#Editorial Falta de profundidade e ataques pessoais prejudicam debate entre candidatos de Conquista

Organizado por membros da Igreja Católica, o debate destacou-se pela troca de farpas e acusações entre os candidatos

O Movimento Familiar Cristão (MFC) e o Encontro de Casais com Cristo (ECC), ambos ancorados na Igreja Católica de Vitória da Conquista, realizaram nesta quinta-feira (29) um debate entre os pleiteantes a uma vaga na Câmara de Deputados e na Assembleia Legislativa da Bahia. O debate aconteceu no salão paroquial da Paróquia de Santa Luzia, na Urbis V e a iniciativa é provavelmente a única que reunirá a maioria dos candidatos de 2014 com residência eleitoral em Vitória da Conquista.

A Igreja Católica é historicamente ligada aos movimentos sociais e à luta política no Brasil, tendo alguns de seus segmentos um importante papel na resistência contra a Ditadura Militar. A vontade em reunir a comunidade conquistense e os candidatos para um debate reflete esta preocupação e atenua sua posição de formadora de opinião.

No entanto, o debate não alcançou estes movimentos, nem mesmo a Igreja Católica em sua totalidade. O único representante oficial foi o Diácono Luciano Santana, , coordenador de Pastorais e Movimentos da Arquidiocese. Citando apenas entidades com atuação mais urbana, a UJS, o Levante Popular da Juventude e a Pastoral da Juventude da própria igreja perderam uma excelente oportunidade de ocupar o debate eleitoral da região com suas pautas.

O maior problema não foi o esvaziamento físico do debate, o que impressionou foi a falta de consistência política nas falas dos candidatos. Entre trocas de farpas, a maioria deles se perdeu na proposta do evento e preferiu usar o seu tempo para atacar os adversários. Herzem Gusmão (PMDB) e David Salomão (PTC) destacaram-se nesta postura. Ambos culpam o PT e seus correligionários pelos problemas legais que enfrentam em suas campanhas. ”Enfrentei o PT e tiraram minha liberdade e meu registro de advogado. Ou acabamos com o PT ou o PT acabará com o Brasil”, bradou Salomão em mais de uma oportunidade.

No bloco em que a plenária foi convidada a escrever perguntas, Herzem protagonizou uma cena de desrespeito com a mesma e com o mediador. A pergunta dizia respeito a descriminalização do aborto e o candidato iniciou sua fala fugindo do assunto e preferindo novamente usar o tempo para atacar o governo do PT na Bahia e em Conquista. Ao ser interrompido pelo mediador, o peemedebista alegou censura e pediu mais liberdade no debate, do qual ele mesmo burlava as regras.

Entitulado de “Encontro das Famílias e Leigos com os(as) Candidato(as)”, o debate foi mediado por Rubens Carvalho, coordenador Regional e Estadual do MFC.  Sugerido pelos organizadores, o tema central foi políticas públicas para a família.

Em momento algum foi esclarecido a que conceito de família se referiam, no entanto a noção dos candidatos em torno do tema seguiam basicamente a mesma linha de pensamento. “A família é onde começa a atividade política e pra onde retorna a atividade política. O que deve agregar é a construção de seus valores, a discussão da religião, da política e dos problemas nacionais. Dentro da família é que são formados os valores”, declarou Naiana Gusmão, candidata à deputada federal pelo PPS.

"O brasileiro tem mania de querer mudar o mundo de um dia para o outro", disse Frederico Ferraz/ Foto: Rafael Flores

“O brasileiro tem mania de querer mudar o mundo de um dia para o outro”, disse Frederico Ferraz/ Foto: Rafael Flores

Questionados pela plenária sobre temas que fogem do conceito religioso e tradiconal de família, os cadidatos se mostraram extremamente limitados no assunto no que diz respeito a debates que tem ganhado impulso nos últimos tempos, como as questões que envolvem o gênero e casamento igualitário, por exemplo. “A união estável já está defendida pela constituição brasileira”, afirmou Frederico Ferraz, candidato à Deputado Estadual pelo PPS. “O brasileiro tem mania de querer mudar o mundo de um dia para o outro. Mudanças na constituição dos Estados Unidos levaram mais de 30 anos. Acredito que esse debate não irá passar pela Câmara tão cedo”, completou.

O candidato – e todos os demais por não terem o corrigido, parece desconhecer que juízes de todo o país já realizavam a conversão da união estável em casamento civil e que desde o dia 14 de maio de 2013 realizam o casamento de casais homoafetivos. Falta ainda que o Legislativo entenda o que o Judiciário já entendeu  e aprove os projetos de lei e emendas constitucionais propostos pelo mandato do deputado federal Jean Willys (PSOL-RJ). Ao contrário do que o candidato pondera, a discussão não é embrionária e felizmente já se encaminha para uma conclusão, só depende da boa vontade de nossos parlamentares em discutir e votar.

Ainda respondendo a pergunta feita sobre casamento civil igualitário, Frederico Ferraz atacou a Rede Globo. “A Rede Globo tem inclusive inserido uma programação anti-família em suas telenovelas, é inadmissível. A Globo é uma destruidora de lares”, afirmou. A interpretação de quem ouviu a frase neste contexto faz um rápido link com a inserção de casais homossexuais em suas últimas três telenovelas do horário nobre. Assim, o candidato soa muito descuidadoso com sua declaração, visto que o discurso de ódio contra os LGBT tem estampado manchetes com agressões físicas e até homícidios com motivação homofóbica em todo o país.

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Para Nadjara, o Brasil não está preparado para discutir descriminalização da maconha/ Foto: Rafael Flores

Outros pontos que são considerados tabus em discussões políticas foram levantados, tanto pelo público quanto pelos mediadores. Um casal representando o ECC levantou a questão da legalização da maconha, alegando que a droga é um dos motivos da desagregação familiar. A sorteada para responder foi a candidata Nadjara Régis (PSB), candidata à Deputada Federal. “O governo brasileiro ainda não tem estudos suficientes para isso. Pessoalmente não acredito que a descriminalização acabe com algum problema, mas é preciso estudo e discussão”, afirmou a candidata. Acertiva, educada e cuidadosa, porém escorregadia, o Brasil tem sim discussões profundas sobre o tema, seja no âmbito terapêutico ou no âmbito da segurança pública. Foi perdida uma grande oportunidade de levantar estas questões.

Já o seu companheiro de partido e candidato à Assembleia Legislativa da Bahia, Zé Carlos trouxe a importância da democratização dos meios de comunicação. Esta pauta é muitas vezes posta em segundo plano, até dentro dos movimentos sociais e ter alguém na região que a entenda como uma das prioridades é no mínimo interessante.

A educação e a saúde, temas que são considerados primordias na hora da escolha do voto, também não tiveram a atenção merecida. Os momentos em que as palavras foram citadas apareceu com o intuito de desconstruir o governo do PT ou defendê-lo. Os candidatos pareceram muito mais preocupados em assumir a paternidade do curso de medicina da UFBA do que com o sucateamento das nossas universidades estaduais, por exemplo.

O debate poderia ter sido uma oportunidade belíssima de diálogo e de olhar nos olhos do conquistense. Mas foi mais um espaço aproveitado para discursos rasos e com pouco domínio sobre assuntos mais complexos. A obrigação moral, imposta por muitos, de votar em alguém com sede eleitoral no mesmo município que o seu fica muito difícil após assistir um espetáculo como esse.