Bruna Amarante: “o futebol me permitiu ser o que sou, como pessoa, como atleta, como ser humano”

A capitã do São José Esporte Clube jogou Copa do Mundo, Brasileirão, Liga dos Campeões, representou diversos emblemas e hoje sonha em ser professora e tocar seu projeto social após pendurar as chuteiras. 

Por Natália Silva

Bruna Amarante caminhou muito para chegar no ponto da carreira em que está, literalmente. Ainda muito nova, teve a oportunidade de treinar em um clube pequeno, recebia as passagens de ida e volta para atravessar a cidade, aos fins de semana, mas sentia a necessidade de ajudar nas contas de casa, com um pacote de macarrão que fosse. Por isso, ela sempre ia de ônibus para os treinos, mas voltava a pé. A distância? Ela nem se lembra, mas não esquece das mais de duas horas de caminhada. Não esqueceu, nunca, de onde veio: Petrópolis, interior do Rio de Janeiro. 

Rodou parte do mundo, aprendeu russo, representou a Guiné Equatorial em uma Copa do Mundo da FIFA. Mas foi em terras tupiniquins, onde tanto caminhou, que escolher fundar um projeto social que muda a vida de crianças que sonham, como um a dia ela sonhou. 

O início do sonho de Bruna foi marcado pela preocupação da mãe, ela tinha medo do preconceito que atingiria a filha e dizia ser melhor não seguir pelo caminho do futebol. Até os 12, ela conta que tinha um plano B, mesmo com poucas condições econômicas pensava que se não conseguisse ser jogadora, seria advogada. Mas assistindo ao noticiário policial se desiludiu e decidiu que a meta era uma só: ser jogadora profissional de futebol. Caminhava a longa distância do clube para casa pensando:

“Um dia Deus me honra por ser uma jogadora de futebol, e eu sempre tive isso na minha cabeça que um dia eu ia ser jogadora de futebol. Mas, às vezes, eu deixava de comer para poder ir treinar ou deixava de treinar para poder comer, para poder ajudar minha mãe comprar um macarrão ou qualquer outra coisa. Minha família era bem humilde, não que hoje não seja, mas como antes não é mais.”

Aos 16 anos fez sua primeira participação no Campeonato Brasileiro, mas só considera que se profissionalizou, de fato, aos 18, quando ingressou na equipe do Saad. Bruna conta que chorava muito nos primeiros dias no clube, sem acreditar que realmente fazia parte da estrutura. Naquela época, nomes históricos do futebol feminino eram suas colegas de time. Mas a carreira só estava começando. 

Aos 36 anos, a capitã do São José E.C. está em um ponto da carreira em que não precisa medir as palavras quando o assunto é racismo. Créditos: Instagram (Reprodução)

Tempos depois Bruna foi jogar no Cazaquistão. Mudança de país, oportunidade de conhecer uma cultura diferente, jogar Liga dos Campeões e ampliar ainda mais a realização do sonho. Mas nem tudo foram flores porque apesar de ter que aprender até uma língua nova, passou por situações desagradáveis envolvendo algo que, infelizmente, já conhecia: o racismo. Bruna conta que nos seus primeiros meses por lá, representando o BIIK Kazygurt, era ofendida ao andar pelas ruas, ir ao banco, qualquer atividade externa.

“Fomos eu e outra menina, também negra, e quando nós passávamos na rua eles nos chamavam de macaca, de crioula. Se a gente ia no banco, a gente sofria, faziam barulho de macaco. Isso principalmente no primeiro ano, depois a gente foi se acostumando, foram conhecendo, aí mudaram.”

Aqui ela trás uma realidade muito corriqueira no Brasil, que justifica aquela história do “tenho até um amigo negro”. Quando o negro é conhecido, por quem o racista nuntre uma certa afetividade, ele é aceitavél. Mas todos os outros não merecem a mesma consideração, ao passo que o “amigo” vira justificativa para a inexistência do racismo em qualquer situação. Voltado ao Cazaquistão, as lembranças boas sobrepõe as ruins, quando Bruna lembra do país que a acolheu por três anos. Através da oportunidade que teve lá, viajou 16 países e conheceu várias culturas, um presente que segundo ela faz a pessoa melhorar como ser humano. 

