Homenagem: Carlos Jehovah (1944 – 2020)

Com texto e foto de Afonso Silvestre, Conselho Municipal de Cultura de Vitória da Conquista homenageia e despede-se do escritor Carlos Jehovah

Quando a escritora Rachel de Queiroz prefaciou a primeira edição do Auto da Gamela (Carlos Jehovah e Esechias Araújo), pela José Olympio Editora, seu texto mostrava que surgia ali uma nova força na literatura brasileira. “Não sou juiz de poesia – jamais ousei  – mas juiz de matéria sertaneja, isso eu sou! Poucas vezes encontrei, fora de Ariano Suassuna, de João Cabral, uma força da terra tão viva e violenta como nesse caderno de versos de vocês, nesse Auto da Gamela”.  Esta força, viva e violenta à qual se refere a imortal escritora e profunda conhecedora da alma dos nossos sertões, sempre esteve presente na delicadeza dos gestos, na profundidade do olhar, na mansidão da fala e na prodigiosa e infalível memória de Carlos Jehovah, que neste momento nos deixa.

Mas ele não nos deixa sós, os reflexos da sua passagem por aqui são muitos. Para além da obra literária, os apontamentos, os recortes de memória, os fatos pitorescos que remontam mais de um século, a sua coletânea e classificação, o discreto e criativo anedotário de humor refinado, sutil e quase inglês, a clareza sobre a nossa formação histórica, sempre foram, não se tenha dúvida, um farol para aqueles que buscam caminhos para a compreensão de uma identidade conquistense.

Carlos Jehovah foi o pai presente do teatro conquistense. Descendente direto da geração de Camillo de Jesus Lima, Laudionor Brasil, Ruy Bacelar e tantos outros que mantiveram vivo, a pulso e coragem, o espírito do teatro e da literatura. Carlos Jehovah fez brotar, aqui e ali, manifestações que traziam em si o cheiro e a influência da sua obra, gerando expressões e experiências incríveis, muitas no teatro, algumas premiadas em âmbitos estaduais e nacionais. Ninguém saberia contar melhor do que ele contou tantas vezes a história do nosso teatro, com seu olhar crítico e analítico, algumas vezes distante descansando entre as rugas que se desenhavam nas pálpebras em pele tão delicada.

Diferente da tradição conquistense, Carlos Jehovah não tinha intimidade apenas com os versos, mas foi um exímio prosador. Foram justamente essas referências que emprestaram ao Auto da Gamela a descrição das mazelas sertanejas com uma força que tanto impressionou Raquel e outros grandes escritores brasileiros. Jorge Amado (1912-2001), ao ler “imediatamente e apaixonadamente”, percebeu que “conteúdo e forma atestam uma alta qualidade e realmente servem à causa dos pastores da enxada: ‘a terra é de quem trabalha”, disse o autor de Capitães de Areia. “Vocês recriaram, com uma força de miséria e de sertão, a vida e o homem, ‘missa, caixão e mortalha”, disse Jorge aos jovens Carlos e Esechias.

Enquanto sua capacidade narrativa de prosador crítico cede à poesia a dramaticidade que precisava para retratar nossa realidade, a beleza lírica e elegante dos versos que compunha está repleta de uma simbologia que remete ao senso de beleza medieval, a presença constante dos elementos daquela cultura, em tradição e religiosidade, a mesma que Conquista tanto nega quanto carrega em si… E é tão bela! Pois sim, está toda lá, em gesto, métrica e prosódia de um profundo conhecedor das medidas da poesia.

Poucos conquistenses sabem, mas o Auto da Gamela pode ser tranquilamente colocado ao lado de Morte e Vida Severina (João Cabral de Melo Neto, 1955) e o Auto da Compadecida (Ariano Suassuna, também 1955). Também poucos sabem, mas o Auto, que conta a vida curta e dolorosa de uma criança sertaneja, é apenas uma das tantas obras deixadas por Carlos Jehovah. Recomendamos a todos esta pesquisa que, a depender da sensibilidade do leitor, com certeza vai trazer luzes sobre seu autorreconhecimento.

Carlos Jehovah foi também um incentivador de artistas que ele reconhecia como grandiosos e importantes na luta pela promoção da visibilidade das identidades. Augusto Boal (1931-2009, criador do Teatro do Oprimido) e Plínio Marcos (1935-1999, teatrólogo e ativista contra a ditadura militar) foram gratos a ele pelas montagens de suas peças em Conquista, em gesto altruísta e visionário.

Aproveitando mais uma vez e lançando mão das palavras de Rachel de Queiroz sobre o escritor, quando ela disse não saber o que dirá à crítica sobre o livro que estava prestes a ser lançado em 1980: “De escritor popular para escritor – perdão! para poeta popular, digo que vocês entenderam, que estão no grande bom caminho, na legítima expressão de uma voz da terra que vem abafada e deturpada por tantas gerações de falso populismo”.

Carlos Jehovah nasceu em Conquista no dia 7 de novembro de 1944. Publicou seu primeiro trabalho em 1973, intitulado Cicatriz. “É um livro complexo e denuncia a inquietação de um jovem às vezes com revolta, às vezes com ironia satírica e alegre, piedosa e trise”, segundo Camillo de Jesus Lima. A partir de então, nunca mais parou de escrever e pensar sua cidade.

Homens como Carlos Jehovah são como uma insistência da natureza, graças ofertadas a povos que, muitas vezes infelizmente ocupados no árduo da sobrevivência, não lhes sobra tempo para olhar para si mesmos através da sua literatura. É preciso aproveitar, Conquistenses, enquanto a natureza ainda insiste em nosso favor.

Com essas palavras, o CONSELHO DE CULTURA DE VITÓRIA DA CONQUISTA manifesta seu pesar pela morte de CARLOS JEHOVAH DE BRITO LEITE, aos 76 anos. Porém, expressa também sua gratidão pela existência de homem tão grandioso, altruísta, culto e terno, e sua permanência entre nós por sete décadas.