Opinião: “Antifausto”, o espírito que tudo nega

O negacionismo é o tema deste novo artigo de Afonso Silvestre, no qual desenha as relações entre os pensamentos medievais e os dias que vivemos.

Por Afonso Silvestre

Eu sou o espírito que tudo nega!

E assim é, pois tudo o que existe

merece perecer miseravelmente.

Mefistófeles, em Fausto, de Goethe (1749-1832)


Com o advento da modernidade, o homem expressou de muitas formas sua visão de mundo, das mais formidáveis – ao mesmo tempo belas, magníficas, brilhantes e assustadoras – àquelas que seríamos mais felizes se pudéssemos esquecer, o que não é possível. Essas, que representam a negação de todo brilhantismo, beleza e humanidade, infelizmente, ocupam todos os espaços e não podem não ser notadas. Muitas vezes essas posições criam situações graves e delicadas.

A inclinação para a negação da tragédia faz parte dos íntimos de cada um e as pandemias estão aí, ressurgindo para nos lembrar que coletivamente isto também funciona. Estrangeiros linchados em Atenas, no século IV, acusados de espalhar uma doença não identificada. Na Florença de 1348, parentes abandonavam os seus por nojo, mas não se protegiam da contaminação. Também na Europa do século XIV, judeus e mulheres eram apedrejados e queimados por supostamente contaminarem com a Peste. A mesma que, no século XVI, enquanto a humanidade aceitava como fatalidade divina, num espaço de 10 anos matou 75 milhões de pessoas. Cidades culpavam-se umas às outras nas epidemias de malária e febre amarela durante o século XIX em cidades italianas.

Em 1893, o Norueguês Edvard Munch anunciava os horrores do século que viria com “O Grito”, primeira obra de pintura expressionista da história.

Daí entramos no século XX, que se iniciou com uma guerra e uma pandemia. Em ambos os casos, a negação daquela tragédia trouxe despreparo para lidar com a seguinte. A gripe espanhola chegou ao Brasil em 1918, e mataria no país cerca de 30 mil pessoas em um ano (os dados são imprecisos devido à subnotificação, especialmente no interior), e outras tantas nos anos seguintes. O não enfrentamento, a opção pela negação da ciência, o uso de medicamentos ineficazes recomendados até mesmo por médicos e governantes, as anedotas criadas para a ocasião, a difusão de mentiras sobre a pandemia eram indícios presentes do estado de estupidez coletiva que fez multiplicarem as mortes.

Seguindo a tendência “evolutiva” do modo de perceber e enfrentar as pandemias, tivemos na peste do século XX a institucionalização da ignorância. Órgãos públicos de saúde recomendavam o uso de substâncias como “tratamento preventivo” ou “precoce”. O sal de quinino e a “Grippina” eram duas entre tantas supostas curas para a “espanhola”, o que matou muita gente. A imprensa, ao receber a notícia de uma nova doença que se espalhava pela Europa e trazia perigo às Américas, fez piada dizendo que era invenção dos alemães para ganhar a guerra.

Agente de saúde paramentado para combate à peste bubônica no século XVII

Inicialmente a “espanhola” matava idosos, por isso era chamada de “mata-velhos”. Neste clima de descontração ela se espalha. A partir de janeiro de 1918, durante três anos foram infectados um quarto de toda a população do mundo, 500 milhões de pessoas.  Morreram 10%. O governo brasileiro ignorou. A diretoria do serviço sanitário recomendava, através de coluna nos jornais, tomar preventivamente “qualquer sal de quinino nas doses de 25 a 50 centigramas por dia”, como transcrito de uma das colunas Conselhos ao Povo, publicadas durante o governo de Venceslau Brás. Com o crescimento do número de mortos, o governo recomendou que se ficasse em casa e proibiu que se cuspisse nas ruas. A imprensa não concordou com as medidas e estimulou a população a não cumprir, alegando que feriam os direitos de liberdade. Reclamavam da ameaça representada pela medicina oficial e pela “ditadura científica”.

