Cleide Sousa: “Essa minha ‘doença’ pelo Bahia foi o que me fortaleceu”

Antes de se enxergar como mulher negra que precisa lutar pelos seus direitos, Cleide já se enxergava uma torcedora em constante luta por espaço. Para ela o Bahia foi e é essencial. 

Por: Natália Silva e Júlia Belas

 “Ainda bem que eu sou Bahia, mesmo quando ele não vai bem”. Essa frase, para Cleide Sousa, representa o sentimento de torcer para o Tricolor de Aço e a sua relação com o futebol desde criança. Ela tem 28 anos, é de Santo Antônio de Jesus e mora em Salvador. Cleide não poupa palavras para demonstrar a felicidade que sente por estar perto do clube que ama, mas contou sobre os percalços e preconceitos que enfrentou.

Vinda de uma torcida fanática pelo time rival, Cleide se apaixonou pelo Bahia ao ver os pais das amigas torcendo. Como seu pai faleceu quando ela tinha cinco anos, ela sente que não teve uma referência dentro de casa para se apaixonar pela bola. No entanto, ela se tornou essa referência para o irmão mais novo e até para a própria mãe, que antes tinha muitos preconceitos com a relação da filha com o futebol, mas passou a aceitar e se envolver. “Foi um momento muito importante de minha mãe enxergar outras pessoas como ela dentro da Fonte Nova. Eu mostrei a ela que ela também poderia ser torcedora, que não era só eu”, explicou.

Cleide se envolve há anos nos processos políticos do Bahia, desde sua trajetória com as Embaixadas Tricolores do interior do estado até a sua atuação como membro do grupo Convergência Tricolor. Mulher negra, ela garante que racializa todos os debates dos quais participa, e sente que, por causa das atuações políticas e sociais do clube, esta luta também é parte do seu torcer. Muitas vezes a única mulher dos grupos em que participava, ela conta que ainda tem muitas críticas a certos recuos do clube. Para Cleide, ver o Bahia lutando pelo que ela sempre acreditou é emocionante e ajuda a tirar o peso de ter que brigar sozinha. Agora, ela briga para que a onda conservadora não atinja o clube e acabe com o trabalho de ações afirmativas dos últimos anos. “A gente precisa continuar forte e não dar espaço para essas pessoas acabem invalidando toda luta que o Bahia vem fazendo e toda a estrutura do clube.”

Cleide sonha em um dia ser jornalista esportiva, mas sabe que, por ser mulher e preta, sua palavra sempre será questionada. Ela sente que o futebol é uma parte fundamental da sua formação como mulher, militante e ativista e também não enxerga a possibilidade de remover a atuação política do esporte. “Foi ali dentro da Embaixada, conhecendo pessoas, conhecendo os amigos que eu tenho, que eu comecei a entender o meu papel enquanto cidadã. Não foi a escola, não foi a universidade que me deu isso, até porque meu cenário de universidade foi particular, onde eu não tinha acesso a discussões como essa. Então tudo que eu construí enquanto mulher forte, guerreira, resiliente, partiu do futebol. Então eu vejo que a minha vida não faria sentido se o futebol não existisse.”

Como o esporte entrou em sua vida, como o futebol passou a fazer parte do seu cotidiano?

Eu lembro quando o Bahia foi campeão em 2001, a última vez do hino do Bahia tocar muito forte na minha cidade, eu tenho essa memória de 2001 e aí eu tenho um lapso da minha memória de não ter nada de vivência. E aí, quando eu estava no colégio, fazendo educação física, eu era a menina do rolê dos meninos. Nunca tive muita paciência pra coisinhas naturais que a sociedade meio que prega, da menina que tá ali com as outras meninas batendo papinho. Eu gostava de ficar assistindo futebol com os meninos. E foi quando eu descobri o Bahia. Eu ia ver os meus amigos porque tinha escolinha do Bahia na cidade, os que jogavam no Bahia. E o futebol entrou na minha vida como uma certa válvula de escape, como não tinha uma vida muito badalada, tinha muitas restrições de sair. Eu tinha o futebol como distração na minha vida. Desde criança, fui consumindo o futebol de formas variadas. A paixão pelo Bahia surgiu dos pais das minhas amigas, já que a minha família aqui em Salvador torcia pro Vitória, mas eu não convivi. Eu sempre brinco, gente, será que se eu tivesse crescido em Salvador, eu seria Vitória? Porque as minhas referências são os pais das minhas amigas que torcem pro Bahia no interior. Mas se eu morasse aqui, será que eu sairia do Bahia? Porque eu seria engolida pelas duas partes de torcedores do Vitória, a parte materna e a paterna. Eu tenho um tio que não deixa entrar com a camisa do Bahia na casa dele, porque ele acha inadmissível que eu e meu irmão torcemos para o Bahia e não para o Vitória.

