Opinião: A arte, o amor, os afetos e os conflitos

Afonso Silvestre, historiador, reflete sobre a arte em Vitória da Conquista, viajando por diferentes momentos da sua história e chegando às obras nos espaços públicos da cidade.

Texto e Fotos Por Afonso Silvestre

Vivo numa cidade em que, como todas as outras no país, a discussão sobre a função da arte e o próprio entendimento da cultura e da identidade, o autorreconhecimento, foi ofuscado pelas urgências da peste, da violência, da pobreza e da gana pelo lucro. O escritor Carlos Jehovah conta que, no final do século XIX, quando o Barão de Macaúbas esteve na Imperial Vila da Vitória para a inauguração de uma escola, no momento do ato não havia uma alma que possuísse uma caneta para assinar o documento. Era aquele um tempo assolado pelas pestes, que ocorriam em ondas e matavam centenas de pessoas. As disputas pelo poder político local também geravam mortos, e outros tantos eram levados todos os dias em consequência do alcoolismo e das brigas de rua.

Nas primeiras décadas do século XX homens como Laudionor Brasil, Camillo de Jesus Lima, Ernesto Dantas e outros realizaram movimentos importantes para levar a cultura erudita até a população. Mas não eram tidos a sério. Esta realidade permaneceu por todo o século XX, mesmo a cidade tendo parido gênios como o de Elomar Figueira e Glauber Rocha. Foi mais forte a imagem descrita por Maximilian Wied-Neuvied ao prevenir os viajantes que aqui chegassem, que ficassem atentos à ausência de policiamento e aos jovens bêbados ostentando facões à cintura. 

Também é extremamente opressora a imagem de João Gonçalves da Costa, representado no belíssimo quadro de Orlando Celino, um homem poderoso de pele escura, olhos claros e feições nobres que veio para “eliminar” os “índios” que “atrapalhavam” o “desenvolvimento”, e o fez aplicando a mentira e a selvageria. Quando Regis Pacheco chegou em 1920 para debelar um surto de varíola, logo depois de uma guerra entre familiares por disputa de poder local, declarou para a imprensa: “vejo que, para meu prazer, me encontro em uma cidade ordeira de povo pacato e civilizado”.

Centro comercial de Conquista e a cultura do empreendimento, seja ele formal ou informal.

Da Imperial Vila da Vitória aos dias de hoje, a cidade gerou algumas referências importantes para a cultura, a ciência e a política. Mas prevaleceu o espírito empreendedor e comercial, e este invadiu as áreas de saber a ponto de médicos comerciantes da área da saúde defenderem droga não recomendada pela OMS, ou pastores disputando fiéis como traficantes em disputa de espaço matando-se uns aos outros. Quando o Município ofereceu à população um grande concerto em praça pública, com orquestra sinfônica e ternos de reis compartilhando o mesmo palco, num evento noticiado nacionalmente pelo jornal Folha de S. Paulo, o diário local estampou em primeira página, no dia seguinte, “Angélica tem férias merecidas em Nova Iorque”.

A ARTE PELAS RUAS

O caso das obras de um artista espalhadas em vias públicas, fartamente documentado pela imprensa qualificada, é conhecido. Um artista se oferece para dispor sua obra em via pública, sem custo para a municipalidade (exceto, claro, o uso do espaço público, um recurso). O acordo prevê a permissão de instalação e a retirada da obra em um tempo determinado. O artista, porém, instala sua obra de forma que não pode ser retirada sem que seja destruída. Nesse ínterim, solicita do Iphan o tombamento da obra utilizando como justificativa um conceito de “paisagem cultural”. Porém, o conceito é mal compreendido pelo autor da solicitação, que parece ter feito uma consulta no google para subsidiar seu texto. Naturalmente, o pedido é indeferido pelo órgão federal. 

Historiador e Escultor Gilvandro Oliveira, descendente dos habitantes originais da Batalha, juntamente com o maestro João Omar em conversa sobre a relação da música de Bach, Villa-Lobos e a obra do escultor no que as três têm de relação com a sacralidade e o profano.