Diante da ignorância, a doença permaneceu. Os governos quase nada faziam. Venceslau Brás em seu último ano como presidente ignorou a pandemia. Rodrigues Alves, eleito em 15 de novembro de 1918, (havia sido presidente em 1902-1906 e enfrentado a Revolta da Vacina), morre em janeiro de 1919, antes de tomar posse. Tanto Delfim Moreira, interino após a morte do eleito, quanto Epitácio Pessoa, escolhido pelo voto popular em 28 de julho, não se sentiram responsáveis pela crise. O efeito não foi sentido imediatamente, porque naquele momento a primeira onda do vírus recrudescia e a situação parecia estar controlada na capital. Mas os surtos continuavam ocorrendo em outras regiões do país. Manaus em 1919 tornou-se palco de uma tragédia e apresentava uma situação muito pior que a do Rio de Janeiro no ano anterior.

Pintura do século XVIII sobre a peste em Marselha

Com a queda do número de mortos na capital, relaxam-se as medidas. O carnaval de 1919 celebrou o “fim da doença”, embora todos tivessem pelo menos um conhecido ou parente morto. Durante a festa as ruas da capital pareciam cenários de orgia em cenas do inferno no Fausto. Aquele carnaval foi a celebração da vida, que retornava após tudo haver parado durante um ano quando só se ouviam falar em mortes. Mas elas continuavam, agora mais distantes. No Rio, não se viam mais pessoas morrendo pelas ruas, nem a polícia capturando homens fortes aleatoriamente e obrigando-os a ajudar a carregar corpos. Assim, com a morte afastada, importava celebrar. Porque a vida é uma festa.

EM CONQUISTA, COMO SE NÃO HOUVESSE AMANHÃ

Na pandemia do início do século XXI, a ignorância da institucionalidade se reforça com a afronta de presidentes contra organismos internacionais difundindo mentiras. Esta atitude medieval se reproduz nas extremidades mais capilares da teia social, e num ponto minúsculo temos Conquista, onde um grupo de médicos diplomados e comerciantes da saúde assina um documento criminalizando o Conselho de Saúde por exigir cumprimento de normas sanitárias e recomendações da ciência. O grupo, centenas de profissionais, também orienta para tratamento ineficaz. Governo local segue na mesma direção. O prefeito, que fez campanha aberta pelo tratamento precoce bem como afirmou ter aderido, adoeceu gravemente e veio a falecer, tornando-se mais um exemplo na imprensa nacional de negacionismo institucional seguido de morte. Obviamente, sabe-se que adoecer, sarar ou morrer não têm nada a ver com o uso ou o não desses medicamentos, mas com o processo natural do vírus em cada corpo, bem como também está comprovado que essas substâncias podem agravar estados de saúde por danos irreversíveis ao fígado e outros órgãos. Ainda assim, grande parte da sociedade protesta em favor da alternativa em detrimento das medidas certificadas de contenção da doença.

O triunfo da morte, tela de Hieronymus Bosch retratando a peste no século XVI

Em entrevista concedida a um blog local, um dos signatários do documento negacionista afirmou em 24 de julho do ano passado que o Brasil teria atingido o platô em contaminações. Hoje podemos afirmar tratar-se de uma mentira irresponsável. Naquele momento o país caminhava para 90 mil óbitos, sobre os quais, hoje, podemos nos referir como “apenas”. Quando o país caminhava para atingir os vergonhosos 200 mil óbitos, o médico deu nova entrevista e afirmou, ao mesmo veículo, a mesma coisa. Trata-se de uma informação dada por alguém que tem autoridade social de poder e conhecimento aos olhos dos cidadãos comuns. Chegamos a 300 mil, e serão 400 mil mortos por covid no Brasil no Dia das Mães.

Mas os ventos da ignorância, da covardia e da ausência de compaixão continuam ocupando espaços. No mês em que morrem dois conquistenses por dia, o Poder Legislativo faz coro à negação. Um edil afirma da tribuna não haver provas de que o isolamento funcione. O mesmo que antes disse ser culpa de Paulo Freire o caos da educação. Em outra sessão, outro vereador reafirmou a mesma mentira sobre a ineficácia do isolamento. De resto, os comerciantes protestando pelo “direito” de deixar seus estabelecimentos funcionando durante a pandemia, na contramão da razão. Nos protestos, a imagem reafirma o modo de ver o mundo por uma rachadura e ter a certeza de estar vendo a totalidade. Ausência completa de leitura sobre o que se afirma com certeza. Uma confusão mental que não consegue estabelecer a diferença entre opinião e mentira, entre o direito à liberdade e a exaltação da violência e da morte.