Você chegou a tentar ser jogadora, ser profissional, ou seu caminho foi sempre como torcedora de futebol?

Profissional não, porque eu não dei certo jogando bola na escola, mas eu jogava bola nos babas de educação física, sempre joguei. Eu não cheguei a sonhar em jogar bola. Como meu pai faleceu, eu fui criada por minha mãe e minha avó, eu e meu irmão mais novo que eu. Minha mãe e minha avó nunca entenderam minha paixão por futebol, sempre acharam que era coisa de moleque, como elas diziam. E eu gostava mais de futebol do que meu irmão. Eu sempre falo que levei meu irmão a gostar de futebol. Eu não tive a oportunidade de sonhar em jogar bola. Eu cresci com a ideia de outras atividades enquanto mulher e, no futebol da escola, eu adorava jogar, me jogava lá. Nunca tive condicionamento físico, nunca tive um preparo pra isso, mas eu jogava bola na escola. Nunca desviei, jogava não só futebol, joguei vôlei, joguei handebol e outras atividades, mas não tive gatilhos pra me profissionalizar ou para buscar o futebol como uma atividade profissional.

A gente sempre fala que o jornalista esportivo é aquela pessoa frustrada no esporte…

E eu tive vontade de fazer comunicação, meu sonho de fazer comunicação era lidar com futebol. Assim, eu desviei já, e também por isso eu queria ter feito jornalismo para falar de futebol. Meu sonho era esse, ali na escola, meu sonho era fazer jornalismo, mas na minha cidade não tinha curso jornalismo. Minha mãe barrou a possibilidade de fazer a faculdade em Cachoeira ou em Salvador. Ela tinha medo de eu morar em outra cidade, financeiramente também ela não conseguia me custear em uma universidade pública. Aí larguei esse sonho de jornalismo e fui para a administração. Aí o futebol virou de fato só pra torcedora. Meu sonho é trabalhar com jornalismo no futebol e eu falei com Iago, um colega lá do Convergência. Depois da live, ele veio no privado e disse: “poxa você está muito bem, maior cara de jornalista e tal”. “Olha aí o sonho de jornalista esportiva voltando”, brinquei com ele assim no WhatsApp. Eu acho que dá tempo. Teria que ter uma boa virada de prioridades, uma virada de expectativas financeiras para poder me dedicar ao jornalismo, porque agora que a gente começou a trabalhar que está com a vida para se sustentar é complicado da gente sair dessa parte para ir para um sonho. Só que o futuro a Deus pertence, né, quem sabe.

Qual a sua relação com a instituição Bahia hoje, em relação à admiração ao clube em si?

O meu sentimento continua sendo de uma pessoa apaixonada pelo clube. Um dos gatilhos para vir morar aqui em Salvador foi porque nos 3 anos que eu morei em Itabuna foi insuportável viver longe do Bahia. Mesmo morando no interior, todas as oportunidades que eu tive de estar aqui em Salvador e assistir ao jogo do Bahia, eu já fiz muita loucura pelo Bahia. Assim, de entrar no carro com quatro homens no sábado à tarde, ir para Salvador assistir ao jogo do Bahia sábado de tarde. Eu tive essa chance financeira de viajar para acompanhar o time. Quando eu mudei para Itabuna, que é uma cidade que tem muitos torcedores do Flamengo, de times do Rio de Janeiro, e esse afastamento do clube me deixou extremamente triste. Eu não conseguia assistir aos jogos, eu não conseguia acompanhar, eu não me sentia viva. Quando a gente coloca essa camisa do Bahia aqui em Salvador, você se vê, você se enxerga, você caminha pela cidade e você se vê. Um “bora Bahia minha porra!” que você escuta te ressignifica no dia. Isso te impulsiona, te faz acreditar em muitas coisas, te leva além. E eu sentia muita falta dessa relação com o clube, desse contato. Sempre quando a gente fala que “o Bahia é minha vida”, acham que é um exagero, de fato é. A falta do Bahia na minha vida me adoeceu, a falta de convívio, a falta de contato me adoeceu. Esse é o meu sentimento pelo Bahia, é algo o que eu preciso para sobreviver.

