Opinião: Meu caro amigo eu ando aflito pra fazer você ficar à par de tudo que se passa

Por Felipe Martins

Dia desses conversamos e você me disse que achava muita hipocrisia as pessoas irem às ruas “fazer campanha” fora de época, que era a mesma coisa que Bolsonaro fazia, e que por isso ninguém poderia criticar ninguém, pois se o presidente fazia era genocídio mas se a oposição fazia era protesto. De início esclareço uma coisa: Protesto é sempre contra. Até quando é a favor de uma causa, instaura-se contra uma ordem imposta (manifestação do orgulho LGBTQIA+ por exemplo). Portanto, “manifestação a favor” é eufemismo pra propaganda política. Dentro dessa sua fala você enfatizou que olha tudo com um certo distanciamento, sem paixões partidárias ou ideológicas, e fico triste que você ainda se enxergue assim e ache que realmente é isento ao julgar.


Não sei se você já sabe, mas um dos motes do neoliberalismo é empurrar a culpa de seus projetos fracassados sempre para o lado oposto, é assim no mundo e não seria diferente de ser assim no Brasil. Privatizamos a telefonia e não deu certo, a culpa foi do estado; Privatizamos a Vale e desastres aconteceram, mas a culpa é do estado, privatizaremos os correios e as coisas ficarão mais caras, mas a culpa será do Estado. O projeto neoliberal nunca é culpado, só os executores, assim como será Bolsonaro quando ele sair. (Alguns neoliberais já começaram a pular do barco que eles mesmo levaram para navegar, não se esqueça! Voto nulo entre duas opções é dar a vitória para a maioria).
No começo dos cursos de ciências humanas geralmente estudamos sociologia e, dentro dessa matéria, a folclórica ideia de imparcialidade. Mas vamos ser francos, é impossível ser imparcial. O que cobram sempre dos que são de fato partidários é que se façam de isentos, que olhem as coisas com isenção e imparcialidade. Isso é impossível, cada cidadão tem sua formação, sua origem e isso reflete diretamente na sua forma de enxergar o mundo, do que você considera importante para si e para sua comunidade. Dito isso, voltemos às manifestações.
Acho triste você conseguir colocar em algum pé de igualdade a palhaçada feita pelo presidente e sua legião de motoqueiros reacionários e a manifestação contra justamente quem nos colocou nesta situação. Posso te falar pois eu estava lá, eu vi pessoas de máscara (a maioria esmagadora de PFF2 - a mais segura e acessível - que foi distribuída gratuitamente no ato) durante todo o ato, vi pessoas pedindo para respeitarem o distanciamento e marchando de forma separada e vi a indignação de familiares e amigos que perderam pessoas queridas por conta de medidas que poderiam ter sido tomadas antes. Poderíamos ter sido uma vitrine de vacinação, mas o governo preferiu insistir em remédios que parecem só funcionar no brasileiro, já que em nenhum outro lugar do planeta são utilizados.
Confesso pra você que estranhei a convocação do ato de início. Assim como você pensei “poxa, mas estão morrendo duas mil pessoas por dia!” e acho que se esta convocação tivesse sido há um ano eu não teria ido por medo da pandemia. Mas nessa equação de ciências humanas temos uma variável que as ciências exatas não explicam: o povo. Justamente por já fazer mais de um ano que temos um alta mortalidade, um desemprego galopante, micro e pequenos empresários fechando seus negócios é que temos que nos indignar. 


Veja bem, eu não acho certo se aglomerar, mas não foi isso que vi ocorrer no ato que fui. As pessoas estavam em espaço aberto, distanciadas e 100% do tempo de máscara, será que isso se equivale à se juntar com algumas centenas de motoqueiros de opiniões um tanto questionáveis e passear por uma das cidades com os piores índices de infecção, sem máscara, sem distanciamento e ainda fazendo graça de quem decide adotar estes protocolos? Sinceramente eu acho que não, e acho que você, no bom senso que acredito que tenha, também acha que não. 

