Edyanne Teixeira: “O futebol me empoderou como mulher”

Mesmo a cobertura esportiva não sendo a sua atividade principal, a pedagoga guanambiense viu no trabalho com o futebol amador uma forma de felicidade. 

Por Natália Silva

O amor de Edyanne Teixeira pelo futebol não começou nas brincadeiras de rua, como sabemos ser comum em terras tupiniquins. Na verdade, ela amava outro esporte, também coletivo, mas que não é jogado com os pés: o basquete. Edyanne é natural da cidade de Guanambi, no território de identidade Sertão Produtivo, interior da Bahia, e estava nos primeiros anos do ensino médio quando estudantes da Universidade do Estado da Bahia (Uneb) foram fazer um projeto em sua escola ensinando basquete no turno oposto ao de aula. Ela se interessou, se apaixonou e participou de competições com a equipe, mas acabou se distanciando do esporte na escolha da profissão e durante a graduação em pedagogia. 

Anos depois que o seu caminho cruzou com o futebol: “Aqui em casa  não tem muita essa influência do futebol, não tive muito isso. Então foi depois que entrei para equipe da TV Clipe que senti esse amor”. A TV Clipe é um site guanambiense que faz a cobertura do futebol amador em Guanambi e, também, de outras modalidades, sempre que tem competições na cidade. O site era parte de uma empresa privada em que o namorado de Edyanne, Ruan Neves, trabalhava. Ela conta que logo que ele ingressou na empresa foi direcionado para os cuidados com a marca que, na época, fazia a cobertura de motocross e trilhas, e uma de suas ações foi adicionar a cobertura de outros esportes. Em 2016, Ruan comprou a marca e convidou Edyanne para ajudá-lo, a princípio, com as questões mais administrativas. Mas no início do ano seguinte, reformulou a proposta e ela começou o trabalho efetivamente: “Continuei nas funções administrativas e de marcação de tempo, mas fui analisar e montar as tabelas dos jogos e campeonatos.”

Ruan Neves, proprietário da TV Clipe e namorado de Edyanne, foi quem a puxou para o mundo do futebol. Hoje, dividem a responsabilidade pela empresa e o amor pelo esporte.

Os jogos do campeonato de futebol amador, em Guanambi, acontecem aos sábados e  domingos, dois em cada dia, e a TV Clipe enfrentava um problema que perdura até hoje durante as coberturas: a iluminação do estádio. Como os segundos jogos sempre começam no fim do dia, o sistema de iluminação, que não é dos melhores, impossibilita uma gravação de qualidade, que é uma das funções de Edyanne. Ela conta que nos primeiros meses de trabalho teve a dificuldade de agendar as coberturas porque times começaram a reclamar que uns apareciam mais do que outros e acabou tendo que reorganizar tudo para que a divisão fosse igual. 

Essa escolha trouxe a necessidade de se adaptar a editar gravações ruins quando ainda estava aprendendo a filmar as partidas de uma maneira adequada. Depois de muito estudar os programas utilizados, assistir diversas partidas na televisão, prestando mais atenção nos enquadramentos das imagens que no futebol, propriamente dito, ela se sentiu segura no que fazia. Mas mesmo diante do seu esforço, empenho e estudo, se vê  em um ambiente que tenta ao máximo invisibilizá-la por ser a única mulher entre as pessoas que fazem a cobertura do futebol amador da cidade. 

Edyanne conta que já foi até barrada ao tentar acessar a beira do campo para ter outros ângulos de filmagem, enquanto seus colegas de TV Clipe tinham acesso à todos os espaços com a as mesmas credenciais que ela possui. Edyanne conheceu de perto o gramado do Estádio 2 de Julho, onde faz as coberturas do futebol amador de Guanambi, quando um campeonato feminino teve início na cidade. Amostra clara de como parte da sociedade acha que mulheres só conseguem trabalhar quando o assunto é mulheres ou negro só consegue explanar sobre racismo, quando na verdade sabemos da importância de visibilizar o futebol feminino, sabemos que temos que debater racismo, mas nossos conhecimentos não são limitados a esses assuntos. 