Como é fazer parte de um grupo como o Convergência Tricolor?

Hoje a gente tem presença massiva de pessoas pretas e mulheres, e a ideia do grupo de fato é levar representatividade, deixar aquela parada do papel, discussão… Eu sou uma pessoa que eu racializo todo debate que eu participo, porque é algo que me toca. Então eu não tinha condição de estar em um grupo político de um clube, que tem a sua torcida majoritariamente preta e não tem, dentro de espaços, essas pessoas incluídas. Cabeças de chapa com pessoas brancas, homens brancos, né. Continua na normalização do que a sociedade espera, da visão universal. O clube que até então, quando eu participava anteriormente, também não tinha essa visão de ações sociais, como a gente teve no último triênio com Guilherme Bellintani, então é o que eu participo. Eu valorizo muito as torcidas organizadas, eu assistia o jogo perto deles, o movimento Turma Tricolor também está ali próximo do Convergência, a gente tem trabalhado juntos com algumas atividades. Mas a gente acredita que o clube, em sua essência, não existiria se não tivesse aquelas pessoas ali cantando os 90 minutos para o time ganhar, sabe? Então a gente valoriza a torcida e busca criar o diálogo entre a torcida, as entidades, sejam municipais ou estaduais, e o próprio clube.

E como foi a sua aproximação dessa questão política? Quando você começou a entender que isso faria alguma diferença para você como torcedora?

Eu sempre fui do interior. O que eu participei foi das Embaixadas, que são os grupos que se reuniam para assistir aos jogos do Bahia no interior. Foi daí que partiu o gatilho para eu participar da questão política também. Porque a gente tem um problema muito grande com Bahia e com os times da capital, que é a falta de valorização do torcedor do interior. É muito difícil torcer para o Bahia no interior. A gente não tem acesso ao clube, a gente não tem o material do clube, a gente não consegue assistir ao clube. É tudo muito difícil. Eu lembro do sofrimento que eu tive para assistir aos jogos do Bahia na Série B de 2010, no jogo do acesso, porque eu tinha internet em casa muito limitada. Então assim, quando as Embaixadas surgiram, eu comecei a me envolver com a gestão da Embaixada, opiniões, a ir para jogos… Geralmente eu era a única mulher dentro da Embaixada. A maioria dos jogos só tinha eu de mulher, e um monte de homem, e aí começaram ir algumas outras meninas, e colando nos jogos fomos criando amizade. Só que eu acabei ficando mais envolvida e aí eu não saí, permaneci na Embaixada, permaneci ajudando no que era possível. Eu me forcei a fazer parte da política, e quando o clube foi democratizado, que se abriu espaço para conselheiros novos, para sócios novos, eu logo fiz minha associação ao clube e comecei também a entender como funcionava a questão política. Eu sempre fui muito crítica, sempre briguei muito, por ser mulher dentro do estádio, valorizando a mulher, eu escrevia em blogs, fiz muita coisa porque eu queria ser ouvida e vista e que as pessoas entendessem que eu era torcedora tanto quanto os outros, porque eu tinha tanta opinião quanto os demais. Só que eu não tinha tanta visão que eu tenho hoje né, de entender as problemáticas da sociedade, de entender as problemáticas do racismo, do acesso, hoje eu tenho uma cabeça muito mais preparada do que quando eu era uma menina que esperneava para ser vista, sabe? Hoje eu consigo me comportar de forma mais coerente à questão política do clube e utilizar esse espaço que eu tenho para brigar pelo que eu acredito.