No meio desse impasse de razões muito claras, o artista instala nova obra, também com a permissão do Município. Porém, com um agravante: a obra é uma bola de concreto com protuberâncias representando o coronavírus e o que seria uma seringa espetada na bola. Trata-se de uma, segundo o artista, “homenagem aos profissionais de saúde que atuam na linha de frente”. A intenção parece boa. Em redes sociais, a obra foi bastante criticada, inclusive por uma filha de vítima fatal da covid19 que disse ter se sentido debochada. Um dos componentes essenciais da obra de arte é o tato, a sensibilidade do artista para tratar os afetos. Isto o google não ensina. Entre as poucas manifestações a favor, uma pessoa debocha de quem não faz como se fosse por falta de iniciativa. O que acaba sendo uma provocação cínica e desumana, porque os artistas muitas vezes não têm dinheiro para transporte ou comida. 

Para além das questões como legalidade-moralidade em conceder mera permissão para uso de um bem público, a qualidade estética da obra, a consistência do conceito e do discurso, há uma questão fundamental, profundamente ligada ao contexto de pandemia em que este evento acontece. A existência de muitos artistas com reconhecidos trabalhos resultados de estudos, imersões profundas, pesquisas e experiências intensas sobre as identidades e as representações locais, que merecem o tratamento e a oportunidade dispensada no momento a um único realizador. Esses artistas estão sobrevivendo à pandemia a duras penas, com todo tipo de dificuldades decorrentes do isolamento e da falta de trabalho.

Peça António, de Victória Vieira, 2018.

Embora não seja propriamente ilegal, a mera permissão de uso do espaço (que é um recurso público) não trata com igualdade aos diversos artistas locais. Pelo contrário, ao se pressupor a boa fé das partes neste acordo, teremos de concluir que há, em pelo menos uma delas, a ignorância sintomática acerca de políticas públicas de cultura e, tão grave quanto, a triste ignorância sobre a realidade da arte e dos artistas locais.

Cabe, portanto, neste momento, uma reflexão sobre os sentidos e as técnicas da arte, da estética, da cultura, da política. Arte, em grego, se expressa na palavra techné, que usamos para técnica. Grosso modo, a arte é o lugar onde o domínio da técnica em seu sentido mais estrito se une aos conteúdos criativos do artista, e o resultado coloca este num patamar de excelência pela sua capacidade de expressar um sentimento através do domínio da forma. Neste nível, a partir do conhecimento técnico unido à sensibilidade, ele pode traduzir num gesto, imagem, acorde ou movimento, o sentimento do mundo naquele instante, de modo que qualquer pessoa, em qualquer lugar do planeta, se reconheça naquele discurso. 

ARTE, POLÍTICA, TÉCNICA, LINGUAGEM E SENTIMENTO

Está dito que arte é 90% transpiração e 10% inspiração, pressupondo e reconhecendo o trabalho, o esforço intelectual e físico dispendido. Arte é cara, única. Ela desperta o desejo daqueles que têm a atração pela estética, pela beleza das coisas, pela capacidade do ser humano delimitar ordem, simetria e limite ao seu objeto, fazendo dele algo que se quer ter para si (para unir numa só frase um conceito clássico e outro medieval de Belo). Ela atravessa os tempos e traz em si história e memória, e o seu conhecimento é algo que se ostenta, atrai a atenção e o desejo. Para além do valor enquanto objeto d’arte, ela representa status, lucros e possibilidades de ascensão social, quando falamos de produtos reconhecidos como Arte no mundo das artes, dos negócios e do capital. Temos, portanto, só aqui, fora o valor artístico em si, três valores distintos: o da ostentação, o econômico e o do potencial de elevação social. 

Reunião de estudantes durante ocupação da UESB, 2016.

A Política também tem as suas técnicas, resultados de pesquisa, experiência, observação, e, em tempos de crise, muita criatividade. A política também é cara e responde por percepções de mundo. Sendo assim, nada mais natural que haja políticas públicas que se refiram ao campo do sensível e do conhecimento, da Arte enquanto forma de expressar os desejos, os devires, os saberes, as sensações, emoções, a sua reprodução… a Cultura. E o exercício das políticas de cultura,, bem como o das demais políticas públicas, necessita do conhecimento da realidade histórica, da memória, social e geográfica da população para a qual são dirigidas.

