#Editorial Não ao coronelismo midiático na presidência!

No Dia Nacional de Luta pela Democratização da Comunicação, a  Revista Gambiarra se posiciona sobre a candidatura do senador Aécio Neves

Aécio e cocaína; Aécio e helicóptero; Aécio cheirador; Aécio e corrupção em Minas; Aécio desvio de dinheiro.

Em março deste ano, o digníssimo senador e ex-governador das minas gerais tentou evitar que os termos acima fossem procurados na plataforma de busca do Google por pura picuinha eleitoral. Dois meses depois, por pedido do mesmo, a Justiça do Rio de Janeiro apreendeu equipamentos da jornalista Rebeca Mafra do Canal Brasil, justificada por ela supostamente fazer parte de uma quadrilha virtual com claras intenções de difamar o atual candidato à presidência.

A equipe do senador, em nota, confirmou à BBC Brasil o “pedido de investigação dos crimes praticados contra o senador Aécio Neves por quadrilhas virtuais”. Aécio nega, no entanto, que tenha solicitado a “invasão” das residências. A jornalista se mostrou surpresa com a situação, pois não costuma usar as redes sociais para emitir posições políticas e nega ter escrito uma linha sequer contra o senador. “Minha casa está uma ‘zona’. Não entendo o motivo e não tenho nada a ver com o Aécio. Eu nunca posto nada de política em rede social. Tenho amigos muito engajados que não sofreram abuso desse tipo. Eu não faço parte do eleitorado dele, mas nunca difamei ninguém”, disse à BBC Brasil.

A professora Monica Grin Monteiro de Barros, do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS) da Universidade Federal do Rio de Janeiro também entrou no rol dos acusados por difamar Neves. Por conta disto, a pedido do Ministério Público do Rio de Janeiro um juiz carioca autorizou busca e apreensão na repartição da UFRJ coordenada pela professora.

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Depoimento de Maria Paula Araújo, colega de Monica na UFRJ/ Fonte: Viomundo

Os dois casos recentes, por incrível que pareça, nos dão uma visão ainda muito superficial da obsessão de Aécio Neves por controlar e manter sua imagem pública livre de opiniões contrárias. E foi à  rédeas curtas que a sua gestão no governo mineiro tratou a mídia local, fato posto à público em nota assinada por mais de 100 jornalistas em atividade no estado e publicada no último dia 15.

A nota em questão caracteriza as administrações tucanas dos ex-governadores Aécio Neves e Antônio Anastasia e do atual governador Alberto Pinto Coelho como antidemocráticas. Práticas como a demissão de jornalistas, a edição e publicação de matérias que não condizem com a realidade apurada nas ruas pelos profissionais e o descumprimento do Código de Ética foram relatadas como práticas comuns nas redações dos veículos de comunicação do estado.

Os profissionais denunciam também as claras alianças entre o governo e os principais jornais de Minas. “A atividade jornalística e a atuação dos profissionais foram diretamente atingidas pelo conluio explícito estabelecido entre o governo e os veículos de comunicação, com pressão sobre os jornalistas e a queda brutal da qualidade das informações prestadas ao cidadão mineiro sobre as atividades do governo”, afirmam em nota.

Para ficar um pouco mais clara esta relação do candidato com a mídia, o neto de Tancredo Neves é sócio direto da Rádio Arco-Íris  (FM 99,1 MHz). O veículo tem sede em Betim, na zona metropolitana de Belo Horizonte, e é retransmissor da Jovem Pan para a Grande BH. Uma breve consulta no Sistema de Informação dos Serviços de Comunicação de Massa (SISCOM) da Anatel comprova o fato. Aécio descumpre o que está disposto no artigo 54 da Constituição Federal, o qual proíbe que os parlamentares sejam proprietários, diretores ou controladores de empresas concessionárias de serviço público.

O candidato possui ainda ligações familiares com mais duas rádios, uma emissora de TV e um jornal. A Rádio São João Del Rei (AM 970 Khz) tem como principal acionista Tancredo Augusto Tolentino Neves. Ele é tio de Aécio Neves e assumiu em 2010 a presidência da Prominas, empresa pública estadual encarregada de promover eventos na área de turismo.

A irmã de Aécio, Andrea Neves da Cunha, jornalista responsável pelas principais decisões referentes à comunicação na campanha do candidato à presidência, é a principal sócia e diretora da rádio Vertentes (FM 95,3 MHz), na mesma São João Del Rei. A cidade ainda possui uma TV educativa, a TV Campos das Vertentes. Minas é o estado com mais televisões educativas, uma parcela considerável delas controlada por políticos e para variar a TV Campos das Vertentes também está sob influência direta de Aécio Neves.

A concessão para o canal é de 2002, quando o ministro das Comunicações era Pimenta da Veiga, candidato derrotado ao governo do estado de Minas. O presidente da Fundação Cultural Campos das Vertentes é José Geraldo D´Ângelo, aliado de Aécio que assumiu a presidência do Instituto Cultural Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais (BDMG Cultural), em 2003, quando o neto de Tancredo era governador. A fundação também possui uma outorga de rádio FM (a rádio Campos de Minas, 95,3 MHz).

Já o jornal “Gazeta de São João Del Rei” tem como diretor de honra (in memoriam) o cunhado de Aécio, Herval Cruz Braz, marido falecido de Andrea. Com tiragem de 10 mil exemplares, a notícia que estampava a capa da edição de 11 de outubro de 2014 foi: “Aécio dispara no segundo turno”.

O coronelismo midiático, que nos leva a nomes como Sarney, ACM, Collor e Aécio Neves, é um prejuízo à liberdade de expressão e ao direito dos cidadãos à comunicação. Esse direito pouco compreendido, mas essencial à democracia, inclui o acesso à informação livre e de qualidade e a possibilidade real de expressão e participação política.

Admitimos que os governos Dilma e Lula pouco caminharam nas discussões sobre a democratização da comunicação. Pouco foi dito pelo PT sobre os casos de violência contra comunicadores, midialivristas e jornalistas durante as manifestações de junho do ano passado. No entanto já conseguimos ouvir a presidenta defendendo a regulação da mídia (você não confunde isso com censura, né?) em alguns momentos, mesmo que isso  esteja longe de ser debatido com mais afinco.

Em conversa com blogueiros no mês de setembro Dilma afirmou que os meios de comunicação “não podem ser objeto de monopólio e oligopólio”. Na oportunidade ela ainda salientou concentração de propriedade em qualquer setor e que nestes casos é possível a regulação pelo governo, comparando a comunicação a outros setores como petróleo, energia e telecomunicações. “A concentração de poder econômico dificilmente leva a relações democráticas, a concentração de poder econômico leva a relações assimétricas e com a comunicação não seria diferente”, afirmou.

Neste dia Dia Nacional de Luta pela Democratização da Comunicação, a Revista Gambiarra se coloca contra a candidatura de Aécio Neves ao governo federal, por entender a comunicação como direito humano e a urgente necessidade de uma regulação no país. Não queremos que a torpe relação do mineiro com a mídia chegue à presidência da república, não pagaremos para ver o que será das políticas de comunicação no país com o PSDB no poder novamente.

Fontes: BBC Brasil, Intervozes, Viomundo