Quando você começou a se envolver na questão das embaixadas, a ir para jogos, como foi esse relacionamento com sua mãe e sua avó?

Horrível. Eu realmente tapava os meus ouvidos e ignorava, porque eu não sei te dizer assim claramente o porquê era tão difícil para elas entenderem. Além do que a gente já entende de dificuldade da sociedade mesmo, de que mulheres foram feitas para cozinhar, lavar e homens feitos para ir pro baba. E aí elas sempre perguntavam assim: “essa menina gosta de futebol, que graça tem, é coisa de moleque macho”. Era o que eu mais escutava da minha avó: “isso é coisa de moleque macho”. Mas o moleque macho, até onde eu entendo, é a questão da mulher lésbica, a referência de um moleque macho. E eu não entendia por que era uma dificuldade tão grande dela entender que eu só gostava de futebol. Tudo que eu fiz, eu fiz ignorando as opiniões delas de fato, porque senão não teria saído do lugar. Porém minha mãe hoje é grande fã do Bahia, eu já levei ela para o estádio comigo, isso depois de muitos anos de críticas, muitos anos de embates em casa, de eu tirar a televisão e ela querer assistir novela e eu querer assistir o jogo. Foram processos bem lentos, mas como ela entendeu que aquilo fazia parte da minha vida e que não adiantaria ela mudar, ela remar contra, eu levei ela pra Fonte Nova numa sexta-feira, Bahia x Boa Esporte. Ela olhava muito assustada, porque na mente dela só existia preconceito, a ideia de que um estádio de futebol é um local marginalizado, violento, que não cabe mulheres. Tanto que ela só relaxou, nessa vez que eu levei ela para a Fonte, quando um amigo meu chegou perto. Foi quando a expressão dela de nervosismo se foi. Meu irmão foi para o estádio comigo. Quando ele fala para mim “eu sei jogar bola, mas quem entende de futebol é você”. A gente assiste jogo junto, é dessa forma, eu sempre dando palpite de tática e ele só lá olhando.

Qual peso teve para você ir com ela ao estádio e ver que, mesmo que ela ainda tivesse uma visão preconceituosa, ela aceitou que não tinha mais jeito proibir?

Para mim, foi um momento muito importante dela enxergar outras pessoas como ela dentro da Fonte Nova. Porque eu dizia para ela “mãe, a mãe de Lua vai para a Fonte há muito tempo e ela tem quase a sua idade, ela é igual você”. Eu dizia para ela que existiam outras mulheres no estádio. Eu queria que ela enxergasse que o futebol não era o mundo violento que ela acreditava. Porque é o que a TV mostra, né, mostrou por muito tempo, e é o que ela via. Então, pra mim, foi quebrar o paradigma entre o que ela acreditava e o que ela viu. Quando eu vi ela comemorando o gol… Depois que eu levei ela para esse jogo, ela não tinha camisa do Bahia, ela pegou uma camisa minha maior e usou. Depois disso, ela me pediu uma camisa do Bahia, eu fui e dei a camisa do Bahia para ela. Depois disso, quando eu fui morar fora e mudei de cidade, ela falava assim para mim: “está assistindo o jogo”? Aí eu falava: “estou”. Então começou também a se ver torcedora do Bahia, então foi importante que eu mostrei pra ela que ela também poderia ser torcedora, que não era só eu, a filha. E hoje a gente tem várias fotos aí de dia de domingo quando eu vou para Santo Antônio, que tem jogo do Bahia, a gente usa a mesma camisa, igual, sabe? É uma parada bem gostosa.

Você acha que essa movimentação dela foi para ter algo em comum com você ou ela já gostava, mas não admitia?

