José Barbosa, do bloco ‘Esecutivos’: “Hoje seria muito difícil ter uma festa como era a micareta no passado”

Barbosa explica como começou o bloco, as dificuldades em trabalhar com o Carnaval e lembra de algumas histórias interessantes

Asa de Águia, Cheiro de Amor, Timbalada, Armandinho, Moraes Moreira… Esses e vários outros dos principais nomes da música da Bahia já passaram pelo Esecutivos, bloco que faz parte da história do carnaval de Vitória da Conquista. O início foi despretensioso, mas com o passar dos anos o Esecutivos foi atraindo cada vez mais público – até mudar o seu foco e se transformar numa produtora de eventos.

Aproveitando que o carnaval deste ano está chegando, conversamos com José Barbosa, um dos fundadores do Esecutivos, para conhecer um pouco melhor as origens da folia de Conquista. Ele explicou como começou o seu bloco, lembrou de algumas histórias interessantes sobre ele e falou das dificuldades em trabalhar com o carnaval.

A.J.: Como teve início a história do Esecutivos?

Barbosa: Nós iniciamos com o bloco em 87, quando Conquista ainda fazia carnaval. Na época a gente pretendia brincar, formamos um grupo de 23 amigos, compramos um Opala de quatro portas para brincar o carnaval – de onde se originou o nome, por ser um carro executivo. Ocorreu um erro ortográfico quando eu escrevi o nome “Esecutivos” do lado do Opala com grafite: eu fiz com S. E por ser bloco de carnaval, a gente considerou e virou marca. Hoje é uma empresa produtora de eventos já consolidada no mercado, mas tem mantido o S por ter virado realmente uma marca.

Daí então brincamos o carnaval até 89, quando surgiu a micareta. Nossa história com o carnaval foi tipo assim: em 87 saímos com o Opala, depois a gente foi crescendo, chegamos a 300 foliões… E fomos crescendo gradativamente, participamos de todos os concursos que ocorreram aqui na época de carnaval e também de micareta. A gente trabalhava o ano todo em prol desse concurso – tanto é que ganhamos todos de que participamos. A entidade chegou a se transformar em bloco de micareta depois que passou de carnaval para micareta. Saímos com uns 300 foliões, como falei anteriormente, fomos crescendo e chegamos a sair com 3500 foliões nas últimas micaretas de que participamos. Então é basicamente isso aí o histórico do Esecutivos. Nós saíamos na época do carnaval com bandas locais porque não tínhamos como competir com Salvador trazendo atrações renomadas e nem os trios elétricos de grande porte, os “tops”, para poder participar da nossa festa e por isso mesmo transformamos o carnaval em micareta. Daí tivemos a oportunidade de brincar com todas as bandas da grade baiana exceto o Chiclete com Banana… Mas a exemplo do Asa de Águia – (o Esecutivos) foi o primeiro bloco que o Asa puxou com o nome Asa de Águia -, Cheiro de Amor, Netinho, Timbalada… Praticamente todas as bandas que fazem parte do carnaval de Salvador hoje já foram atrações no nosso bloco.

A.J.: E como eram as negociações? Como vocês traziam essas bandas maiores para Conquista?

B.: Quando nós mudamos para micareta ficou mais fácil, porque o custo ficou bem menor. E a nossa festa era uma marca, realmente era uma vitrine para as bandas. As bandas tinham o maior interesse em vir para a micareta de Conquista e, modéstia à parte, puxar um bloco como o nosso, para eles servia realmente como vitrine. Então a gente tinha essa força para poder barganhar com eles e trazê-los para poderem ser atrações do bloco da gente. E como o nosso, existiam os outros blocos também. A competição era acirrada para conseguir a banda que mais se evidenciava no carnaval de Salvador. Então, de forma muito sadia, a gente conseguia trazê-los e fazer uma festa muito bela.

A.J.: E quais eram as maiores dificuldades em trabalhar com o carnaval?

B.: Bom, como eu te falei, o nosso objetivo era ganhar o concurso. A gente brincava, tinha o maior prazer em fazer o bloco, fazer festa no decorrer do ano… A gente não tinha fins lucrativos, porque todo o dinheiro que ganhava era gasto no bloco e se não fossem outras rendas que a gente possuía, ficava sempre no prejuízo, como existia realmente o vermelho com relação ao caixa do bloco. Mas a maior dificuldade era formatar uma fantasia – nós começamos com fantasia, depois surgiu mortalha, abadá, etc… – para poder participar e concorrer no concurso da micareta e também no carnaval.

A.J.: E o bloco foi crescendo… Isso também fez com que as dificuldades aumentassem?

B.: Nós não nos profissionalizamos. Desde o início era um grupo sólido, a gente já tinha estrutura física para poder administrar o bloco como empresa. Então não tivemos dificuldade. Por exemplo, o número de profissionais mobilizados era bem maior, de seguranças… Mas a gente já tinha todos os macetes e a nossa festa era muito tranquila. A tranquilidade era natural, as grandes marcas da nossa festa eram a tranquilidade e a beleza do povo que frequentava. A gente fazia naquela época um circuito que era maior que o de Salvador, media 480 metros e a gente não via uma briga, não via uma confusão. Então não existia dificuldade. A grande dificuldade era organizar um grupo tão grande para poder chegar em frente ao palanque e se apresentar para ganhar um concurso. Esse era o grande trabalho do bloco.

