GUERRA, PESTE, TRAUMA, SILÊNCIO, NEGAÇÃO

Fotos e Texto por Afonso Silvestre

La muerte entra y sale de la taberna. Pasan caballos negros y gente siniestra por los hondos caminhos de la guitarra. Y hay un olor a sal y a sangre de hembra, en los nardos febriles de la marina. La muerte entra y sale, y sale y entra la muerte de la taberna

(Frederico Garcia Lorca, 1898-1936).

Numa tarde quente do ano de 1918, na capital da República, Agenor começou a sentir-se mal na Praça XV, a dor de cabeça piorou subitamente após ele tomar o primeiro trago de cachaça com mel e limão, “deve ser o sol”, pensou, “ou então não devia ter misturado com o quinino…” Já vinha sentindo aquelas dores, cansaço, andava febril e não conseguia dormir há dois dias. Seguira o entendimento popular de que os métodos e procedimentos para o trato de doenças graves como a gripe espanhola deveriam ser decididos democraticamente pelo cidadão comum e seu direito de livre escolha e opinião. Em outras palavras, sorvera o quinino, apostando na eficácia do gosto amargo contra a peste, embora ele não permitisse passar por sua cabeça estar contaminado. “Eu, não”. Mas o remédio servia para tudo, de qualquer forma, e ele não andava lá mesmo muito bem. E, pra reforçar, tomou a maldita cachaça…

A falta de ar não permitiu que o homem atravessasse o Largo do Paço, caiu morto ali mesmo, de onde foi imediatamente recolhido pelo serviço público e sepultado debaixo das normas oficiais e do protesto de parentes e amigos. “Ele não estava morto, desmaiou porque bebeu quinino, aquilo é forte, mas essa gente ganha pra dizer que os mortos são pela gripe, e têm a audácia de agora quando enterram até vivos em nome de uma mentira e uns contos de réis”.

Embora os médicos alertassem para os perigos do sulfato de quinina, o senso comum havia se imposto sobre a razão da pesquisa e do experimento sistemático. Morriam entre 10 e 20% das pessoas contaminadas, independente do tratamento. Dos 80 a 90% que sobreviviam, muitos atribuíram a cura ao alcaloide, outros a rezas e simpatias, alguns nem percebiam estar contaminados e, embora não adoecessem, salpicavam sua saliva por onde passavam. 

Agenor é um personagem imaginário, mas retrata as histórias e lendas urbanas da época acerca da gripe espanhola. O cenário é real, morreram no Rio de Janeiro 15 mil pessoas, inclusive o presidente da República, Rodrigues Alves. Nas ruas, para prevenir o mal, costumavam beber a cachaça misturada com mel e limão, ingerir o quinino ou praticar rezas e simpatias. Mesmo diante da realidade de gente agonizando nas ruas, caixões recheados em fila à beira dos passeios, negava-se o mal. Num documentário de Leon Hirszman de 1969, “Nelson Cavaquinho”, o compositor, que na época da pandemia tinha oito anos de idade, descreve os caminhões cheios de cadáveres que ele olhava e se perguntava pra onde iam.

Casos assim mostram o sentido de elemento fundador do espírito brasileiro que tem o negacionismo. Nesta onda, a morte espalhou-se pelo país. Em Conquista matou também, incluindo seu primeiro intendente, Joaquim Correia de Melo, naquele mesmo ano. Mas foi apenas mais uma onda de doenças que passou pelos sertões. Diante da total vulnerabilidade, era preciso negar, diante da impossibilidade real de enfrentar, tentava-se matar a morte relegando-a a um lugar de desprezo. A morte, este fenômeno natural e necessário, havia saído ao controle durante os eventos que marcaram o longo período de virada do século XIX para o XX. Foram acontecimentos terríveis ao final de um século que se julgou civilizado e em seu desfecho mostrou jovens lutando corpo a corpo, morrendo e vendo morrer seus companheiros e adversários, iguais desconhecidos. Na Europa, o trauma dos soldados e de toda a sociedade, o fracasso da República de Weimar, o nascimento do nazi-fascismo. Uma sucessão de golpes silenciava as pessoas porque não havia o que dizer. O peso da tragédia. Mas os problemas se tornam piores quando negados. 