Outra experiência que, na sua opinião, significa evolução foi se naturalizar guineense e  representar o selecionado da Guiné Equatorial na Copa do Mundo de Futebol Feminino da FIFA 2011, na Alemanha. Bruna diz que sempre teve interesse em descobrir mais sobre a história de seus antepassados, mas ela lembra que a sensação de estar lá de fato foi algo surpreendente, por mais que  já tivesse imaginado muito. Ela conta sobre a emoção de jogar sempre com estádios lotados, em sentir a energia das pessoas, o quão importante era isso para elas, fizeram com que os momentos com a Guiné fossem dos melhores de sua vida profissional. 

Bruna Amarante é a idealizadora de um projeto social em Petrópolis que utiliza o futebol como fator de transformação social. Créditos: Renato Antunes

A Copa da Alemanha? maravilhosa, apesar de, também, se lembrar de ter presenciado racismo e machismo. Hoje para ela são realidades que extrapolam as fronteiras de países. O machismo e o racismo são problemas mundiais e por isso temos que falar sobre mulheres negras, que são atravessadas pelos dos dois a todo momento. 

Bruna entrou para a equipe do São José no início de 2020, antes disso ela jogava no sul do país e realizou outro sonho: voltar a  estudar. Nem a rotina pesada de treinar e ir para a aula todos os dias a fazia desanimar, ela lembra que era tanta emoção ao entrar na sala de aula, em ter contato com tantos conhecimentos e possibilidades, que o cansaço era completamente esquecido. Ela trancou o curso, por conta da pandemia e mudança de estado, mas já projeta o retorno e sabe que depois de pendurar as chuteiras será professora de educação física. De preferência em seu projeto social, o Chute Certo. 

“Eu tinha tanta satisfação que vou te falar, eu tinha uma disposição, felicidade em está fazendo algo que eu até duvidava que tivesse capacidade. Depois eu vi que tinha alcançado as médias, eu tenho um prazer enorme na questão do estudo. […] Foi muito marcante voltar a pensar em um futuro fora do futebol porque uma hora ele vai chegar”

  Bruna diz que esse é um conselho que sempre dá para as meninas que participam do seu projeto, para que invistam também no estudo. A carreira no futebol, tanto para homens como mulheres, é imprevisível e, geralmente, curta. Então as meninas têm que se preparar para essas situações e obter mais conhecimentos. 

Segundo Bruna, no ponto em que está pessoal e profissionalmente, ela não tem receio mais de falar sobre nenhum assunto. Sobre racismo, ela é prática: não tolera, em nenhuma circunstância, mesmo que ato de racismo seja contra outra pessoa porque leva a sério a irmandade pela cor. A capitã do São José gostaria de ver as mulheres negras serem mais representadas em outros espaços do futebol, sente falta de ter mais jornalistas, técnicas e dirigentes. Segundo ela “nós no Brasil não estamos estamos preparados para o futebol feminino ser a elite, nós não estamos preparado para ter uma treinadora negra na Seleção Brasileira”. 

Quem acompanha A Negra no Futebol Brasileiro vai se deparar sempre com essa discussão, da importância de ter não só mulheres sendo representadas, mas mulheres das mais diversas origens. Esse é o debate sobre interseccionalidade, no nosso caso é entender o quanto as mulheres negras são atingidas por diversos níveis de discriminação, mas também sobre colorometria. Bruna Amarante, como negra retinta que é, sabe na prática o quanto o racismo se adapta e em espaços com maior concentração de negros, como o é o campo de futebol, separa os mais escuros dos mais claros. Ela entende que todas as mulheres negras sofrem machismo e racismo, mas percebe diferentes níveis entre elas. A solução imediata para Bruna é falar cada vez mais sobre o assunto, é mostrar como machismo e racismo operam dentro do futebol, para por fim causar mudanças reais. 

A contribuição de Bruna Amarante para o futuro do futebol feminino no Brasil é dentro e fora de campo. Caso se interessa em conhecer mais o projeto Chute Certo, falamos sobre ele em um live que está disponível no canal do YouTube da Revista Gambiarra. 

A Negra no Futebol Brasileiro é um projeto de Natália Silva na Revista Gambiarra, subsidiado pelo Black Lives Matter Football da Fare Network.