A.J.: Não vai haver nada de vocês no carnaval deste ano, vai?

B.: Não, nós não participamos mais do carnaval. Nós temos uma produtora, organizamos carnavais em outras cidades… Adquirimos esse know-how e hoje a gente realmente administra carnavais. O carnaval hoje eu tiro mais para descansar. Tenho admirado demais esse trabalho que tem sido feito no nosso carnaval cultural de três anos para cá, gostaria muito de participar, como participei ano passado – sair brincando atrás do trio, dançando as marchinhas da nossa época… Então, teria muito prazer em voltar com um bloco dessa natureza, mas a gente não tem tempo e realmente fica difícil para a gente participar como empresa. Então eu prefiro estar aqui como folião dos blocos que já existem e tenho a elogiar quem está organizando o carnaval cultural da nossa cidade.

A.J.: Foram vários anos no bloco, imagino que tenham surgido várias histórias engraçadas ou curiosas. Tem algumas que o senhor poderia destacar?

B.: Tem muita história engraçada. A história do Esecutivos daria um livro de umas mil páginas. Era uma comédia. Por exemplo, existia o carnaval de rua, em que a gente ia pra rua, brincava e desfilava, e à noite tinha o carnaval de salão, o carnaval do clube. E no clube, que tinha seus 100 anos de existência, tradicionalmente a banda ficava no centro do salão e as pessoas rodavam ao redor do lugar. O Esecutivos se concentrava na Pracinha do Gil, chegava ao clube geralmente uma, uma e meia da manhã, quando todos que tinham que entrar já estavam no salão. Nós éramos os últimos, o baile já havia começado. E o giro dos foliões no salão do clube era em sentido horário. A gente vinha com o objetivo de fazer com que todos girassem ao contrário. Então imagine um salão com três, quatro mil, cinco mil pessoas girando e a gente fazendo com que eles mudassem de direção. Essa é uma das graças da nossa noite de carnaval que ficaram marcadas. Tinha dias em que, após essa brincadeira, a gente nem participava porque era suspenso do carnaval do clube.

Uma das atrações que nós tivemos no bloco foi Jota Morbeck. Que – hoje falecido, que Deus o tenha – foi o melhor cantor de trio, o melhor puxador de bloco e uma das melhores vozes da Bahia na ocasião. Então nós fizemos o lançamento do abadá no Clube Social. Jota Morbeck veio para animar a noite e usávamos mortalha na ocasião. Colocamos Jota como manequim e ele viria do teto do clube vestido com a mortalha para apresentar pro público presente. Isso teria que ter toda uma estrutura de roldana, de guindaste e não sei o quê pra ele descer como se estivesse vindo realmente das nuvens com a mortalha do Esecutivos. E pegamos o público realmente de surpresa quando Jota surgiu, só que enganchou a roldana, o Jota escapuliu da alça que o segurava, ficou pendurado pela perna e isso prensava o coitado pelo meio, imagine o local onde estava segura a alça. Esse Jota gritava no microfone… E teve um momento em que a rádio que estava transmitindo ao vivo, a 96, foi interessante porque ficou parecendo realmente uma coisa programada de teatro, mas foi tudo num improviso espetacular… Então, são passagens assim que a gente dá risada até hoje e, como eu te falei, renderiam um livro de muitas páginas.

A.J.: O senhor já pensou seriamente mesmo em um dia fazer um livro, um documentário ou qualquer coisa desse tipo contando a história do Esecutivos?

B.: Talvez se aparecer um escritor… Por exemplo, a minha filha, que se formou em jornalismo, é muito dinâmica e se interessa muito por essas histórias do Esecutivos. Talvez um dia ela se interesse em fazer, ou outra pessoa, mas partindo de mim mesmo fica difícil. E as histórias que eu tô te contando, todos nós do grupo, que foi crescendo, temos duas, três, quatro histórias para serem contadas e realmente é um livro.

A.J.: Tem mais alguma coisa que o senhor gostaria de falar?

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Foto: Barbosa/ Arquivo Pessoal

B.: É como eu te falei, para a gente foi muito boa essa passagem. Pensaram em retornar com a micareta, mas eu acho impossível exatamente pela forma como era conduzida a festa anteriormente, era uma festa tranquila, naquela época não existiam drogas como existem hoje, por exemplo, naquela época era mais folia mesmo e bebida. Hoje a marginalidade tem crescido, o adolescente está envolvido com drogas pesadíssimas que o levam a crimes, a roubar, matar, agredir… Então hoje seria muito difícil a gente ter uma festa como era a micareta no passado. Esperamos que esse carnaval cultural das marchinhas que tem acontecido em nossa cidade permaneça com essa tranquilidade. Eu faço até um apelo àqueles que pensam em levar para lá o pagode, o carro de som com seu paredão e etc., que evitem e mantenham a ideia inicial que é fazer o carnaval cultural, que eu acho que vai pegar e fica bacana para a nossa cidade.