Não se sabe ao certo como a gripe espanhola chegou ao Brasil, mas dados da Fiocruz apontam para marinheiros brasileiros que prestavam serviço militar em Dakar, no Senegal. É importante lembrar uma aventura desses marinheiros na Península Ibérica, em 1918. Os tais homens da Marinha Brasileira, incumbidos da fácil tarefa de vigiar a entrada do Mediterrâneo pelo Atlântico, após bombardear uma manada de toninhas pensando ser um submarino alemão, aportaram na costa espanhola e foram se divertir, confraternizar e trocar humores, odores e liquores com as moças de pele cor de jambo. De janeiro de 1918 a dezembro de 1920, infectaram-se 500 milhões de pessoas, um quarto da população do planeta. 50 milhões morreram.

Nos confins dos sertões do Brasil, as doenças epidêmicas se espalhavam em ondas. Com as rotas de navegação, elas começaram a chegar no início do século XX. Como disse o escritor irlandês Bram Stocker, sobre o processo de civilização ter sido, na verdade, um processo de sifilização, referindo-se aos acontecimentos entre os séculos XIV e XVI. Essas doenças encontravam no Brasil (e nos interiores a situação era mais grave) perfeitas condições para sua proliferação diante das precariedades sanitárias, alimentação deficiente, ausência de políticas públicas e os agravantes das comorbidades, especialmente a sífilis, o alcoolismo, o tabagismo. Todas essas condições eram reforçadas pelas disputas por hegemonia dos poderes locais, com refregas a bala, facão e perdigoto. Na obra organizada pela Doutora Cleide Lima Chaves, da Universidade do Sudoeste da Bahia, História da Saúde e das Doenças no Interior da Bahia (séculos XIX-XX), em artigo assinado por Christiane Maria Cruz de Souza a pesquisadora afirma que “o Sertão estava submetido a um verdadeiro rodízio de epidemias e de flagelos endêmicos”. Conquista enfrentou na primeira metade do século XX diversas ondas de doenças como a varíola, a peste bubônica, a sífilis.

Assim, com o século que se iniciava com uma guerra desumana e a mais vergonhosa da história, vinham as pestes e o confronto desigual com a morte. Era preciso amenizar aquela dor multiplicada, desdobrada, geradora de novas tragédias às pessoas indefesas diante das limitações técnicas da época, mas, principalmente, diante da própria ignorância e fragilidade que as leva a negar. Não bastasse a tendência para negar a tragédia, passou a ser necessário, como medida sanitária, afastar a morte. A antiga sociabilidade de reunir-se para chorar os mortos foi castrada diante da necessidade de reduzir os funerais (ou às vezes eliminá-los), levar a morte para os hospitais e dali direto para o sepultamento, cujos ritos não seguiam mais a fé nem a sabedoria popular, mas os protocolos e instruções normativas com força de lei.

É certo que na pandemia de Peste no século XIV a situação era ainda pior. No Decameron, Giovanni Boccaccio (1313-1375) fala do nojo que mães, pais, irmãos, maridos e esposas tinham dos seus, e por isso os abandonavam quando a pandemia chegou a Florença, em 1348. Porém, na nossa peste atual, não evoluímos nada em relação à anterior, de 1918-1920. Mantivemos os mesmos dogmas, o mesmo apego à ignorância e ao mito, a mesma desimportância dada à ciência. Em suma, o mesmo negar típico que nos assola em todas as pestes, sejam elas biológicas ou sociais, políticas e ambientais como a guerra, um governo ou um incêndio generalizado em todas as florestas entre os dois trópicos do planeta (aliás, coisa sobre a qual não se vê falar). Como nas imagens medievais, a Justiça Divina se afirma como gerador da peste como castigo contra as iniquidades. E não se fala mais nisso, não se contesta, apenas aceita. O que significa não falar de um trauma para o momento em que ele voltar? 

