Micaele Machado: “O futebol pra mim é uma entrega, você tem que se entregar de corpo e alma”

Natural da comunidade quilombola do Baixão, em Vitória da Conquista -BA, Micaele nunca quis se profissionalizar como jogadora de futebol, mas tem certeza que esse esporte sempre fará parte de sua vida. 

Por Natália Silva

Hoje, quando a gente chama o Brasil de país de futebol é mais pela relação intrínseca entre o esporte e a sociedade do que pelas cinco estrelas que a seleção masculina carrega no peito. Entre os vários possíveis futebóis, talvez, o mais praticado em terras tupiniquins seja o amador. A galera que bate ponto no baba, como dizemos aqui na Bahia. Uma, duas, três vezes na semana, a depender do grupo, pessoas se encontram, dividem o time, jogam e depois ficam horas jogando conversa fora. Em muitos locais, nos interiores do Brasil, essa é a única forma de lazer e diversão. 

É assim para Micaele Machado, da comunidade quilombola do Baixão, na zona rural de Vitória da Conquista, terceira maior cidade do estado da Bahia, a 509 km da capital Salvador. Ela conta que na localidade em que mora as únicas opções de lazer fora de casa são o futebol ou os bares, nos fins de semana, e assim surgiu seu interesse em se reunir com um time de garotas duas vezes por semana quando era adolescente. Segundo ela, elas até brincavam que iriam se profissionalizar, mas que no fundo encaravam a prática com um alívio para a mente, uma forma de se distraírem e estarem reunidas. 

Seu pai, a princípio, falou que ela parecia querer ficar como os homens jogando futebol, já que é uma tradição ter times masculinos nas comunidades onde tem campinhos de terra. Mas ela sempre foi envolvida com atividades ligadas ao esporte na escola, então ficou tudo bem. Dois rapazes que jogavam no mesmo campo, inclusive, eram quem as ajudavam com alguns exercícios que tinham que ser feitos antes dos treinos que duravam 90min, como os jogos oficiais. 

Mesmo não pensando em se profissionalizar jogando futebol, Micaele o levou em conta ao escolher sua profissão. Ela é estudante do curso de Nutrição, no Campus Anísio Teixeira, da Universidade Federal da Bahia e conta que pensou na importância de uma profissional do ramo para o bom desempenho de um time de futebol ao escolher o curso. Mas depois de um tempo conciliando, as demandas da faculdade acabaram a afastando do campinho da comunidade onde mora, com o curso tendo aulas e projetos em tempo integral, ela começou a chegar muito cansada para treinar, isso quando não chegava quando suas companheiras já haviam acabado o jogo. Depois veio a pandemia e tudo parou de vez. 

“Hoje quando a gente passa pelo campo dá aquela vontade de voltar a jogar, só que circunstâncias não permitem. E se fosse para voltar hoje, eu voltaria porque é uma maneira de sair dessa bolhinha que a gente tem que ficar preso por conta de um problema que é externo. Saudade, sinto muita saudade, qualquer tempo que eu puder realmente voltar e fixar, eu vou voltar e fixar, e ficar ali jogando sempre que puder.”

Pelo tempo em que esteve atuando no futebol amador, Micaele chegou a participar de competições com o time da comunidade quilombola Baixão. Ela conta que mesmo que elas se preparassem para as vitórias e derrotas que poderiam acontecer, sempre tinham medo de perder muito feio. Conheciam a qualidade do futebol feminino amador da região, mas iam assim mesmo. Ela se divertiu ao compartilhar uma memória que faz parte da resenha interna do grupo. 

“[…] a gente tava perdendo de goleada e teve um lance, machucou uma das nossas, aí ela até chegou a desmaiar em campo e tal. Nesse momento o jogo teve que ser pausado para ela receber os primeiros socorros, mas no fim ficou tudo bem. Aí no dia todo mundo ficou triste por conta da situação, mas hoje a gente lembra e fala: se não fosse aquela hora que ela machucou quantos gols vocês acham que a gente teria tomado? Enfim, foi bom que ela se machucou, acho que ela entendeu que era para se machucar, naquela hora, porque estava na hora de parar (risos). Esse é o momento que a gente mais dá risada da situação. Já tava mais para o final do jogo e se deixasse, sei lá, mais uns 15 minutos era uns 15 gols. A gente perdeu de 9×1, foi pior que o Brasil”.

Orgulhosa de suas meninas que saíam jogando levando o seu nome, a comunidade ajudava para que elas participassem dos jogos. Contribuíam para que fossem comprados uniformes, materiais ou locação de ônibus. Micaele conta que havia um funcionário da prefeitura que, também, incentivou a participação delas em uma competição e chegou a ajudar a equipe.  

Apesar de nunca ter se sentido assediada jogando futebol, Micaelle conta que muitas vezes já teve que justificar sua vontade em praticar esse esporte, por ser mulher. Segundo ela, algumas pessoas sempre comentavam que não fazia sentido ela jogar, participar de competições, correndo o risco de se machucar sendo que não ganharia dinheiro nenhum por aquilo. Ela sempre tentou debater, argumentar, mas nunca foi algo que a impedisse de continuar jogando. Por que sabemos que as críticas são por ser mulher? Dificilmente esse seria o tipo de comentário feito a um homem. 

Sobre o futebol no geral, Micaele se entristece por não conseguir acompanhar a equipe feminina do seu time do coração, o Flamengo. Mais do que isso, gostaria que nos dias comuns ao futebol, na televisão, também fossem transmitidas partidas femininas para que meninas de localidades, como a dela, pudessem enxergar a valorização da modalidade e se permitirem sonhar em ocupar esses espaços. Para ela, muitas deixam de pensar na profissionalização por não enxergar um futuro no futebol.  

A respeito do racismo, ela acredita que tem que ser uma assunto ainda mais debatido, com cobranças para que providências sejam tomadas em relação a ele. Micaele acha que em um mundo, realmente, justo este assunto não deveria ser debatido, nem sobre o preconceito contra as mulheres, mas que infelizmente temos que nos posicionar e cobrar mudanças. Ela entende que mulheres negras, como nós, não podem abaixar a cabeça diante do preconceito, temos que nos impor para driblar esse tipo de situação. 

Micaele Machado, como milhares de pessoas pelo país do futebol, nunca assistiu um jogo em um estádio. Não teve a oportunidade de ir ver seu time e não se interessou pela equipe masculina de sua cidade, que disputa a série A do Campeonato Baiano e a Série D do Campeonato Brasileiro. Mas tem um amor pelo futebol que supera as barreiras dos preconceitos e da falta de tempo para jogar constantemente. 

“O futebol pra mim, primeiramente é uma entrega né, que você tem que se entregar de corpo e alma, você está ali, você sabe o que pode acontecer algumas lesões, coisas que você vai carregar para vida toda. […] É um momento também que eu conseguia me reunir com as pessoas que eu gosto, trocar ideias, debater sobre o futebol e outras coisas porque antes e depois do “baba” a gente conversava, fazia reuniões, fazia brincadeiras, marcava para comer e beber. Então para mim é isso, é um conjunto de sensações que na hora que você chega tudo começa a mudar, se tiver estressado, o estresse passa, se tiver triste, a tristeza passa, se tiver feliz, fica mais feliz ainda, que tudo pode acontecer dentro de um campo”.

A Negra no Futebol Brasileiro é um projeto de Natália Silva na Revista Gambiarra, subsidiado pelo Black Lives Matter Football da Fare Network. Neste texto, conta com a assistência de produção de Edyanne Teixeira.