Fausto tentado por Mefistófeles na obra de Goethe

Em meio aos fatos negacionistas, um deles chamou a atenção pela força da sua simbologia. Os funerais do prefeito levaram grandes quantidades de pessoas a se aglomerarem em frente ao salão de eventos onde ocorreu o velório (com a presença da família e amigos próximos apenas), no percurso do féretro e na porta do cemitério. A transmissão ao vivo pela Prefeitura Municipal e a cobertura massiva dos blogs ressaltaram a comoção do momento, mas não atentaram para os riscos da aglomeração (com exceção de um veículo, a Revista Gambiarra). Era como se, diante da gravidade e da sensibilidade do momento, para que, em nome da preservação da memória e criação de um marco para mostrar que uma vida valeu a pena,  houvesse uma permissão para quebrar todas as regras, como num poema obituário de WH Auden em que, para que se realize um funeral, param-se todos os relógios, as estrelas deixam de ser necessárias e são retiradas, guarda-se a lua, desmonta-se o sol, esvazia-se o oceano e varrem-se as florestas porque nada mais importa.

O FAUSTO, ENFIM

Então, na Peste atual temos o espírito da negação institucionalizado. Poder Executivo, Legislativo, autoridades médicas, comércio, e também religiosas. Uma legião. Na primeira aventura do herói moderno, Fausto, Goethe descreve um Mefistófeles cínico, o espírito que tudo nega e afirma que “do sol e das estrelas nada entendo, tudo que quero é atormentar os homens”. Afirma ser o gênio que nega e destrói, e vê razão no que faz. Segundo ele, a obra do Criador caminha para a destruição. “Seria melhor se nada fosse criado”. Mefistófeles é uma entidade maligna, de quem não se deve esperar menos. Mas e o homem? O que o leva a assumir para si a responsabilidade de representar a destruição, o mal absoluto? Que força, que razão ou maldição podem conduzir um homem saudável a negar o próprio devir?

O Anjo da Morte golpeia a porta de Roma durante a “Praga de Justiniano” em 542. Foram 25 milhões de mortos naquele ano pela peste bubônica (quadro de Jules-Élie Delaunay (1828-1891)

A obra, escrita num momento de rupturas importantes na história, fala da força do capitalismo que atropela toda possibilidade de afetos em nome do lucro. Mostra como o momento histórico era negado em nome da manutenção do absolutismo, mas anuncia como elemento de contradição o capitalismo vindo como o cavalgar de uma manada enfurecida e irracional. 

Pois bem, você tem mãos e pés, cabeça e artes inteiramente suas; se posso encontrar prazer nas coisas, isso por acaso as torna menos minhas?

Se posso comprar seis cavalos, a força deles não se tornará minha? Posso correr com eles, e ser um verdadeiro homem, como se suas dúzias de patas fossem minhas.

(Fala de Mefistófeles) 

Fausto, a tragédia de Goethe, é nada mais que a representação da luta entre o antigo, o absolutismo, e o novo, o pensamento liberal. A luta do reacionário contra o revolucionário da sua época. Fausto, médico, está em crise porque seus conhecimentos medievais mataram mais pessoas do que curaram. Ele não vê sentido em continuar vivendo, mas é salvo pela memória afetiva. Era manhã de Páscoa, quando os sinos lá fora lembram a alegria da infância. Neste momento de fragilidade e grande atividade parassimpática, Mefistófeles aparece para seduzir o intelectual oferecendo a ele tudo em troca da alma. Como o mercado tenta o consumidor, como o político seduz o eleitor.