Em 1918, diante dos traumas causados pela Guerra e pela Peste, resultados do silêncio, Freud afirma num artigo que, no futuro, os governos iriam perceber a necessidade de incluir serviços gratuitos de psicoterapia como se fazia com a tuberculose. Indica, também, a necessidade de transferência direta de renda para minimizar o sofrimento da população e para se fazer movimentar a economia. Enquanto isso, a Arte, diferente das pessoas, conseguia expressar em obras de beleza monumental todos aqueles horrores, e por isso ela chocava. Por colocar todos diante de sua própria condição, usando uma linguagem de entendimento universal, que traz importantes contribuições para muitos saberes, inclusive a ciência e a política.

Porém, a arte, por mais que haja técnica nela envolvida, vai sempre expressar afetos, vai invariavelmente chocar; vai retratar ao longo dos séculos a luta do amor contra a intolerância, vai denunciar sofrimentos, dar visibilidade às maiores fraquezas, vergonhas, horrores e belezas do seu tempo. É algo subjetivo que remete aos afetos, toca o amor e a fé. E é, antes de tudo, linguagem. Expressar o amor e os afetos é artigo raro nesses dias de intolerância e do aprendizado obrigatório e negligenciado de convívio com uma pandemia. Mas esta dificuldade não é de agora, e ela tem relação direta com a nossa falta de habilidade em nos expressarmos através das linguagens disponíveis. Com o tempo, as línguas se distanciam dos sentimentos, o primeiro sinal é a perda das acentuações, como ocorre com os idiomas modernos. O inglês de Chaucer não é o mesmo de Shakespeare, que por sua vez difere do de Mark Twain. E cá, nosso jovem e lindo Português também vem perdendo os seus acentos, suas entonações, as expressões dos sentimentos que unem a escrita à fala, o texto ao sentido.

Reiseiros em festa na Casa Regis Pacheco, Janeiro de 2019.

Quem já ouviu um árabe falar (muçulmano ou não), sabe que, quando quer se referir com afeto, emite um som que se escreve (ou desenha) luz dos meus olhos. De acordo com a entonação que ele dá à palavra, sabe-se se está dizendo do amor pela mulher, pelos filhos, por uma coisa ou por uma causa. No hebraico e no grego antigos, a escrita vinha recheada de sinais que imitavam a entonação, de modo que o texto e o contexto eram uma só coisa. Como uma linguagem musical. No mundo moderno, com os idiomas sem acento, só temos texto, e o sentido tiramos do contexto. Atrapalhamo-nos na expressão e no entendimento das nossas linguagens. A arte, enquanto linguagem, também é passível dos desentendimentos. E eles começam pela compreensão dos conceitos e seguem rompendo pelo campo dos desejos. E aí reside uma crise bastante delicada que, com cuidado, tentarei descrever, para então concluir esta reflexão.

A arte está ligada aos afetos. O artista é capaz de manipular nossos sentimentos usando sua habilidade para dominar as formas. Um músico sabe que acorde usar para nos estimular a sentir o que ele quiser. Nossos sentimentos são guiados por aquilo que nos afeta. Afetamo-nos por aquilo com que nos identificamos. A partir desses afetos, tomamos nossas decisões, fazemos nossas escolhas. Este ciclo é o cerne do conflito dos entendimentos. 

Anísia, fazendeira de bonecas que tanto gosta de soltar os cabelos e dançar; comunidade quilombola do Boqueirão.

Comecemos pelo amor. Não sabemos ao certo dizer se isto é um sentimento (que está relacionado ao toque) ou uma emoção (algo que nos move). É difícil de exprimir, difícil de compreender. Um ideal que tem como principal referência o texto bíblico de Paulo aos Coríntios, presente em nove entre dez casamentos, mas que se mostra para a humanidade impossível de ser reproduzido. Como a arte, o amor tem seus estatutos, sempre inatingíveis na sua totalidade. Como a arte, o amor é um desejo. Desejar algo que não está ao alcance, embora exista, embora esteja descrito nas bulas, nos códigos, nas sumas. Os alemães, que sempre encontram nomes para definir as coisas da modernidade, chamam a isto, em arte, de kunstwollen, que é a junção da palavra arte com o verbo querer, desejar algo que não está ao alcance imediato.