Eu acho que existia. Minha mãe tem 56 anos e ela veio de uma perspectiva bem diferente da minha, ela veio da zona rural, estudou muito menos do que eu, ela era doméstica. Então assim, ela não teve oportunidade de ver o futebol como uma distração, um hobby, uma paixão. Ela via meu pai assistindo o jogo, meus tios assistindo o jogo, enquanto ela estava na cozinha fazendo comida, fazendo as coisas, arrumando a casa, fazendo crochê e cuidando dos filhos. Eu acho que no fundo existia uma ideia de que não pertencia a ela. Quando ela me viu fazendo, quando ela foi para Fonte e viu como era a situação, também virou uma questão de mãe e filha, amigas, que conseguiriam compartilhar uma coisa juntas. Eu acho que é um pouquinho de cada, e principalmente quando eu fui morar fora. Eu fui morar longe dela, e o assunto que ela tinha comigo às vezes era falar do clube. Era saber o que eu estava fazendo. Ela sabia que eu sofria muito por não assistir o jogo e eu ficava estressada. Aí ela me perguntava se estava assistindo o jogo. Hoje eu tenho vontade de levar ela para mais jogos até porque eu estou morando aqui agora, mas não deu ainda, mas vai dar.

O estádio é um espaço de muito assédio e descredibilização, mas Cleide não se priva de demarcar espaço e torcer com bem quer. 

Como foi para você perceber o Bahia começar a enxergar as questões sociais de uma forma diferente?

O Bahia conseguiu externar tudo aquilo que eu sempre acreditei, que futebol é um espaço para todos e todas. Quando eu vejo meu clube fazendo aquilo, eu já chorei diversas vezes. É muito chato você olhar pro futebol e não se ver, não se enxergar, não ter representatividade. Aí quando o Bahia vem trazendo discussões sociais, quebrando os paradigmas, fazendo as pessoas refletirem, isso para mim foi uma dádiva, eu torcer pra esse clube que está demonstrando que é possível falar, debater temáticas importantes para a sociedade, para mim foi um ganho. E eu ainda tenho algumas ressalvas, algumas observações, isso inclusive foi dito na última live, foi dito em discussões no grupo, mas como posso dizer que o Bahia está hoje, o que eu acredito que ainda falta. A cada dia que passa, eu acho que eu não preciso nem brigar tanto por isso, porque eu vejo que é um processo natural. Que não é uma questão de marketing, não é uma questão de lacração, não é uma questão de aproveitar de algo para ganhar a atenção da mídia. Eu vejo autenticidade no que é discutido. O clube criar um Núcleo de Ações Afirmativas para entender o que a sociedade precisa, dar voz a situações emergenciais, já demonstra que o clube de fato tem atenção verdadeira às situações, se não ele poderia simplesmente procurar uma agência de marketing, fazer uma publicidade e largar lá, sabe? Para você ver que é algo muito profundo, muito estudado. Ainda que o futebol atrapalhe muito do que pode estar discutindo, quando recua muitas vezes com razão até coerência para não ferir a instituição, ainda assim eu vejo que eles não recuam da ideia de fazer a diferença.

Existe resistência dos torcedores em relação a isso?

Obviamente o país que elegeu Bolsonaro vai ter fãs desse cara dentro do clube. Quando o Bahia começou a se movimentar, eu comecei a ver que, infelizmente, perto de mim existia pessoas iguais àquelas que elegeram o presidente. E isso foi um choque porque enquanto eu estava nas nuvens, feliz, eu estava vendo pessoas dizendo que o Bahia é um clube de lacração, que era clube de bicha, que o Bahia não tinha que fazer isso, que o Bahia era um clube de futebol e deveria focar em futebol, que quem lacra, não lucra, que quem lacra não ganha jogo. […] A gente precisa continuar forte e não dar espaço para essas pessoas acabem invalidando toda luta que o Bahia vem fazendo e toda a estrutura do clube. A queda de Roger Machado, por exemplo, foi uma discussão muito grande, porque muita gente associava o insucesso de Roger às ações afirmativas do clube. Muita gente acreditava que a manutenção de Roger treinador era porque o clube não queria demitir “sua cota”. Foi uma situação muito estressante como torcedora porque Roger, para mim, é uma grande referência. Um homem inteligentíssimo, ótimo treinador, que viu se eu trabalho colocado em xeque porque meia dúzia de torcedor preconceituoso, racista, intolerante, disseminou que ele estava ali sem merecimento, sem justiça, e que ele era uma cota, que ele era um cara preto que não deveria estar falando de coisas importantes enquanto treinador.

