Opinião: Frivolidades

Por Afonso Silvestre

Cena da madrugada na televisão: um salão imenso de igreja neopentecostal, milhares de pessoas, e no meio da estrutura suntuosa, um peixe enorme com a boca aberta, de dentro dele vem a voz do pastor (ou bispo) que prega, e quando sai pela boca, vestido de branco feito um pai de santo, conclui: “… e Jonas sai da boca do peixe; este peixe, ele representa seus problemas, ele representa suas dívidas, a indiferença conjugal, a bebida e as drogas, os negócios que não vão bem (…) e por isso você tem que sair de dentro dele, você tem que ser jogado pra fora dele (…)”. Os gestos ostensivos eram um movimento circular das mãos indo do peito à frente e repetindo enquanto se inclinava a cabeça e levantava os calcanhares, como quem vomita.

A manifestação estética expressa na alvura do salão, nos detalhes arabescos do peixe, em “azul-clarinho” e dourado, a preocupação em não pintar os lábios do bicho em vermelho, e tudo o mais, faz parte de uma herança ruim do pós-modernismo. Esse ato de colher, pinçar um discurso, tirá-lo de seu contexto e empilhá-lo como mais um chapéu num cabide é como uma manifestação da pós-modernidade fora da arte, o que tem se mostrado um desastre em muitas de suas ocorrências. O catolicismo do peixe, a ascendência afro-religiosa na roupa branca do pastor-bispo-pai-de-santo, a confusão na utilização do título, se é pastor protestante, bispo católico, o quê. O discurso do óbvio, vazio, do vendedor de livros ou do palestrante de auto-ajuda (algumas vezes o vestuário coincide), a inclusão no cristianismo de uma nova legitimação da usura ao associar o sucesso material à proximidade divina, o pinçar na história uma questão medieval, aliás, tudo isto é pinçado de discursos específicos e distintos para ser tijolo de uma nova construção.

Isto também ocorre nas igrejas cristãs tradicionais, tanto nas católicas renovadas quanto nos descendentes diretos do protestantismo batista norte-americano. Dia desses ouvi um sermão pelo rádio, que me fez lembrar o apóstolo Tiago. O pregador falou, reproduzindo aqui de memória, que é “hipocrisia farisaica isso de falar que apenas Deus a si basta, e viver em simplicidade, porque o meu Deus é um Deus de riqueza”… e seguia dizendo o pastor, que parecia estar falando para um público de classe média, talvez empresários: “Temos que ter coragem porque Deus está conosco; se os negócios vão mal, não temos de temer a ousadia; se for preciso diminuir o salário dos empregados, que se diminua… não importa se é contra a lei porque Deus está conosco e Ele testa nossa coragem o tempo todo.” Então me lembrei do capítulo 5 do Tiago, que, em poucas palavras, diz: se bulir com o salário do trabalhador homem simples, está mexendo com o Senhor de todos os exércitos. 

O pregador do rádio, no mesmo discurso, deu o exemplo de um outro pastor, conferencista norte-americano, “bem sucedido, com três Corvettes na garagem, uma casa construída no alto de um morro artificial, com um lago, etc, etc, etc…”. Já vi diversas referências a esses interesses em várias religiões, do candomblé, na simplicidade do fiel que disse estar “feliz com o emprego que Xangô arrumou” pra ele, passando pela família católica que explora como escrava uma empregada doméstica desde tenra adolescência, “tratando-a como membro da família”, até o conselho do pastor de O Boi, filme do fotógrafo sueco Sven Nkvist. Na história, que se parece um pouco com Os Miseráveis de Victor Hugo (roubar para alimentar a família e depois ser punido pela Lei), o pastor convence o homem que roubou um boi a se entregar. Ele o faz, pega prisão perpétua. O pastor se casa com sua mulher.

O modo de agir social que herdamos da estética pós-modernista se mostra desorganizado como ela, que, em suma, tem exatamente como objetivo mostrar a instabilidade e a desorganização do mundo contemporâneo. No caso do comportamento social, o que era objeto da arte passa a ser a própria manifestação, inconsciente, ou reprodução, de uma maneira crítica de ver a vida. Esta desorganização é muito clara no Brasil cordial, onde, segundo Sérgio Buarque em Raízes do Brasil, as profissões se dão como meros acidentes na vida dos indivíduos, e isto vale também para a nova categoria de trabalhadores, os pastores e bispos neoprotestantes.