Aldeões franceses carregam caixões de vítimas da peste no século XIV

O poder, dinheiro, bens materiais, fama ou prestígio oferecidos, tudo aquilo ele tinha. O que queria mesmo, e o diabo não entendia, era todo sentimento do mundo, todo conhecimento, emoções, das grandes alegrias e êxitos às piores desgraças e frustrações. A tragédia foi escrita a partir de 1770, quando Goethe tinha 21 anos, e concluiu aos 83 anos, em 1831, um ano antes de morrer. A plenitude da modernidade, mas uma realidade material assustadora, população consumida pela fome, doenças, guerras e violência do Estado. Fausto tenta explicar o seu desejo de desenvolvimento a Mefisto.

Entendamo-nos: Não ponho mira

na posse do que o mundo alcunha gozos.

O que preciso e quero é atordoar-me.

Quero a embriaguez de dores insustentáveis,

a volúpia do ódio, o arroubamento

das sumas aflições. Estou curado

das sedes do saber; de ora em diante

às dores todas escancaro a alma.

As sensações da espécie humana em peso,

quero-as dentro em mim; que seus bens e males

mais atrozes e íntimos se entranhem

aqui onde à vontade a mente minha

os abrace, os tateie; assim me torno

eu próprio a humanidade…

… e se ela ao cabo perdida for, me perderei com ela.

Mefisto não entende: tudo o que quer é atormentar e destruir a humanidade que despreza. No momento em que o mundo caminha para o desenvolvimento material, não houve um olhar para as massas pobres e desvalidas. Apenas para os lucros e a “multiplicação dos cavalos”.

Pacientes tratados em hospitais durante a pandemia de cólera na Europa, no século XIX. A terceira pandemia, como ficou conhecida, matou um milhão de pessoas entre 1852 e 1860

Se um comerciante quer seguir os protocolos ele tem dificuldades e com certeza não será compreendido simplesmente porque, aos olhos mefistofélicos (embora esta condição não seja deliberada, consciente) dos seus iguais, não há sentido em abrir mão do lucro diário. Em Fausto temos noção das razões ou forças que conduzem a humanidade à desumanidade. É o esforço da intolerância contra o amor. E é aqui que os adeptos da negação tropeçam. Numa combinação dissonante, trazem o universo religioso para justificar atitudes de negação da vida. Trazem a religião para o mundo da ganância, a religião de um Deus que é Amor, representada pelo Evangelho, o Novo Testamento, que veio para contestar os horrores e a violência do Velho. É como se Mefisto, em seu desejo de espezinhar e desarticular o progresso, promovesse entre esses religiosos a completa desintegração da lógica, da razão, do entendimento. Pregam ódio e mentira, negando o que está no Livro que seguem.

Ilustração de 1892, do tabloide inglês The Illustrated Police News, retratava a Gripe Russa como “sem esperança”. A doença, causada pelo vírus da gripe, matou um milhão e meio, inclusive o ex-imperador brasileiro, Dom Pedro II, em Portugal, 1891.

Mefisto vem para encorajar a mediocridade. Quando seus ventos sopram pela terra, ressurgem entidades aparentemente enterradas num passado recente. Elas vêm da obscuridade onde foram lançadas, chegam sem modos, cheias de certezas e com os dedos em riste ocupando espaços de representação econômica, religiosa, social e política,  enxergam um mundo em fragmentos e por isso lhes é difícil. O exemplo mais caricato desta representação mefistofélica no mundo contemporâneo está em Adolf Hitler. Um homem frustrado em suas aspirações de artista que foi acolhido pelas forças armadas, onde criou uma horda de seguidores e admiradores. Desmoralizado juntamente com os seus após a derrota na Primeira Guerra, retorna nos anos difíceis da República de Weimar, que enfrentava as crises política, econômica e moral de um país destroçado por uma guerra insana causada pelos militares. Esses, mesmo com todo o sofrimento, permaneceram no imaginário popular como os verdadeiros designados para “acabar com tudo isso aí” que corroía a nação.