Edyanne encontrou no futebol mais um motivo para sorrir

O futebol feminino, inclusive, é algo que faz os olhos de Edyanne brilharem. Ela fala com empolgação sobre como a sua entrada para a TV Clipe aconteceu na mesma época em que o futsal feminino de Guanambi teve o seu primeiro campeonato na cidade. Essa competição, em si, foi o resultado da luta das mulheres, assim como o campeonato de futebol. Mas, por outro lado, vê com tristeza o modo como o setor, majoritariamente, masculino trata as modalidades. 

A TV Clipe foi o único veículo de comunicação, na cidade, a cobrir todas as rodadas das competições, dando espaço semelhante ao direcionado aos homens, mas algumas adequações tiveram que ser feitas por conta da estrutura. As mulheres não puderam, por exemplo, utilizar todo o campo do Estádio 2 de julho, ficaram só com a metade para não estragar a grama, além de ter os jogos durante a semana, quando o público é menor, e à noite, mesmo com o sistema de iluminação precário do estádio. 

Foi por conta desse último fator que a TV Clipe não conseguiu fazer as transmissões integrais dos jogos, mas Edyane diz que fizeram questão de tentar compensar o máximo com gravações de lances, reportagens e publicações convidando e incentivando as pessoas a assistirem e acompanharem, de fato, as competições femininas. Para ilustrar o tamanho do futebol guanambiense, ela nos conta que por lá existe uma liga que organiza futebol feminino, masculino e sub-17. A liga conta com apoio financeiro da Prefeitura Municipal, patrocínio de empresas privadas, pagamentos de inscrições dos times (são doze masculinos e seis ou sete femininos) e bilheteria, para custear as competições. 

Edyanne em seu posto de trabalho, pela TV Clipe, no Estádio 2 de Julho.

Fã declarada de Martha, Edyanne acredita que não há outra pessoa no futebol brasileiro, entre homens e mulheres, com o talento da jogadora eleita seis vezes melhor do mundo, sendo cinco consecutivas. Ela destaca também a lateral-esquerda Tamires Cássia, do Corinthians e da Seleção Brasileira, porque além de ser uma jogadora acima da média, é prova viva de que nós mulheres não precisamos escolher entre uma vida profissional consolidada e ser mãe.

Como disse logo no início, a família de Edyanne não tinha tradição de consumo de futebol, então estranharam quando ela decidiu trabalhar com isso, como segunda profissão. Mas entenderam ao ver que faria bem a ela, que confidenciou ter encontrado uma forma de felicidade nesse esporte. 

“O futebol me empoderou muito. É uma luta diária, todos os dias eu tenho que lutar com essa questão de ser mulher e está no meio do futebol, de está cobrindo. Mas ele me ajudou a me dizer: eu sou mulher, eu sou importante”.

Edyanne convive com a ansiedade e conta que quando recebeu a proposta de trabalhar na TV Clipe estava em um momento de crises constantes e intensas. O futebol fez ela olhar para si mesmo e dizer: “eu quero, eu posso e eu consigo fazer, mesmo achando que não sabia fazer nada.” Ela explica que o machismo, às vezes, é reproduzido pelas próprias mulheres, principalmente, torcedoras, que veem nela a culpada por qualquer coisa que as desagradam na cobertura, como se a TV Clipe não tivesse uma equipe  que toma as decisões de forma conjunta. 

Escancara, assim, para nós uma necessidade urgente de falar, cada vez mais, não só sobre a mulher no mundo do futebol,  como especificamente sobre a mulher negra cobrindo, debatendo, pensando esse esporte e as práticas esportivas no geral. Só quando quando naturalizarmos a presença desses corpos negros em espaços que não foram comumente destinados a ele, vamos poder trabalhar tranquilamente, sem o medo de que sejamos atingidas, até mesmo, dentro de nossas próprias trincheiras. 

A Negra no Futebol Brasileiro é um projeto de Natália Silva na Revista Gambiarra, subsidiado pelo Black Lives Matter Football da Fare Network.  

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