É preciso saber interpretar os fatos que chegam até nós e talvez descer do pedestal da imparcialidade. Você não é imparcial, ninguém é, mas não é apenas por paixão à um candidato que as pessoas estavam nas ruas, acho justamente o contrário, que é muito mais pelo ódio ao presidente que todos estavam ali (eu incluído). Conversar com o empresário que quebrou, com o trabalhador desempregado, com o pai/mãe/filho/marido/esposa/namorado/namorada que ficou só me ajudou a interpretar estes fatos e acho que te ajudaria também. As pessoas estão indignadas, meu amigo. Se indignaram com a chegada da doença e a quarentena, se indignaram com a falta de propagação de medidas de cuidado, com a propaganda de remédios ineficazes e mais recentemente com a ausência de vacinas, que teriam vindo mais baratas que os demais países (Israel pagou U$30 pela vacina, aqui sairia a U$10!). Então é difícil não se indignar. Eu particularmente acho que a indignação ainda é pouca, esse país tinha que parar, a população poderia estar nas ruas revoltada com a situação. Existe um mito de que o brasileiro é um povo pacífico, do qual eu discordo. Eu acho que o brasileiro é um povo explorado desde a sua origem e se livrar dessas relações é algo muito trabalhoso, mais ainda no cenário atual em que nos encontramos. 


Fiquei triste ao ver pessoas que considero como aliadas na causa se apoiarem em textos da grande mídia acusando de “erro tático” ou “tiro no pé” as manifestações. Isso deveria nos mostrar que mídia é essa que glorifica tanto a população nas ruas em outros países durante a pandemia, mas condena esta mesma população na rua quando é no Brasil. Essa mesma mídia tenta partidarizar a manifestação para lhe dar descrédito. Isso não é novo, se buscarmos uma memória não tão recente, a globo disse que o povo nas ruas na campanha das “Diretas Já” se devia não pelo protesto, mas sim pelo aniversário de São Paulo.


Essa mesma imprensa e seus colunistas deveriam se candidatar pois são uns baita estrategistas, já reparou? Sempre sabem o que a esquerda tem de fazer, onde tem de se apoiar, o que deve levar em consideração, mas sempre se dizem imparciais. Se essa mesma esquerda não segue esse manual de instruções, aí acusam de estar promovendo a reeleição do presidente ou de condenar o país à Pandemia, como se já não estivéssemos afundados nela. Para a grande mídia a esquerda no poder e na oposição sempre estará errada pois não aceita seguir suas instruções envoltas de ideias neoliberais.


Pegue as manchetes do último domingo: Qual jornal que você acompanha deu algum destaque para os protestos? Ou foram apenas uma nota no canto da página? Acha que é coincidência? Como te disse, ninguém é imparcial, todos tem um projeto, alguns estão do lado do povo, outros aparentam estar por conveniência. Desista de achar um veículo que tenha uma posição neutra, você não vai encontrar. E desconfie dos que se disserem assim! Ter um posicionamento não quer dizer que não se pode narrar os fatos como eles são, pelo contrário, acho que o bom jornalismo se faz justamente divulgando os fatos relevantes para a população, trazendo também para essa população o contexto em que estes fatos ocorreram, para que o cidadão forme a sua opinião e não vá sendo levado pelos interesses dos donos da mídia (que, pasme, são totalmente opostos do interesse da população em geral). 

Sei que na nossa conversa você apenas desabafou a desilusão de ser brasileiro hoje em dia, a falta de perspectiva de melhora, e não te julgo, também me sinto assim: somos um país que já foi desenganado até pelo Papa, mas se Francisco soubesse de como as coisas realmente andam por aqui e de como o presidente e seu projeto tem uma ajuda velada da grande mídia e do 1% mais rico do país, ele saberia porque “a gente vai levando de teimoso e de pirraça/e a gente vai tomando que, também, sem a cachaça/ninguém segura esse rojão”