Flávia Cristina: “O futebol é um mundo difícil, mas tem lugar para todos”

Com suas experiências no RH de clubes em diferentes divisões do Campeonato Brasileiro, Flávia conhece as dificuldades do setor, mas sabe muito bem a importância de uma estrutura organizada fora das quatro linhas. 

Por: Júlia Belas e Natália Silva

Nascida e criada em Volta Redonda, Flávia Cristina é apaixonada por esportes. O interesse, apesar de vir de uma família de esportistas, cresceu com o passar do tempo e se tornou um trabalho. Ela já atuou na área de Recursos Humanos do Santos Futebol Clube e do Volta Redonda Futebol Clube, das séries A e C do Campeonato Brasileiro respectivamente, e conta com carinho sobre suas motivações e a sua paixão por trabalhar com pessoas.

Flávia começou a trabalhar com futebol quase que sem saber. Ela se candidatou a uma vaga de emprego que foi anunciada no jornal e descobriu, na entrevista, que trabalharia para no clube que carrega o nome de sua cidade natal, Volta Redonda. Desde 2016, quando surgiu essa oportunidade, ela estuda para se aprofundar no meio esportivo e ir conhecendo pessoas que possam ajudar em sua carreira. “Eu fui buscar o conhecimento, fui atrás de pessoas, de qualificação. Comecei a fazer um curso de pós-graduação em Direito Desportivo e não paro mais. Vou estudando, CBF, Federação, São Paulo, Rio, curso pela internet… E assim fui fazendo meu networking.”

Para Flávia, o trabalho em Recursos Humanos é muito mais do que só lidar com a folha de pagamento. Ela enxerga este setor como uma possibilidade de melhorar o ambiente do clube e seu objetivo desde o começo foi transformar o RH em um setor mais humanizado. No mundo do futebol, tão importante quanto o que acontece dentro das quatro linhas é o que acontece nos bastidores da bola. Como mulher negra trabalhando no futebol, o maior desafio que ela enfrenta é o preconceito. “Quando eu entrei no Volta Redonda, eu não tinha experiência na área de futebol. O que eu fiz foi procurar o que eu precisava aprender e fui criando o espaço que eu tenho hoje dentro do futebol. É um mundo fechado, é um mundo difícil, mas tem lugar para todos”, explica.

Ela conta que, devido à sua qualificação, já sofreu preconceito e pessoas já duvidaram ao encontrá-la em entrevistas. “Já aconteceu de a pessoa fazer a entrevista por telefone e pessoalmente perguntar se eu sou a Flávia. Por que não posso ser? Porque tenho uma faculdade e duas pós, um MBA com uma pós, curso de gestão da CBF e outros cursos?”. Para Flávia Cristina, o espaço de mulheres negras no futebol também é muito invisibilizado. Segundo Flávia, o racismo está presente em vários espaços, mas não ganha tanta visibilidade quanto com relação aos homens. E não só em casos de xingamentos, mas também na própria ocupação do mercado de trabalho do futebol.

Flávia Cristina quando trabalhava no RH do Santos Futebol Clube. (Fonte: Instagram/Flávia Cristina)

“A minha turma tem 80 alunos. Dos 80, somos cinco mulheres e eu sou a única negra. Temos três ou quatro negros no curso, mas eu sou a única mulher. De uns tempos para cá, eu venho pegando fotos, olhando participações de cursos, e eu era a única mulher negra na turma e a única negra da turma. Eu sempre fui muito bem recebida, mas ainda falta muito mesmo.”

Por isso, a solução é seguir debatendo temas como racismo e o espaço da mulher no futebol, mesmo quando não houver casos de discriminação envolvidos. E uma das visões de Flávia é que estes debates comecem nas divisões de base. “O clube não vive só do atleta profissional, ele tem a base também. É um assunto que pode ser desenvolvido desde a base até o profissional, não só para os atletas, mas também desenvolver dentro do clube com o administrativo”. No caso do futebol feminino, a mudança também passa pelo investimento. Ter mulheres à frente da modalidade na CBF, por exemplo, é importante para que os líderes sonhem junto com as atletas. “É super positivo, e uma coisa que a gente já estava esperando. Hoje o futebol precisa de pessoas com garra e determinação, que sonhe junto com as meninas.”

No Volta Redonda, por ter trabalhado com a base, Flávia acabou virando uma “mãe” para os jogadores mais novos – as mulheres que trabalhavam no clube se referiam aos jogadores adolescentes como “seus filhos”. Ela conseguia monitorar justamente graças à ajuda dessa rede de apoio, mas se esforçava para que eles mantivessem um ritmo constante de treinos e foco na escola. “Se eles não tivessem se arrumando para ir para a escola, eu chegava no corredor já gritando ‘como é, ninguém vai para a aula não?’ e rapidinho estava todo mundo arrumadinho em fila”, ri.

Foto Flávia Cristina tem em seu currículo formações pela CBF e outras entidades ligadas ao futebol. (Fonte: Instagram/Flávia Cristina)

Por todas essas vivências, Flávia é um exemplo da força dos bastidores no futebol. E, mesmo caindo de paraquedas no mundo da bola, ela fala com brilhos nos olhos sobre o amor e carinho que sente pelo trabalho. “É onde eu consigo conquistar e desenvolver o meu lado profissional, mas hoje para mim é amor, é paixão.”

A Negra no Futebol Brasileiro é um projeto de Natália Silva na Revista Gambiarra, subsidiado pelo Black Lives Matter Football da Fare Network. Neste texto, conta com a assistência de produção de Edyanne Teixeira.