A Bíblia induz a algumas confusões ou contradições quanto ao entendimento da palavra amor. No caso do Novo Testamento, trata-se de um conjunto de livros mais descritivo, onde Deus de fato aparece no meio de nós. Mas não conseguimos ver, no Gênesis, o Espírito de Deus pairando sobre as águas, um mundo disforme ou a divisão entre as águas e o firmamento. Deus não aparece lá, ele apenas Diz. Voltando para o Evangelho, a imagem de Cristo na Cruz é, de longe, a mais conhecida do planeta cristão. Voltando aos muçulmanos, não é por acaso que proíbem qualquer representação naturalista de qualquer coisa. Arte lá, só abstrações. E, justiça seja feita, matematicamente belas. No meio disto tudo, como falar, ao menos em tese, sobre um sentimento (ou será emoção?) como o amor? Se for para seguir as palavras de Paulo aos Coríntios (I, todos os 13 versos do capítulo 13), preferidas nos casamentos, não podemos nem começar: primeiro porque não se decidem os tradutores sobre o uso do amor ou da caridade ou, ainda, do carisma, que seja. Porque o amor é uma coisa que não se vê ou alcança.

No Gênesis está dito, textualmente, que o homem deixará a casa de seus pais e se unirá a uma mulher como uma só carne, em dores no parto, em suor do rosto. Já o Novo Testamento, concretamente, não consegue visualizar o amor senão por parábolas, especialmente nos Evangelhos. E nos Evangelhos, o mesmo Messias que fala em amar o próximo como a si mesmo, diz que não veio para trazer a paz, e sim a espada. Quem entender, que tome a sua cruz, ou espada, que tem o mesmo formato, e siga. Mesmo Paulo, ao final do texto citado, fala que só compreende por espelhamento. Que a graça, o entendimento, a revelação, só virão depois, na morte, de cujos entendimentos e reflexões temos nos afastado.

O KITSCH, O ADORNO E A AUSÊNCIA DO AMOR

Por não atingirmos o amor dos estatutos, criamos simulacros. “Love is a shiny car”, diz a canção. Assim acontece com a arte. Em sua complexidade de entendimentos e alto valor monetário, ela também se torna algo desejado, mas que não está ao alcance. O principal simulacro da arte é o recurso do kitsch. Esta palavra foi trazida numa reportagem sobre as obras em via pública em Conquista, realizada por um pool de jornalistas e publicada pelo site @avoador, muito bem aplicada por um dos entrevistados, a professora sobre as obras em via pública em Conquista, realizada por um pool de jornalistas e publicada pelo site @avoador, muito bem aplicada por um dos entrevistados, a artista Rogéria Maciel. Mas, o que é isto, o Kitsch? 

Fazendeiras de panelas do Ribeirão dos Paneleiros, na Batalha, em oficina promovida pelo curso de Matemática da UESB onde elas ensinaram o ofício às mais jovens da comunidade.  A prática, que estava se perdendo com o tempo, volta a despertar interesse dos mais jovens, possibilitando e reprodução deste conhecimento e prática.

Quando Marcel Duchamp, no início do século XX, pendurou um vaso sanitário na parede, à guisa de um “quadro”, não se explicou. Quase cinquenta anos depois, Milan Kundera escreveu um livro muito famoso, A Insustentável leveza do Ser, onde retomava a imagem do vaso sanitário, lembrando, inclusive, que o filho de Stalin (na Segunda Guerra, o homem mais poderoso do mundo), quando prisioneiro dos alemães, preferiu se jogar na cerca elétrica a limpar latrinas. O livro de Kundera é um tratado sobre o kitsch. É uma palavra alemã derivada de verkitschen, que significa, literalmente, “fazer novo do velho, verter em novo o velho”, o que tanto pode significar “vender gato por lebre” (quando o comprador é ingênuo) quanto “dar vida nova enfeitando o velho”, sem nenhuma pretensão artística (o nosso kunstwollen), em pura ingenuidade estética.

