Joane Ribeiro: “Sempre existiu mais motivos para desistir do que para eu prosseguir”

Por Natália Silva

Desde criança ela sabia que queria ser jogadora de futebol, treinou e treinou, mas teve que desistir. Agora tem a oportunidade de seguir o sonho novamente, mas precisa da solidariedade de quem puder ajudar. 

Quanto vale um sonho? Se você conseguisse colocar um preço no seu, por mais que o valor soasse inatingível, seria capaz de pedir ajuda, de expor suas fragilidades para pessoas que nem conhece, a fim de realizá-lo? Joane Ribeiro passou por cima do medo que tinha e, com o apoio dos amigos, organizou uma vaquinha virtual que, até o momento, é o que está garantindo a ida dela para os Estados Unidos para, enfim, realizar o sonho de estudar e jogar futebol em um país que é modelo, quando se trata de futebol feminino. Mas antes de falar sobre isso, é melhor voltarmos no tempo, para quando esse sonho começou. 

Joane nem se lembra quando foi a primeira vez que jogou futebol, mas sabe que era bem nova e que foi na escola. Entre uma aula e outra de educação física, inclusive, que um professor falou com sua mãe que seria uma boa ideia investir em uma escolinha de futebol para ela praticar fora da escola e com outras meninas. No ambiente escolar não tinha meninas suficientes para formar um time, ela tinha que jogar com meninos nos torneios interclasses e interescolares. Não foi fácil a escolha de continuar a jogar, as pessoas comentavam, falavam com sua mãe que ela queria ser menino porque além de jogar futebol, tinha o cabelo curto.

“Eu sofri muito com Bullying no colégio. As pessoas do colégio faziam muito Bullying por eu ser como era, por está com os meninos, por jogar futebol. Me chamavam de menino.” 

Joane conta que passou, literalmente, pelo torna-se negra. Ela nasceu em uma cidade do interior de Santa Catarina, de ampla influência alemã e italiana. Para se ter uma ideia, quando sua mãe saiu do interior de Minas Gerais e chegou a Jaraguá do Sul, foi a primeira negra da cidade. Como acontece com muitas pessoas Brasil a fora, a família da mãe é negra e do pai é branca. Mas naquela época o que a marcava era, mesmo, o ambiente em que vivia. Apesar de ser negra de pele clara, percebia que era diferente, recebia olhares diferentes, tanto que sua mãe guarda na memória que, ainda muito pequena, pedia para comer batata e arroz, para ficar mais “bonita”. Aos 13 anos tinha progressiva no cabelo, queria se misturar, ser parecida com os outros. 

A realidade se transformou quando se mudaram para Belo Horizonte, capital mineira. Joane começou conviver com mais negros, no entanto só foi estender mais suas origens e respeitar aquilo que era, anos depois, quando se mudou para Florianópolis, cidade em que morava no dia que a entrevistei, quando me confidenciou que teve um “estudo maior sobre raça,  sobre gênero, comecei a ser conscientemente politizada, comecei a entender mais as coisas, já tava mais velha”. Não ter o cabelo crespo, não ter a pele escura, fazia com que não se visse como negra, mas sabia que não era branca, até que entendeu um conceito que enfim vem se espalhando pela sociedade: pretos e pardos são negros. Ela se encontrou e fez com que as pessoas a vissem como tal, como é.

Desde criança Joane já sonhava em ser jogadora de futebol, agora se vê perto da realização desse sonho. Foto: Julia Lie

Voltando a BH, foi ali que teve que aprender, na marra, a falar abertamente sobre sua sexualidade. Ganhou uma bolsa em um colégio particular, conheceu sua primeira namorada e quando a instituição tomou conhecimento do fato sinalizaram a expulsão. Para a mãe não ser pega de surpresa ao chegar no colégio, contou a ela primeiro. Teve o apoio materno, mas foi um período conturbado pela perda da oportunidade educacional. 