Qual a relação que vocês têm, enquanto movimento político, com relação ao futebol feminino?

O Bahia foi um clube que atrasou muito o futebol, o start do futebol feminino. O nosso rival tem um histórico de futebol feminino, mas a gente demorou muito a ter esse profissional dentro do clube. O movimento político que a gente, enquanto grupo, faz é lutar para que o futebol feminino não perca espaço dentro do clube, para que haja verba dedicada à manutenção do futebol feminino, para que as meninas tenham uma assistência tão boa quanto os jogadores. O nosso movimento de fato é que o futebol feminino dentro do Esporte Clube Bahia seja valorizado.

Você enxerga a torcida abraçando o time das meninas de uma forma parecida com a que abraça o masculino?

Muito longe ainda, muito longe. Até acho que é uma má vontade também da instituição CBF, que comanda o campeonato hoje, porque a qualidade da transmissão dos jogos é muito ruim, os horários dos jogos são muito ruins. Eu mesma vejo pouquíssimos jogos do futebol feminino porque geralmente eu estou trabalhando no horário dos jogos, então eu fico acompanhando pelo grupo, quanto dá pra assistir eu assisto, mas é muito aquém. Eu já vi, por exemplo, quando o time masculino tá mal e as meninas estão jogando bem, aí os caras ficam “tem que jogar com as meninas! As meninas são foda!” e tal. Mas isso não é constante, não é constante e isso entristece, porque é como se a gente estivesse atrasadíssimo. Enquanto nosso clube tem ali uma vertente totalmente progressista, a gente vê que o futebol feminino caminha a passos diferentes, sabe? Quando a gente tá indo para o progressismo aqui, discutindo coisas importantes, a nossa torcida não enxerga o futebol feminino na mesma frequência que outras ações, que outras atividades afirmativas. Infelizmente não temos ainda uma torcida que abraça o futebol feminino, valoriza o futebol feminino, assiste o futebol feminino e acredita no futebol feminino, a gente não tem uma torcida que acredite nelas.

A gente tem muitas discussões na sociedade com relação ao tornar-se negro e a se enxergar dentro de movimentos negros, de posições dentro da sociedade. Como foi isso para você?

Eu sempre soube que eu era preta. Eu sempre soube. Usar o termo “preto”, não, porque minha avó, pela questão de embranquecimento e outras coisas, ela diz que eu não sou preta, por eu ter um tom de pele que ela acha que é mais claro que o dela, mas que para a sociedade não é claro. Eu não sou uma mulher preta não-retinta. Mas eu sempre soube que eu era preta, porque a minha mãe era doméstica e nas casas que a minha mãe trabalhava sempre me disseram claramente “olha essa morena cor de jambo”, dá para ser modelo. Então eu nunca tive chance para não me enxergar como uma pessoa preta. Eu cresci sabendo que as coisas eram diferentes comigo, e eu nunca tive espaço, por exemplo… Para algumas pessoas, dentro da sociedade, da escola, por conviver com pessoas brancas acabam se perdendo um pouco ao se enxergar. Eu nunca tive isso, sempre soube que eu era, sempre me deixaram claro que eu era preta, acho que essa é a resposta correta. Eu não tive processo de descobrimento porque sempre me deixaram claro o que eu era, sempre enfatizaram isso para mim.

Você sofreu algum preconceito durante o período das Embaixadas, especificamente, por ser uma mulher no debate político do futebol?

100%. A minha opinião ser invalidada diversas vezes, a questão do mansplaining, de eu dar uma opinião ali sobre um feedback de jogo, de um jogador, de uma situação perspectiva de campeonato, e o cara lá desmerecer a minha opinião e refazer o meu texto com palavras diferentes. Como eu era muito ativa no Orkut e no Facebook falando de futebol, diversas vezes eu li que eu não deveria estar comentando futebol, “o que essa mulher quer? Por que ela está se metendo?” Eu já li muitas vezes que eu deveria estar cozinhando e não falando de futebol, era muito duro. Ainda mais sendo uma mulher preta, pra quem me conhecia. Então sim, houve muita resistência, ainda há muita resistência. Um dos motivos de eu ter me afastado de outro grupo político foi esse fato importante de eu ter voz para falar sobre futebol, não ter voz para falar o que eu acreditava, e aí eu me sentia silenciada o tempo inteiro nas pautas que eu acreditava, então eu preferi me afastar, porque não me incluo em lugares que não me vejo representada ou que não consigo me posicionar pelo que eu acredito.

