Cazazul: Muito além da formação de atores e atrizes

Prestes a ser inaugurado oficialmente, o Teatro-Escola pretende levar a linguagem do teatro para os mais diversos públicos, também por meio da formação de plateia

Um empreendimento que surgiu do sonho de uma família em fundar uma escola de teatro com o objetivo de formar muito mais que atores e atrizes. Foi assim que a Cazazul Teatro-Escola tomou forma e agora, prestes a ser inaugurada oficialmente, já mostra pra que veio.

A Cazazul se apresenta como um núcleo de práticas artísticas e culturais, com ênfase em artes cênicas, cuja principal atividade é o ensino de teatro e o uso de técnicas teatrais nas mais diversas aplicações educacionais e empresariais. Formada por um coletivo composto somente por mulheres, o Teatro-Escola começou a dar seus primeiros passos desde o início de 2016, com projetos como a Mostra Awêry Vivências Cênicas, que proporcionou oficinas de teatro e outras linguagens para pessoas de várias idades e que acabou de realizar sua segunda edição neste mês de novembro.

Dessa forma, Ana Barroso, Hendye Gracielle, Hannah Abnner, Erica Daniela Santos e Thaís Pimenta buscaram inspiração em Adriana Amorim, doutora e mestre em Artes Cênicas pela Ufba, uma das responsáveis pela ideia inicial, desde quando morava em Salvador, e que se tornou uma espécie de conselheira do projeto. “Pensávamos em idealizar quando morávamos em Salvador, mas aí nós viemos para Conquista e começamos a tentar nos envolver”, explica a musicista Hannah Abnner, que é também filha de Adriana. “A coisa começou a ganhar força quando a gente convidou Emanuele Nascimento, com a qual fizemos a parceria. Manu, em determinado momento, convidou Ana Barroso para fazer parte. Quando a gente começou a colocar em prática, com o aluguel da casa, Manu precisou sair. Mais na frente entraram Thaís e Hendye como parceiras do projeto. Mais adiante, Erica foi convidada a fazer parte desse coletivo”.

De acordo com Ana Barroso, atriz e cantora, licenciada em Teatro pela Uesb, o nome Cazazul dialoga com o lugar onde nasceu a artista plástica mexicana Frida Kahlo. “Tentamos vários tipos de combinações de nomes, dentro de uma lista enorme. Acabamos achando sentido nesse, que resolveu sonoramente, e também porque na época o azul era uma cor que agradava todo mundo. Depois que surgiu esse nome com uma fonética agradável, a gente lembrou da casa de Frida, que é Casa Azul”, explicou.

Apesar da ideia principal da Cazazul ser um núcleo de formação, o coletivo pretende transformá-la também em um espaço cultural. Isso pôde ser demonstrado na sua pré-inauguração, realizada no dia 1º de novembro, que reuniu artistas conquistenses em um sarau para angariar recursos.

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A pré-inauguração da Cazazul no dia 1º de novembro reuniu artistas conquistenses em um sarau/ Foto: Rafael Flores

Renovação da cena, sem negar o processo histórico

Em um contexto onde a escassez de políticas públicas e de financiamento para a produção cultural se tornou um dos principais empecilhos para se produzir na cidade, a Cazazul pretende ir a fundo e, além de formar artistas, quer também formar plateia, a qual consideram extremamente essencial para manter a cena. “A gente pensa a Cazazul como uma renovação, mas não negando o processo histórico, pois a cidade sempre teve uma movimentação muito grande de teatro, às vezes mais visível, as vezes menos visível por conta de outras demandas, como o Centro de Cultura fechado e a falta de financiamento”, explicou Érica Daniela Santos, que é fotógrafa e atualmente cursa Cinema e Audiovisual na Uesb.

“Com a Mostras da Awêry a gente já está conseguindo fazer esse trabalho de formação de público. Todas as mostras da Awêry são abertas ao público, de forma gratuita, dessa forma estamos dando oportunidade ao público experimentar e ter esse contato com o teatro. A gente vê nesse público da mostra um pessoal muito jovem, que nunca teve contato com essa galera que fez história em Conquista”, comenta a jornalista Thaís Pimenta. Segundo o coletivo, esta intenção está colocada discretamente no termo “Teatro-Escola” e não “Escola de Teatro”, ou seja, uma formação que vai acontecer pela prática.

Para a conselheira Adriana Amorim, uma das problemáticas desta cena é que grande parte do público valoriza apenas peças que vem de fora. “O espetáculo A Bofetada, por exemplo, lotou, teve que fazer sessão extra. Isto demonstra que o público quer assistir teatro, mas ao mesmo tempo não vai assistir as produções locais e talvez por isso as produções diminuam. O desafio da Cazazul é transformar este ciclo. O esforço para fazer a roda rodar é muito maior do que manter ela rodando. Às vezes os produtores reclamam, pois acham que a força motriz é manter e não é. A gente precisa de uma força muito mais rigorosa para começar”.

Porém, a Cazazul chega no momento em que o Sistema Municipal de Cultura é aprovado e sancionado pelos poderes legislativo e executivo, tornando-se um respiro para os agentes culturais da cidade, sobretudo para novos projetos que surgem. Para Hendye Gracielle, que é cronista e bacharel em Direito, a importância da aprovação do sistema vai muito além. “É importante o sistema ter sido aprovado no apagar das luzes de um governo de esquerda, que certamente não seria conduzido da mesma forma num governo de direita, do PMDB. Importante a gente ficar atento para ela ser executada, a gente sabe que podem ser feitas manobras”.

Além dos cursos de teatro infanto-juvenil e adulto, a Cazazul também vai oferecer outros serviços como oficinas artísticas sazonais, teatro nas escolas e nas empresas, além de consultoria artístico-pedagógica. A previsão de inauguração das turmas é em fevereiro.

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Público na pré-inauguração da Cazazul Teatro-Escola/ Foto: Rafael Flores