Assim, pela força da própria incapacidade interior de lidar com o fenômeno associada às normas necessárias para tentar minimizar o avanço desenfreado, homens e mulheres entraram no século XX completamente indefesos diante das consequências da morte. Assim, da mesma forma que inauguramos aquele século, estamos inaugurando o seguinte. Em Conquista, no dia 24 de julho de 2020, um médico, signatário de um documento em defesa do tratamento da covid19 com hidroxicloroquina e que acusava o Conselho de Saúde de agir criminosamente por defender os protocolos de base científica, disse em entrevista a um blog que teríamos atingido um platô de contaminações no Brasil. Naquele dia contavam-se 85.385 óbitos para 2,3 milhões de infectados. Quatro dias depois eram registradas mais de 88 mil mortes por coronavírus. Dos mais de 2 milhões e 400 mil casos confirmados até aquele 28 de julho, 8.318 agonizavam em estado crítico. O aumento havia sido de 12.425 casos em 24h. Dez dias depois, sete de agosto, o país havia ultrapassado os 100 mil mortos e disputava em pé de igualdade com outros negacionistas a pior posição no planeta. No dia em que o médico deu a entrevista, eram 2.111 casos na cidade, com 42 óbitos. Naquele momento, o chefe do Executivo Municipal estava em Brasília solicitando drogas contraindicadas para o “combate ao coronavírus”.

No dia 15 de setembro, o Brasil apresentava 133.207 mortes (1.090 nas últimas 24h) e 4.384.299 casos. Em Conquista, os 2.111 casos e 42 óbitos do dia 24 de julho haviam subido para 6.515 casos e 125 mortos. Aqui entra o agravante da politização da pandemia. O referido documento em defesa das promessas negacionistas de cura e tentativa de criminalização do Conselho de Saúde foi assinado por 123 profissionais e comerciantes da saúde. Muitos deles estavam presentes no ano de 1999, utilizando o poder econômico e promovendo polêmicas com locaute de hospitais e clínicas e declarações ofensivas na imprensa, contra a consolidação do SUS e a municipalização dos serviços de saúde em Conquista. Declararam ao vivo em rede de televisão terem sido contra porque iriam ganhar menos dinheiro. Ipsis verbis.

Hoje, 20 anos depois, o número de negacionistas segue crescendo e assina o tal documento que, além de fazer a defesa de tratamento não recomendado pela medicina, tenta criminalizar o Conselho de Saúde, acusando de estar politizando a Pandemia. Porém, os eventos mostram uma sucessão de atos do próprio Poder Público Municipal, apoiado pelo documento, que afastam o Conselho das discussões e decisões tomadas por uma câmara, um comitê gestor de crise que decide administrativamente as ações de enfrentamento do problema de saúde pública. Curiosamente, a secretária de Saúde do município, ao questionada pelo Conselho, se cala reduzindo-se a informar que toda decisão é comunicada pelo secretário de Administração, que não é da área de Saúde e representa a voz oficial.

Então, 100 anos depois da gripe espanhola, não há mera apatia, mas a institucionalização da negação que se observou no século passado. Desde a Primeira Guerra aprendeu-se a importância de se falar sobre os traumas. Ainda assim, continuamos a vivenciar as consequências do silêncio e da negação, o melhor ambiente para a proliferação da praga da ignorância. Por não se ter falado antes, não se sabe o que fazer do trauma agora que ele retorna. E também há que se perguntar se é por não falar que não é percebido este estado de silêncio diante de tragédias que aconteceram por todo o século nesta República.

No poema de Lorca, citado no início deste texto, vemos a descrição surreal do poeta andaluz sobre a morte entrando e saindo da taberna enquanto as pessoas festejam, bebem, cantam e dançam. O cenário é a Andaluzia nos anos da gripe espanhola. Não temos mais a mesma grandeza prosódica, mas é o que se vê e ouve pelas ruas, no comércio, nos bares e restaurantes, todos abertos, funcionando e movimentados com a anuência da oficialidade. Sobre a morte que entra e sai dos estabelecimentos e das casas, nada se fala. Apenas fecham-se os olhos, ligam-se os paredões de ruídos com músicas sexualizadas que nos ensurdecem e anestesiam para os horrores da morte, para o que ninguém quer olhar. Ao contemplar a lista assinada por 123 profissionais e comerciantes da saúde que negam seu próprio saber em nome de um falso e cruel conforto econômico, penso no que será das pessoas que realmente valem alguma coisa em nossa sociedade, os trabalhadores e trabalhadoras que estão sendo empurrados para a morte, como jovens soldados imberbes caminhando para a morte nas trincheiras.