Como você enxerga o ambiente do estádio para as mulheres?

É assédio, muito assédio. É difícil até o fato de eu ser podada de xingar porque os homens que estão ao meu lado se incomodam. Acham que a gente não entende, acham que a gente só está ali por uma razão de macho, de jogador bonito, mas não me veem enquanto voz torcedora dentro do estádio. Eu já tive situações de um cara me assediar enquanto eu estou indo pro banheiro. Eu sou uma pessoa que vai para o estádio de camisa de futebol, short e Havaianas. Eu não me privo de usar short, Havaianas e camisa de futebol para ir pro estádio, mas eu tenho amigas que vão só de calça jeans, porque se sentem retraídas pelo ambiente que estão. Ainda estamos muito longe de ter um espaço justo e igualitário dentro do estádio, e eu ainda não vejo… Existem algumas campanhas, do próprio Bahia, que a gente fez a parceria do “respeita as minas”. A gente tem um portal que a gente pode denunciar assédio, mas eu acho muito triste que, nesse século, a gente precise ainda estar explicando para as pessoas que o futebol deve ser um espaço de todos.

Você já se sentiu acuada, amedrontada, dentro de um estádio?

Eu, não. Já tomei bomba na perna em saída de estádio, tenho muita história assim, mas não. Até com ex-namorado, que era da torcida organizada do rival, querer me privar de torcer e eu dizia “não vou deixar de torcer, o estádio me pertence e eu quero estar aqui, e eu vou continuar independente do que aconteça”. Mas eu tenho sim, história de amigas minhas que se sentem, não vão para os jogos mais à noite, durante a semana, não vão pra estádio sozinhas precisam da companhia de homem para se sentir à vontade. A própria menina que levantou o debate, que fomentou a discussão do “respeita as minas” é a Maria, que é a nossa segunda pessoa da chapa do Conselho, a Maria Ribeiro. E ela sofreu um assédio muito pesado dentro da Fonte Nova, relatou isso no Twitter, e a partir daí gatilhou toda a situação de discutir o papel da mulher torcedora e discutir o respeito dentro do estádio com as mulheres. Então assim, ela também não recuou, mas imagina o quão difícil foi para ela sofrer o assédio que ela sofreu, relatar, ter apoio, mas também ter críticas. Mas isso foi um ponto que infelizmente gatilhou para que hoje a gente tenha uma ferramenta que ajude a gente enquanto mulher torcedora.

Você sente falta dessa representação enquanto consumidora de futebol, em transmissões, por exemplo?

A gente não vê na transmissão mulheres pretas, a gente vê alguns jogadores, e eu fico assim muito impressionada, porque como é que o futebol brasileiro, que é majoritariamente composto de tantos jogadores pretos? Então assim, a gente não vê dentro da Globo ou de outra emissoras, pessoas pretas. A gente não se vê e isso meio que assombra porque como é que majoritariamente existimos, mas a gente não se vê, não se enxerga, não se vê representado nos principais pontos? Em gestão de clubes, quantos presidentes negros a gente tem no futebol brasileiro na Série A? Salvo engano, só é um, não sei se ele ainda é presidente, era da Ponte Preta. Quantos técnicos temos hoje ativos na Série A, né? Jair Ventura. Juiz geralmente é uma exceção. Se você for questionar aí, nosso futebol brasileiro, será que não existiu alguma jogadora brasileira com capacidade de assumir a Seleção Brasileira de futebol? Por que a CBF não investe em treinadoras brasileiras. Uma das maiores jogadoras, a não ser a Marta, é a Formiga, que é daqui de Salvador. Ela tem 42 anos e continua na ativa, é uma mulher preta, mas que basicamente você não enxerga a Formiga, a não ser ali em momentos cruciais que ela aparece. Será que a Formiga não poderia ser preparada para liderar um time de futebol brasileiro? Então se a gente for parar para se questionar, cada cargo, em cada situação, a gente não vai se ver, a gente não vai se enxergar, então basicamente eu não vejo essas pessoas como eu em cargos importantes dentro do futebol.