Pintura de Pavel Fedotov (1815-1852) retrata a morte de um paciente durante a sexta epidemia de cólera entre 1910 e 1911

PARA CONCLUIR

Para todo mal praticado há um propósito. Mas qual o propósito do negacionismo, qual a vantagem para quem o pratica? Após um ano de pandemia, com o resultado da orientação contrária à lógica e ao bom senso, o Brasil torna-se perigoso para o mundo, considerando o surgimento e avanço de novas cepas e uma vacinação pífia, com grandes chances de ter sido inútil. Com semanas seguidas de recorde em mortes diárias, a OMS fez um alerta para que o país, que recusou oferta de vacina em agosto do ano passado, se empenhasse em controlar a pandemia em seu território como estão fazendo os demais. Não obstante os avisos, a cada dia cresce o descontrole interno, e isto afetará países vizinhos. Ou seja, não controlando a doença aqui, o Brasil passa a ser uma ameaça na gestão global da crise sanitária.

A atestada fragilidade no trato das relações internacionais por parte do governo brasileiro já vinha se agravando desde 2019. Abandono do protocolo e da compostura, desprezo pela cooperação, manifestações de ignorância, racismo, misoginia, xenofobia, incapacidade para o trato da economia, ataques gratuitos e infantis a parceiros históricos, abandono da gestão ambiental, desrespeito a direitos e etnias. A lista é interminável. O país assumiu, num instante, o caráter de um homem descompensado, incapaz de lidar com as próprias frustrações, covarde, limitado cognitiva e tecnicamente e com sérios problemas de entendimento sobre questões de moral, ética e afetividades. Um antifausto.

Retomo a pergunta: o que leva um homem a negar seu próprio devir e caminhar a passos largos para a própria destruição? E o que faz com que este homem sem qualidades ressurja com amplo apoio popular, ocupando espaços de poder e ampliando assim o seu poder de destruição? Aqui continuam valendo os traços de Eichmann descritos por Hannah Arendt. Ele, responsável por embarcar judeus nos trens da morte que conduziam aos campos de concentração, foi descrito por ela como um ser desprezível e insignificante, inculto, incapaz sequer de se sentir responsável por milhões de assassinatos. “Apenas cumpria ordens”, dizia em sua defesa, com o rosto iluminado pela ignorância mas revestido com uma expressão de cândida certeza sobre tudo aquilo que não leu.

Um homem que ocupa um espaço de poder nunca vai ser médio. Os registros da sua existência pela história vão revelar um Fausto ou um Mefisto, como consequência natural do seu poder. Qualquer ato vai impactar a vida de uma quantidade muito grande de pessoas. Isto vale para políticos bem como também para religiosos, profissionais de saúde e do direito, operadores e controladores da produção e da circulação da mercadoria, do dinheiro e do lucro. Ao apresentar-se fazendo a opção mefistofélica de negar e destruir, revela-se por natureza um ser portador de conflitos internos injustificáveis, derrotado, mas visto como salvação em determinado momento de fragilidades, de baixa autoestima e de desespero.

A bomba relógio explode agora, um ano depois do início da propagação da Peste, em consequência dos atos e escolhas dos homens nos espaços de poder. Autoridades dando sustentação para uma realidade imaginária, um “Brasil Paralelo” que oferece uma espécie de conforto infantilizado, abrigo de um mundo real, um modo autodestrutivo de enfrentar problemas. Assim, o mal assume uma dimensão indefensável do ponto de vista dos indivíduos. Porque esses não têm à sua disposição o aparato do Estado para defendê-los, mas tão-somente para empreender ataques contra a verdade, a dignidade e a vida.

A escolha por representar Mefistófeles, o espírito que tudo nega, é feita em detrimento da vida. Diante do medo, ao invés da coragem, aposta-se na covardia manifesta em mentiras que causam mortes. Largar mão da compaixão pelo outro e pensar no próprio negócio, mesmo tomando a decisão errada que voltará contra si a qualquer momento. Abrir mão do conhecimento e dos meios adquiridos pelo país ao longo de décadas, de todo o capital de produção de conhecimento no qual fomos referência até pouquíssimo tempo. A condição cognitiva é tão assustadora que nem o caos pode alterar aquilo que essas pessoas entendem como “opinião”. E elas seguem felizes celebrando nas ruas e sem máscaras, abraçadas com as instituições, aspergindo seu perdigoto aos ventos. 

No mais, fiquemos em casa para proteger aquilo que temos de mais valioso e sem o que não podemos existir: as outras pessoas.