Popularmente, o kitsch é o que chamamos brega, mercadoria barata feita para consumo imediato. O termo foi usado pela primeira vez no século XIX em sociologia, para designar a atitude do homem moderno que se contenta em ter uma reprodução barata de arte ou artesanato, no lugar de uma coisa autêntica. Não toca o “gosto”, a “beleza”, mas tão-somente o modo de produção, reprodução e consumo. Hoje, na mesma Alemanha onde foi cunhado o termo, esses móveis são produto vintage e chique de consumo, como, por exemplo, as mesas de bar nas calçadas do charmoso bairro de Prenzlauer Berg, feitas com os pés de ferro de antigas máquinas de costura Singer dos anos de 1920 e 1930.

Balaio, vocalista da Dona Iracema

Temos também os tapetes da Santa Ceia (que o senso comum considera incrivelmente “melhores” que o original de Leonardo), os pinguins de geladeira, as toalhas de renda chapeada em plástico, os quadros com aquele azul celeste ou um coração santo e uma coroa de espinhos. Não têm assinatura. Conviver com arte é difícil para o cidadão mediano: custa caro e nem sempre o investimento pode garantir o retorno. Recorre-se ao kistch porque, afinal de contas, as coisas sem um adorno são apenas coisas. E que coisa mais sem-graça seria a vida sem uma toalhinha, por cima dela uma bandejinha, por cima um pires, por cima uma jarra, por dentro água e flores de plástico, tudo com o mesmo motivo floral a partir da toalha. Made in China. É mais barato e faz a diferença no índice social. Sinal garantido no senso mediano de que, quanto mais coisas em casa, mais afortunado é o lar.

O kitsch, portanto, seria a legitimação do precário diante da impossibilidade do objeto de desejo. A mesma legitimação do precário que temos visto despontar em outros ofícios e artes, alguns deles bastante delicados e que exigem conhecimento refinado, como a política, a medicina, a comunicação. Nesses casos, algumas vezes ele vai representar a ausência do amor em nome da perversão, do uso dos outros corpos para gozo próprio. 

Centro comercial de Conquista

A questão é como incluir o amor no mundo do kitsch. De fato, ele parece não caber. A arte está para o kitsch assim como o amor está para o cinismo. O kitsch é um amontoado de referências pinçadas, colhidas de seu discurso original e empilhadas num outro contexto. Não-arte, mas a sua pretensão, querer algo que está distante. Daí elaboram-se instrumentos de alívio para o desejo insuperável, e eles são demasiado artificiais, exigem comportamentos que o legitimem, fazendo assim o movimento contrário ao da arte, ao do amor. Não de dentro pra fora, mas o inverso. A mídia muitas vezes se encarrega de sustentar esta artificialidade, de criar ambientes para a sua reprodução, tornar atrativos os seus objetos, desviar nossos olhares de nós mesmos para algo irresistível, sedutor, capaz de nos fazer abandonar até mesmo nossa própria identidade. Assim, buscamos o adorno ao invés do conteúdo, o instante ao invés da duração. 

Contentamo-nos com o adorno. Aliás, pra não perder o trocadilho, está lá, em Adorno: “o cinema e o rádio não têm mais necessidade de serem empacotados como arte. A verdade de que nada são além de negócios lhes serve de ideologia. Esta deverá legitimar o lixo que produzem de propósito”. Os meios de comunicação de massa são os principais reprodutores do kitsch na vida da sociedade. Um falso amor, uma falsa arte. Eu já vi pela televisão (e alguém deve se lembrar) um senador no Senado com gravata de Pato Donald, um modo kitsch de ostentar seu próprio cinismo. A Arte nunca foi compreendida ou alcançada pelo grande público. A sociedade, em geral, vítima dos eventos que cria, não tem tempo para apreciar o belo enquanto objeto de reflexão sobre a vida.

A MÍDIA E O ALÍVIO

Então são utilizados simplificadores para que as pessoas sintam-se contempladas através de uma ilusão de conhecimento. Um exemplo curioso é a ideia de se criar uma língua universal, o esperanto. Trata-se de uma tentativa que consiste em escolher palavras de diversas línguas, pinça-las do seu contexto original e empilhar formando uma colcha de retalhos em forma de linguagem. Por que não funciona? Vamos usar a palavra queijo, que o esperanto escolheu a da língua francesa para representar esta coisa, fromage. Esta é uma palavra doce em sua pronúncia, e expressa bem o sabor adocicado do queijo francês. No nosso caso, português, queijo (como também ocorre com o alemão käse, que pronuncia-se “kiza”), são palavras salgadas,  estímulo provocado pelos fonemas fricativos nos dá esta medida sensorial. Em inglês, cheese, como o queijo produzido pelos falantes desta língua, é mole e estica. Portanto, o esperanto é precário. Mas é legitimado pelo senso comum.

