Faixa a faixa: Navio Pirata – Baiana System (2021)

Em uma sexta-feira que provavelmente estaria arrastando multidões em Salvador, o grupo Baiana System segue apresentando novos sons ao público

Por Pedro Soares

O grupo BaianaSystem está de volta com um novo lançamento, o Navio Pirata. São sete faixas inéditas, 21 minutos de duração. Tudo indicava que seria apenas um EP, porém a banda já avisou que este é apenas o primeiro ato de uma tríade para completar a formação do álbum OXEAXEEXU. Mais um passo dado na jornada do grupo que ao longo do caminho vem se mostrando muito mais que uma banda. Os fãs, a pirataria, enxergam a banda além das músicas, o BaianaSystem é como um movimento capaz de ensinar, educar e politizar através de suas músicas e posicionamentos. 

Nas novas faixas lançadas neste 12 de fevereiro ouvimos o som enérgico, os beats acelerados, o ritmo contagiante por todos os cantos. O grupo define com primazia a máxima trazida por Chico Science: “modernizar o passado é uma evolução musical”. A banda faz um elo entre a modernidade e as tradições ao trabalhar com os beats eletrônicos e os ritmos ancestrais, uma característica marcante ao longo da sua jornada. A produção é a cargo do já parceiro Daniel Ganjaman. 

“Navio Pirata” traz consigo a união entre a América latina (tema bastante trabalhado no álbum O futuro não demora) e a África. Essa fase da banda é ilustrada através das colaborações presentes no álbum. O cantor Makaveli,e o DJ produtor Jay Mita, artistas da Tanzânia representantes de um movimento conhecido como singeli music, colaboram na faixa “Nauliza” trazendo rimas em swahili, a língua local.

Como de praxe, o BaianaSystem, seguindo o preceito do movimento SoundSystem, se rodeia de colaborações. Dessa vez não podia ser diferente. Além de Makaveli e Jay Mita, “Navio Pirata” conta com a presença de nomes como Bnegão, Céu, Tonho Matéria e Cyro Aguiar. Bnegão agora participa da faixa “Reza Forte”, o primeiro single lançado para divulgação do álbum. Céu, por sua vez, colabora na faixa “O que não me destrói me fortalece”. 

Musicalmente, “Navio Pirata” é impecável. Tem toda a ancestralidade já explorada na discografia do BaianaSystem. Mas há uma pluralidade maior, e junções acertadas de jungle music, drum n’ bass, reggae, axé, rock, samba-reggae. Mesmo com toda a carga emocional desse tempo de pandemia, sem os shows, sem o calor do público, o grupo conseguiu soltar toda sua energia através das novas faixas. 

Faixa a faixa:

1 – Reza Forte 

“Reza Forte” é a primeira mensagem que Baianasystem quis passar para os ouvintes através de sua linguagem artística. É o elo que liga os componentes do grupo e Bnegão uns com os outros. O instrumento que conectava o grupo, independente do momento mágico religioso que cada um estivesse. 

Segundo Beto Barreto, a reza forte permeia por todos os atos do álbum sempre trazendo a conexão com os elementos envolvidos. 

A música começa com uma forte marcação das cordas graves e um sample da “Cantata para Alagamar”, uma peça musical composta pelo regente José Alberto Kapla e Waldemar José Solha para denunciar abusos sofridos por famílias camponesas residentes na fazenda Alagamar, localizada na Paraíba. Na contracapa do Vinil da obra, o arcebispo de Olinda e Recife, Helder Camara, escreveu que “a cantata nos traz a boa nova de que nossa gente sofrida sabe muito bem que seria loucura pegar em armas, cujos fabricantes são seus opressores; mas , não está, de modo algum, acovardada e sem ação; aprende, sempre mais, que a força do povo é a união, não pisar direitos dos outros, mas para não deixar que ninguém pise direitos seus, que não são presentes de governo ou de ricos, mas do próprio Deus.” Tudo isso nos faz ver, ouvir e sentir a mensagem e a conexão que o BaianaSystem prega. 

A música conta com participação de Bnegão endossando, através de seus versos, todo esse sentimento mágico envolvido na Reza. 

2 – Raminho 

É do documentário “Ramo” de Breno César que foi extraída a prece de Dona Ritinha, rezadeira do sertão da Paraíba. É através dessa faixa que surge a pista que esse novo álbum terá, mais do que nunca, uma ligação muito forte com a instrumentalidade. A faixa é uma continuação do instrumental da faixa anterior, são os mesmos riffs de guitarra de Reza Forte. 