As pessoas falam muito de torcedor que só acompanha quando está ganhando. Como é estar num time que tem muitos momentos ruins e às vezes dá esses salves?

A palavra “vitória” é proibida, a gente chama de triunfo, para você ver quando eu compartilhar a matéria você vai ter que ter atenção, não pode “vitória”. Tem que ser triunfo. Aqui é uma situação que até os jornalistas sabem, se falar “vitória” é massacrado na rede social, literalmente massacrado. Até nas transmissões dos jogos do Bahia hoje a nível nacional os caras já sabem que não pode falar “vitória do Bahia”, se falar a “vitória do Bahia” tá lascado. É triunfo do Bahia. Brincadeiras à parte, a torcida do Bahia é apaixonada por sofrer, sabe, ela é apaixonada por sofrimento. É uma parada que é muito inerente da gente, é essa parada do sofrimento. Futebol não é estático, o futebol é muito volátil, então tem jogos que o Bahia vai jogar super bem e não vai ganhar e tem jogos que o Bahia vai jogar muito mal e vai ganhar. A gente é apaixonado, é uma relação assim de amor e que a gente precisa se destruir emocionalmente para sentir o que é ser Bahia. Torcer é quando você tá se fudendo pelo time que cai, que pede títulos importantes, que é desclassificado por um time quem nunca ganhou porra nenhuma na vida. Então você não abandona, vai dormir puto, perde a noite de sono, você vira a noite xingando o clube, você vai lembrar daquele detalhe, daquele lance que Élber perdeu, aquele gol que Gilberto perdeu. Você não vai dormir, mas no dia seguinte, alguma palhaçada rolou você vai pensar “poxa aquele clube que eu amo, foda-se quem te perdeu, eu estou aqui ainda apaixonada”. Eu não sei descrever, é indescritível. “Ainda bem que eu sou Bahia mesmo quando ele não vai bem / algo me diz em tricolor que o sofrimento leva além / não existe amor sem dor”. Eu acho que nada representa esse sentimento que a gente, como torcedor do Bahia tem, de que o sofrimento leva além e não existe amor sem dor.

Diante de tudo o que a gente falou, o que o futebol representa na sua vida?

Cara eu digo que quase tudo, tirando a minha família e a minha saúde. Eu não sei se eu estaria depressiva, se eu não seria a pessoa que eu sou, com os valores que eu tenho, com a perspectiva que eu tenho, se não fosse o futebol me sustentando. Porque a minha vida foi muito dura, tudo que eu passei enquanto era criança, enquanto o falecimento do meu pai e outras situações. E o futebol era o que eu tinha, era o que me sustentava, me alimentava. Essa doença que minha mãe falava, essa doença, foi que me tirou talvez de uma situação de vulnerabilidade social, enquanto mulher, foi o que me fortaleceu. Antes de discutir mulheres e futebol eu já estava brigando para ser torcedora, dentro de casa ou de qualquer outra situação. Então eu acho que eu não seria a Cleide que eu sou hoje, até politicamente construída, a minha construção enquanto mulher política também partiu do futebol. Foi ali dentro da Embaixada, conhecendo pessoas, conhecendo os amigos que eu tenho, que eu comecei a entender o meu papel enquanto cidadã. Não foi a escola, não foi a universidade que me deu isso, até porque meu cenário de universidade foi particular, onde eu não tinha acesso a discussões como essa. Então tudo que eu construí enquanto mulher forte, guerreira, resiliente, partiu do futebol. Então eu vejo que a minha vida não faria sentido se o futebol não existisse.

A Negra no Futebol Brasileiro é um projeto de Natália Silva na Revista Gambiarra, subsidiado pelo Black Lives Matter Football da Fare Network. Neste texto, conta com a assistência de produção de Edyanne Teixeira.