no outro e de noite em outro. Na esquina da minha casa, na padaria perto de onde eu moro, na escola que minha namorada vai, etc. Não é isso o que acontece. Eu não vejo gente sendo estuprada a todo momento. Isso é uma questão que acontece, mas não corriqueiramente. Não é todo dia que acontece isso. Essa situação já é para prevenir. Se eles fizeram isso aí, esse grupo todo, que eu respeito a opinião e tudo mais, contra o Abrakadabra, que se juntem a nós agora e vamos fazer uma prevenção de tudo isso aí. A favor da mulher. A situação não é toda sobre isso? Não é o que estamos contra? Então vamos fazer, agora, uma situação à favor da mulher. Vamos reverter a situação. Vamos nos juntar todos e fazer isso. E agora, já que tem essa situação de uma interpretação de que aquele começo do clipe é isso, nós vamos tirar.

A.J.: Vocês pretendem tirar o clipe do ar ou vai ser só essa cena mesmo?

P.: O início do clipe. Vamos tirar o início do clipe. A outra parte do clipe é toda dançante. A gente pode perceber isso, totalmente, no vídeo.

A.J.: Mas existem outras partes que as pessoas não recebem muito bem, como a reação da mulher à chegada de vocês na casa, ela sai correndo. Vocês não pensam também em tirar o resto do clipe do ar?

P.: Não vamos tirar essa parte. Nós analisamos junto com cineastas e advogados e vimos que as outras partes não têm nada a ver. Simplesmente é uma parte em que ela, realmente, faz como diz a música. Não é uma parte em que ela corre, ela não é pegada em nenhum momento de forma abusiva. Ela só fala. Não tem mais situação nenhuma. A situação que o povo mais está comentando é a parte do começo.

A.J.: Com relação à campanha que vocês estão bolando: vocês não acham que mais importante do que avisar as pessoas de que elas não deveriam sair sozinhas à noite e evitar esse tipo de coisa, é a própria conscientização dos homens de que o estupro é algo errado?

P.: Mas automaticamente, quando você faz uma ação a favor das mulheres, você está conscientizando todo mundo. Sim ou não?

A.J.: Mas pelo que você me falou, a mensagem principal na qual vocês estão focando é essa de que as mulheres deveriam…

P.: Não, é a violência contra a mulher. O estupro é feito por quem? Pelo homem. A gente está fazendo a defesa de quem?

A.J.: Mas a mensagem que vocês estão passando não é mais direcionada às mulheres do que aos homens?

P.: A mensagem é defesa da mulher. Se eu estou falando de defesa da mulher. Então é pra quem?

A.J.: Na visão de algumas pessoas, o que está acontecendo é um ataque mais relacionado ao preconceito musical. O que você acha disso?

P.: Olha só, a música está livre para você escolher o que quer ouvir. Se eu chegar a um lugar hoje e tiver algum estilo musical que eu não goste eu vou sair daquele local. Se eu estiver em minha casa e estiver passando na televisão eu vou tirar. Então nós somos livres para escolher o que queremos. Se as pessoas estão atacando pelo estilo musical, azar o delas. Eu tenho público e tenho fãs que gostam muito do estilo musical que a Abrakadabra leva. A gente não leva maldade nenhuma a nada, nunca na vida. Até porque nós somos trabalhadores, nós somos estudantes, nós somos pessoas de bem, entendeu? Então, quer curtir o seu estilo musical, curta, não precisa atacar o outro. Tá passando na rádio um arrocha? Você quer curtir rock? Mude para outra rádio que passe rock. Ou então não escute a rádio, compre um CD, bote num pendrive, escute no seu notebook. Estilo musical é cada um com o seu, ninguém tem que obrigar ninguém a escutar nada, entendeu? É livre. A gente tem livre arbítrio no Brasil para escutar o que quiser, para assistir ao que quiser. Não sou obrigado a assistir a nada que eu não queira. O programa que eu mais vejo é o do Jô. Não assisto a mais nada na televisão.

A.J.: Mas também existem polêmicas parecidas envolvendo estilos musicais considerados mais “elitizados”. Por exemplo, a Bidê ou Balde, uma banda de rock gaúcha, lançou há uns anos uma música que foi interpretada por muita gente como uma apologia à pedofilia. Também já aconteceram coisas do tipo com o Ozzy Osbourne, com o Eminem… Você não acha que neste caso o problema das pessoas realmente é com o conteúdo?

P.: É interpretação. Você falou tudo: banda de rock, banda de MPB… É interpretação. Eu acho que já nem tem mais a ver com estilo musical. É a interpretação de cada um com a letra da música. Por que é que uma criança não interpreta nada disso? Por que idosos que curtem minha aula, que curtem meus shows não interpretam nada disso? Então a gente passou de crianças para idosos, que têm uma formação de opinião muito forte. Então o que eu tenho a dizer é que a música está hoje estourada em três estados e cantada pelas maiores bandas da Bahia, praticamente. Só não chegou ainda até Ivete Sangalo, Asa de Águia e Chiclete com Banana, mas o Psirico já tá tocando. O Trio da Huanna já tá tocando. Uma dupla sertaneja chamada Caio & Bruninho, do triângulo mineiro, já está com ela no repertório. Então gente, vamos curtir o que a gente gosta. Se não gosta, não curte.

A.J.: E como está sendo a reação dos seus fãs a isso tudo?

P.: Eu tenho que agradecer a todos os meus fãs, pedir desculpas pelo que está acontecendo e agradecer também às bandas de Vitória da Conquista, porque todas abraçaram, me ligaram, deram apoio… Todos os fãs deram apoio… Então, para você como é interpretação: meus fãs assistiram e reassistiram ao clipe e não acharam nada demais. Eles poderiam agora com essa nota que tá se colocando reassistir e achar alguma coisa, mas não acharam, eles apenas gostam da música e viram que é uma forma de divulgar o trabalho da gente. Então muito obrigado por tudo (…) e eu peço a todos que entendam que não tem nada a ver com apologia ao estupro. Ninguém quer e ninguém vai querer fazer isso nunca na vida. O Abrakadabra tá aqui para levar alegria para o povo.