Alvorada dos Ojás, 2015

A mídia segue cuidando para manter as pessoas afastadas do conhecimento e da grande arte. Recentemente fiz uma busca no youtube por um compositor catalão chamado Fernando Sor (1778-1839). Todos os resultados indicavam “Fernando&Sorocaba”, página após página, a ponto de eu ter que digitar o nome de uma composição do artista para encontrar. Este é o resultado de uma era que dura cem anos, iniciada no alvorecer do século XX com uma guerra e uma peste, seguidas por crises econômicas em cascata, enriquecimento de muito poucos e a completa desgraça para a maior parte dos habitantes do planeta. O século XX foi uma sucessão de traumas e silêncios que se repetem e contra os quais não temos defesas a não ser a cegueira, o dogma, a mentira, a fuga. E o maior reforço dessas defesas, a mídia, que as inocula diariamente em nós. Como podemos tomar decisões? Como podemos fazer escolhas?

Os repetidos silêncios após os traumas nos deixaram indefesos diante do que viria a seguir. Somos guiados por um pensamento limitado, que reproduz o comportamento de situações anteriores diante da miséria da pobreza, e também das misérias da política, da economia, da democracia, da moral, do meio ambiente e sanitária. Vemos nesta pandemia de 2020 governos e até médicos e comerciantes da saúde legitimando e recomendando tratamentos condenados pela OMS. Em 1918 usava-se o quinino, droga não recomendada na época pelos perigos ao coração, para a gripe espanhola. Em 2020, quando o trauma das mortes, muitas delas pela negação, volta a nos assolar, nos vemos diante do agravamento daquela situação, que é a institucionalização da ignorância. Em Conquista foi documentado em carta aberta de apoio ao governo local com centenas de assinaturas de profissionais e comerciantes da saúde defendendo o uso da cloroquina e tentando criminalizar o Conselho de Saúde por este seguir intransigente os protocolos e a ciência. Da mesma forma, podemos assistir governos derrubando barracos construídos irregularmente sem dar aos moradores alternativas de moradia. Pior, há um sinal de algo muito podre no ar quando entes privados fazem o mesmo e têm a conivência da institucionalidade. A cidade assistiu perplexa, recentemente, um ente privado derrubar o barraco e as memórias de uma senhora septuagenária. Sim, há muita coisa podre nas representações e no nosso modo de olhar o mundo.

A mídia reproduz a ausência do amor. O que nos resta, o que fazemos do tempo que nos sobra após passarmos o dia vendendo a alma para não desaparecermos? O lazer nosso de cada dia está pronto, embrulhado e personalizado, para nos dar prazer sem esforço, para nos deleitarmos com o instantâneo e nos esquecermos de que só podemos existir na duração, para lembrar as palavras contidas numa instalação do cineasta George Neri. Todo este esforço para afastar o pensamento ocorrido durante o século XX nos trouxe a um estado de coisas muito semelhante ao de alguns países europeus antes da Segunda Guerra. Total fracasso moral, político e econômico, desintegração das identidades e do reconhecimento de si, a ascensão de fracassados a lugares de poder, seja pela via econômica, política, social ou artística.

A mídia nos alivia de observar a realidade cruel. Resta à arte, e apenas a ela, encarar os horrores que criamos. Nas telas dos televisores, disponível a todos os que podiam tê-los, o arremedo daquela arte que retratava a vida como ela é, e naquilo tudo que nos fazia sentir. Entre uma guerra e outra, entre uma peste e outra, um escândalo político e outro, o século avançou enquanto nós, alienados, só podíamos ver o caos à volta devidamente maquiado. Por ser dura e cruel a verdade, a mídia nos afastou desses aspectos. Assim, pudemos continuar aceitando as imposições do capital. A humanidade se espantou com a tecnologia do início do século XX, e assim permaneceu, boquiaberta, engolindo os produtos da mídia.