“Mas antes disso era a primeira coisa que as pessoas associavam. Elas me viam fisicamente e daí sabiam que eu jogava futebol e associavam o fato de jogar futebol. Ah! porque joga futebol, porque é sapatão, joga futebol é menino macho, as pessoas diziam.”

Joane conseguiu uma bolsa em outra escola particular e quando estava em um torneio da instituição, um olheiro de uma agência esportiva a viu jogar. Tiveram um conversa com sua mãe e ele expôs todas as vantagens de enviá-la para estudar e treinar nos Estados Unidos. O negócio não vingou, não tinham o dinheiro suficiente para o investimento inicial. Joane conta que ficou muito tempo pensando sobre isso, mas seguiu seu caminho distante do futebol. 

Anos depois, já morando em Florianópolis, Joane foi passar uns dias na capital mineira e se reencontrou com uma amiga que estava se preparando para ir estudar e jogar em solo americano. Ela lhe explicou tudo que devia fazer para retomar o projeto e quando retornou a Santa Catarina sua namorada a incentivou a seguir seu sonho e assim fez. No entanto, além da questão financeira, havia a barreira da língua. Joane não sabia, praticamente, nada de inglês. 

No início deste ano, conseguiu uma bolsa em uma instituição americana. Mas veio a pandemia e a bolsa foi cancelada. Não desistiu e conquistou uma bolsa parcial para o curso de negócios com foco em esporte, da Westcliff University. Com a ajuda da namorada, que é professora de inglês, conseguiu enfrentar todo o processo burocrático para iniciar os estudos e se preparar para a viagem. Mas precisa de dinheiro para completar o pagamento do curso e se manter nos Estados Unidos. O preço do sonho? 60 mil reais. 

 Joane Ribeiro organizou uma vaquinha virtual para arrecadar os 60 mil reais necessários para realizar seu sonho. Foto: Arquivo Pessoal

Quando percebeu que não conseguiria pagar tudo sozinha, passou por cima do medo da rejeição e criou a vaquinha virtual e começou a perceber que tem muita gente com vontade de ajudar. Já arrecadou pouco mais de um terço do valor necessário, começou a faculdade de modo virtual por conta da pandemia, e nas próximas semanas conhecerá o lugar onde passará os próximos anos lutando pelo sonho de estudar e  ser profissional do futebol. 

“Sempre tive essa vontade de estudar mais. É muito interessante porque o atleta no Brasil, é eu digo isso falando no futebol, não é incentivado a estudar, ele é incentivado a jogar futebol. […] acho que esse mercado do business ele tem várias possibilidades e focado pra o esporte me chamou muita atenção, que é um meio que eu quero está inserida é onde eu quero ver o esporte feminino crescer em todos os âmbitos.”

Qualquer pessoa pode ajudar Joane a seguir o caminho que escolheu com doações a partir de 10 reais através do link: https://abacashi.com/p/futebol-e-faculdade-nos-eua. Devido ao preço do dólar  esse valor será bem reduzido, mas já serve, pode garantir uma xícara de café  entre uma aula e outra. A força e determinação de Joane e a solidariedade de quem já contribuiu nos mostra que, mesmo em meio às adversidades, é possível sonhar. No entanto, nos expõe o quanto nosso país necessita de mais investimento na educação e no esporte e o quanto precisamos olhar para nossas mulheres, para nossas mulheres negras. 

Não adianta de tempos em tempos sonhar com uma medalha de ouro nas Olímpiadas ou com uma taça da Copa do Mundo Feminina, se não incentivamos nossas meninas a jogarem com o mesmo afinco em que incentivamos os meninos. Não adianta focarmos  no fato de que temos a melhor do mundo porque, como ela mesmo já disse, se queremos um futebol feminino forte, é preciso pensarmos nas próximas gerações. O futebol feminino precisa de um incentivo real, precisa de investimento.

A Negra no Futebol Brasileiro é um projeto de Natália Silva na Revista Gambiarra, subsidiado pelo Black Lives Matter Football da Fare Network.