Aceita-se o cargo (não os encargos de responsabilidade) e pronto, “estou ganhando minha vida honestamente”. Sem estudo prévio com orientação adequada, o que se ouve nos cultos são conselhos tortos, baseados em leituras obtusas, praticamente “autodidatas”. Trata-se a religião como um negócio qualquer, ou um emprego qualquer. Vou ilustrar esta idéia. Uma protestante, batista, convertida do catolicismo há muitos anos, refutou o leite de soja da marca Ades por ter em seu nome o significado de “inferno” (confundindo com o Hades da mitologia grega, que nem é o equivalente de inferno no imaginário cristão). Tratava-se da reprodução da fala do líder religioso que se sente protegido por sua ignorância ao mesmo tempo em que se exime da responsabilidade do saber científico, por ser “inspirado por Deus”. Vomita pílulas de ignorância e opressão, devidamente colhidas e engolidas pelos fiéis. Como diria Jorge Luis Borges em seus Fragmentos de um Evangelho Apócrifo, “desventurados os pobres de espírito, pois serão debaixo da terra o que agora são na terra”. 

Por sua vez, a irmã desta personagem é pastora (“evangélica”, de religião indefinida). Certa vez, conversando com ela, rebatia o que me dizia com base unicamente na Bíblia. Num determinado momento da conversa, ela solta esta: “Não dá pra conversar com você, você é muito culto…!” Trata-se de uma família bastante moralista, em que alguns irmãos são filhos do tio, o pai era um bêbado e a mãe uma ex-prostituta que não perdera os hábitos. Uma das irmãs é cafetina da própria filha, que, por sua vez, também é filha de um tio. Pregam a honestidade, mas há registros de golpes contra bens públicos e privados. Conclui-se que, diante do discurso moralista da família, a busca de refúgio na religião só quer dizer da dificuldade em lidar com as próprias frustrações.

Daí, vejamos outro exemplo, que é o de pastores mentindo em rede social para ajudar um candidato a prefeito. A difusão de besteiras inclui um tal “marxismo cultural” que não é explicado, sendo que quem fala nunca leu nada a respeito. Outro caso, não se sabe se por desespero ou por cinismo e certeza de impunidade, um pastor acusou o governador Rui Costa e o deputado Zé Raimundo de praticarem atos de bruxaria e magia. A acusação foi feita por áudio e distribuída em grupos de whatsapp. O tal dito pastor afirmou no áudio ter participado de um momento profético com o prefeito, a mando de Deus, e disse ter ficado sabendo que o governador e o deputado fizeram num sítio na estrada da Barra sacrifício de animais em oferenda ao demônio, como agradecimento pelo resultado do primeiro turno. Na estrada da Barra, que eu me lembre, coisa demoníaca foi o assassinato de pastores por pastores em disputa de fiéis, como traficantes disputam biqueiras. E me lembro também que este tal pastor profeta defendeu o assassino na época… A julgar pela etimologia apócrifa de dominicano (Domini Canis, ou os cães do Senhor), talvez ele seja um pastor dominicano…

Para concluir essas divagações sobre frivolidades, uma anedota: Dona Tute, uma velha protestante “nascida na graça”, sempre reta na vida, tão pura e mesmo assim contrita em orações, educou todos os filhos que hoje dão orgulho à família. Ela, sempre sábia e serena, tricota e observa tudo e todos. Dona Tute recebe Raimundo, o sobrinho fazendeiro e negociante de terras, enriquecido à custa do trabalho de outrem. Ele havia se convertido para alguma denominação neopentecostal, por conta de violência contra a própria mulher, bebida e infelicidade, e viera trazer à tia “um recado de Jesus”. Ela, com cara de pouco caso, pergunta qual é o recado. Ele, imbuído de uma razão supostamente dada por Deus, diz que o Cristo está voltando. Ela, impassível em seu tricô, por cima dos óculos, pergunta: “É mesmo, meu filho? E você comprando fazenda…”