PARA CONCLUIR A REFLEXÃO

São, portanto, algumas expressões-chave que envolvem o tema em questão: o amor e sua ausência expressa na intolerância; a fé enquanto referência para o amor e suas impossibilidades; a arte, a técnica, o belo, o kitsch e o arremedo; os traumas e o silêncio; a mentira, a política, os afetos e as escolhas. São elementos que compõem, junto com as referências de mito e memória, as identidades culturais de um povo. O que não quer dizer representar aquilo com que nos identificamos. Porque, como vimos, a mídia desvia o foco das nossas representações.

Embora a cidade de Conquista possua a tradição de manifestações intelectuais de arte e cultura, sempre foi silenciada. A ela e seus condutores nunca foi permitida a visibilidade e atenção devidas. Sendo assim, é natural que um fato corriqueiro possa gerar polêmica. Em todos os lugares do mundo ressurgem novos críticos que, embora nunca tenham consumido ou estudado arte, falam histrionicamente sobre obras, condenam, decretam seu banimento ou o contrário. A imagem é típica, em geral têm o dedo em riste. E há, como sempre houve, os autoproclamados artistas que, mesmo sem o reconhecimento da identidade, do público ou da academia, permanecem obstinados em sua função. Alguns conseguem financiar-se, e têm a oportunidade da posteridade através da disposição da obra em passeio público, com o poder da influência econômica. Outros, como foi o caso de Adolf Hitler, não tiveram a mesma sorte de reunir seus fragmentos, mas tiveram o mesmo dom da influência e do carisma, além de certo poder de sedução, e reencontraram-se no caminho da política. Mas ali também se mostraram charlatães.

A arte é algo poderoso e delicado. Mas cabe à política criar um ambiente favorável para que ela se reproduza, seja vista e sobreviva, ao mesmo tempo em que se promova o entendimento das pessoas sobre si mesmas. A arte é poderosa enquanto resultado de um entendimento sobre a cultura, a memória e as origens, de si, de um grupo ou de toda a humanidade. Ela é extremamente poderosa e capaz de perdurar por séculos, reproduzindo-se em sentidos e entendimentos, sinais e significados. Tudo isto é muito subjetivo. De real, de concreto, o fato é que a Cultura é delicada, precisa de mãos sensíveis que a manipulem. Por outro lado, a Política deve criar o ambiente para que a Cultura tenha visibilidade e entendimento, mas não tem a delicadeza necessária, não lida com subjetividades, mas códigos e instruções normativas. O tecido da Cultura, manipulado pela mão grossa do Estado, se esgarça, se perde. Uma imagem para deixar mais explícita esta ideia, é a fachada da Casa Memorial Regis Pacheco, perfurada em seus contornos por pregos utilizados para afixar mangueiras de iluminação em datas culturais comemorativas. A cada chuva a casa se desmancha.

Porém, com a pandemia, o setor da cultura se mobilizou, criando mecanismos e saberes compartilhados que estão influenciando a visão das políticas públicas sobre o que é a Cultura. A lei Aldir Blanc é um desses produtos, e está viabilizando a vida de artistas, produtores, auxiliares e muitos profissionais. E com métodos replicáveis nos outros eixos de desenvolvimento, desde que todos se integrem numa forma de interseccionalidade. Ou seja, as novas políticas apontam para a integração entre todas as políticas, com a participação da sociedade, promoção de visibilidade de grupos e práticas e garantia de direitos. Um movimento louvável, que surge de onde menos se espera e traz luz sobre o caminho da política neste período de per-pandemia que ainda teremos.

Embora os negue, a cidade tem os seus técnicos altamente qualificados para lidar com questões novas e delicadas. Embora ainda desconheça, a cidade tem um número muito grande de artistas ocupados e preocupados em pesquisar e expressar a nossa memória e os nossos modos de pensar e atuar. Vai caber ao exercício da política, daqui pra frente, especializar-se nesta questão humana e necessária, para poder tratá-la com o devido respeito, dedicação e resolutividade, melhorando, inclusive os entendimentos da população sobre si mesma, ajudando na suas escolhas.