Opinião: Uma carta para Ivete Sangalo

O jornalista, e fã de Ivete Sangalo, Rafael Flores, faz um apelo à cantora

Ivete,

Quando você canta “Fã”, eu fecho os olhos e me vejo debaixo de um trio elétrico dedicando ela a você, sei seu repertório de carnaval de cor e salteado e não vejo a hora de te ouvir cantar “Eva” na saída do Campo Grande em um futuro carnaval. Falo isso apenas para não me confundirem com um hater de internet, mas não é pra falar sobre isso que vim aqui.

Perdemos uma quantidade de vidas equivalente à destruição total da população de Jequié e Vitória da Conquista juntas, cidades que você conhece bem. Sei que essa dor completamente evitável chegou aí, assim como em todas as famílias que perderam alguém pela doença, todos vimos o seu post no instagram lamentando as 500 mil mortes no país pelo coronavírus. Creio na sinceridade e no esforço com que jogou esse recado no mundo:  “Não é natural. Não é uma mentira. É estarrecedor pensar sobre as milhares de vidas ceifadas e dores irreparáveis em torno dessas perdas”.

Não esperava menos de você que o luto. Mas ainda fica um incômodo, sabe? E eu vou te dizer qual é: faltou uma hashtag. É isso mesmo, só isso. Faltou dar nome aos bois e enfrentar a dificuldade em apontar os responsáveis e tensionar a real mudança. Ninguém defende desmatamento ou corrupção, assim como ninguém com a cabecinha no lugar acha legal que 500 mil pessoas tenham que morrer. 

O seu post me pareceria suficiente em uma tragédia pontual, como a queda do avião da Chapecoense (só hoje foram contabilizadas 77 mortes de baianos, 6 a mais que no acidente). Porém, não estamos falando da mesma coisa. Como você pontuou, não é natural e se não é natural tem ação humana e isso tem, sim, que ficar claro, não preso nas entrelinhas. Não é um fetiche da esquerda delirante ver o presidente Bolsonaro punido por tudo o que vem causando, é um dever humanitário.

A essa altura do campeonato, não nos interessa nem um pouco saber qual número você cravou na urna, ou se absteve. Não mesmo. Nos interessa a sua preocupação e carinho com o povo que lota seus shows, festivais e carnavais. Nos interessa sua empatia com o pequeno artista que está sem sustento, com o jornalista que é atacado pessoalmente pela figura que está lá, com o público LGBTQIA+ que morre a partir das agressões públicas.  

É preciso também, Ivete, fazermos um recorte sobre as pessoas negras do nosso Brasil, essas que estão na base e raiz da sua arte. São elas as que mais morrem, têm mais chance de ser infectados e correm maior risco de hospitalização pela doença. Pessoas brancas, como nós, devem estar atentas a esta realidade, do contrário seremos, mais uma vez, cúmplices de outro genocídio.

Entendo o seu medo em se vincular a partidos políticos e sempre cair fora quando estão por perto. É complicado, mas a nossa democracia ainda depende deles e de suas formas de organização. Negá-los é negar a própria democracia, e isso eu tô ligado que você preza. Você é uma mulher do mercado e dos negócios, mas sabe muito bem o valor da política pública cultural do estado para colocar um trio na rua, por exemplo. Graças ao posicionamento, mobilização, articulação de artistas do país inteiro com os partidos, saiu a Lei Aldir Blanc e caminhamos para a Paulo Gustavo, tirando artistas da boca da miséria. E essa foi uma mobilização que necessitou de um enfrentamento ao presidente, obviamente.

Seus trabalhos voluntários e doações sempre foram importantes e acompanhadas pelos fãs e pela mídia. Mas não é sobre isso também que falamos, é sobre usar ferramentas que você possui para mudança de uma realidade posta, sem precedentes e muito, mas muito, difícil de superarmos. Só será possível sair dessa juntos, com partidos, movimentos, pessoas públicas, artistas e cidadãos independentes.

Não dá pra colocar todo e qualquer político/partido no mesmo barco, Veveta. Espero que a gente possa trocar uma ideia qualquer dia e realizar meu sonho de te ouvir cantar “Nayambing Blues” acústico para comemorar o fim da pandemia e a queda das pessoas que mataram os nossos irmãos. Fogo na babilônia!

Um cheiro e #ForaBolsonaro,

* Rafael Flores, jornalista, DJ, produtor cultural e fã de Ivete Sangalo desde 1993.