Quem já foi a um show do Baiana já é familiarizado com os mantras que a banda toca, uma catarse, uma concentração de energia, um respiro entre momentos de explosão marcantes nos shows. Com o bandolim bem acentuado, “Raminho” vem com esse significado e essa força. 

3 – Nauliza 

Destaque para essa faixa, pois é um ritmo diferente do que estamos acostumados a ouvir. O Baiana apresenta para seu público a “música underground” oriunda do leste africano, diferente de boa parte dos selos e curadores que ainda olham para o continente africano sob a régua colonialista, enxergando a sua cultura apenas sob o viés folclorista e antropológico. 

O grupo conheceu o produtor Abbas Jazza, o rapper Makaveli e o DJ e produtor Jay Mita, todos da Tanzânia. Essa é colaboração para a faixa “Nauliza”, que traz rimas em swahili e inspiram todo o beat.

“Nauliza” que em Suaíli significa “eu pergunto” deixa claro como é o desenvolvimento da música. Um jogo de perguntas e respostas típico do samba reggae, o toma lá dá cá. Nas imagens divulgadas pelo BaianaSystem no preview, vimos Russo em um orelhão simulando uma ligação. Nada mais significativo para ilustrar a faixa. 

Quando surge o grave do beat, Makaveli começa a proferir versos em swahili num flow aceleradíssimo. Russo mantém a levada dos bpms com uma dicção totalmente nítida comprovando que a dinâmica entre os músicos está muito bem elaborada. É quase impossível a gente não se mexer diante dos riffs e beat. 

4 – Catraca 

Seguindo com os beats acelerados, a quarta faixa “Catraca” traz um sample de “Buzu” da Banda Fuzuê. Fato curioso é que o tecladista da banda que criou os acordes do sample é Ubiratan Marques, hoje tecladista do BaianaSystem. 

“Segura o carro, motô / “meu filho, esse carro vai pra onde? / Tô atrasado, meu irmão / Leva, motô!”. Para colaborar nessa música, a banda convida Tonho Matéria, um personagem marcante na história do samba reggae e Pretinho da Serrinha, cavaquinista carioca. 

A música relata o cotidiano dos usuários do transporte público, desde aqueles que fazem o samba no fundão, o pagode no teto do ônibus até os ambulantes vendedores que se comunicam com os motoristas e cobradores. 

5 – O que não me destrói me fortalece 

Neste momento a cantora Céu surge a bordo do Navio Pirata no meio de um groove oriundo do reggae, do jungle music, do nayambing com guitarra e uma escaleta bem destacada. O ritmo fica mais devagar. É momento de respirar. Tudo se encaixa perfeitamente com a voz da cantora. 

A faixa foi composta por Russo Passapusso através de pedaços de rezas que já eram utilizadas nos shows. Em muitos momentos entre uma música e outra, Russo emanava essas palavras com o intuito de fazer com que o público lembrasse e criasse uma relação com aqueles dizeres. 

Mais uma vez vem à tona uma característica bem marcante do SoundSystem. O riddim no fundo e a improvisação nas letras.

6 – Monopólio 

“Monopólio” surge no álbum como uma grande provocação trazida pelo grupo. Em tom de crítica social o grupo questiona: “Quais os nomes das famílias que dominam nosso mundo? Quais os nomes das empresas que compraram nosso estado?”.

Na produção, a faixa vem com um sample do disco Anticonvencional, vinil raro de 1969 do soteropolitano Cyro Aguiar, um expoente do Samba-Rock em sua época. O ritmo acelerado volta a posição de destaque, mas não em samba rock. O beat surge como jungle music, com compassos bem marcados pela bateria e passa a evoluir para uma levada drum n bass acompanhada da guitarra de Junix. Um prato cheio para futuras rodas dos shows do grupo.

7 – Chapéu Panamá

A última faixa do primeiro ato nos lembra a ligação da banda com a América latina. É a música que mais parece com o trabalho do disco “O Futuro não demora”. 

Russo alega que na letra ele quis ilustrar uma frase que Bnegão sempre cita: “Lute pelo seu direito de festejar. Festeje pelo seu direito de lutar”. O intuito é decodificar o simbólo de Sulamericano, de América latina.