Editorial: Por uma gestão municipal que apoie e entenda a imprensa livre

Hoje, ao completar 180 anos, Vitória da Conquista clama por um governo municipal que dialogue com a comunidade e para isso, respeite e entenda a imprensa local

Vitória da Conquista na Bahia é a cidade onde a Revista Gambiarra nasceu e ainda possui seus maiores vínculos, por isso voltamos nossas atividades nos últimos dias à reflexão sobre a corrida pela sua prefeitura. Realizamos entre os dias 2 e 5 de novembro a #SabatinaGambiarra, uma série de entrevistas com os seus prefeituráveis. Participaram os candidatos Zé Raimundo (PT), Ferdinand (PSOL), David Salomão (PRTB) e Cabo Herling (PSL), os demais também foram convidados, alguns não responderam como Herzem Gusmão (MDB) e Romilson (PP) e outros não tiveram agenda, como Maris Stella (Rede).

Consideramos o momento fundamental para colocar na mesa pontos que acreditamos serem cruciais para entendermos o quanto dos problemas da cidade os candidatos realmente conhecem. Falamos sobre transporte e segurança pública, temas que estão sempre presentes nos debates, mas também trouxemos a cultura popular das comunidades tradicionais, o combate à homofobia, violência contra a mulher e genocídio da juventude negra.

No entanto, reconhecemos que deixamos de lado nas perguntas uma discussão de evidente relevância no momento: a liberdade de imprensa e o respeito aos profissionais da comunicação. Fazemos a mea culpa, mas ao encerrar a programação do projeto não deixamos de nos posicionar, ainda ao vivo, sobre os ataques à jornalista Indhira Almeida, proferidos pela campanha do atual prefeito Herzem Gusmão (MDB).

A jornalista Indhira Almeida e ex-repórter da TV Sudoeste foi chamada de mentirosa ao apresentar no programa de Zé Raimundo (PT), matérias jornalísticas que noticiaram a falta de vontade política de Herzem em aderir o consórcio da políclinica de saúde do Governo do Estado.

Herzem Gusmão veio da comunicação da cidade e costumava ser um dos seus principais radialistas, apresentando e fazendo comentários políticos no programa “Resenha Geral”, diariamente ao meio dia em rádios de boa audiência. A defesa da liberdade de imprensa sempre foi algo que ouvimos através da sua voz empostada, mas ser um de nós não o esquivou de atitudes como estas contra Indhira e do tom ofensivo utilizado em diversas situações em seu governo com os profissionais da área.

Ele foi eleito com o forte apoio do empresariado da cidade, que o acompanhou em seus primeiros anos de governo através de um “Conselho Consultivo”. E foi deste coletivo informal, mas até então com forte influência nas movimentações do prefeito, que surgiram os primeiros ataques públicos a jornalistas.

O alvo foram os colegas concursados da Prefeitura Municipal de Vitória da Conquista (PMVC), que já estavam lá quando o emedebista chegou após 20 anos de gestões petistas. Em entrevista para o Blog do Massinha em novembro de 2018, Hamilton Nogueira, um dos membros do conselhão, disparou sobre a Secretaria Municipal de Comunicação – Secom : “Recebemos carta branca do prefeito para anunciar, mostrar tudo que está sendo feito pela administração e a Secom não consegue passar para a população. O órgão está cheio de adversários do prefeito, todos concursados e travam as informações”.

Ao ser questionado se estaria havendo um boicote, Nogueira concorda. “Sim! É boicote mesmo. Eles atrapalham os serviços, mas isso vai acabar. Assumimos os custos com profissionais  da comunicação e vamos colaborar na prática com o governo”. Lembramos que além da boa estrutura de uma Secretaria, a PMVC dispõe de três agências de publicidade licitadas e orçamento próprio para a comunicação institucional.

Este cenário ficou esquecido nos últimos dois anos, mas voltou a fazer sentido no período de campanha eleitoral, quando uma das secretárias que passou pela pasta resolveu desabafar. Em um comentário no Facebook da campanha de Herzem, a jornalista e professora aposentada da Universidade Estadual do Sudoeste Bahia (Uesb) Maria Marques o considera como o “pior chefe que já teve na vida”.

“Se arrependimento matasse eu estava morta e enterrada! Você foi o pior chefe que já tive na vida! Lamento ter optado tão mal, Herzem! Com você, não há diálogos, só grito e imposição. Se maltratou aliados de primeira hora, imagine o servidor”, disse a ex-secretária de Comunicação Maria Marques.

Trazemos o histórico do prefeito não para nos posicionar contra a sua reeleição ou em favor de outra candidatura, mas para deixar registrado o que não queremos nos próximos quatro anos. Vitória da Conquista não pode mais ser uma província onde algumas rádios dizem o que o prefeito quer e quem discorda torna-se inimigo. Neste 9 de novembro, data em que Conquista chega ao seu 180º aniversário, fazemos um apelo para que seu próximo governo municipal não repita esta mesma ladainha.