Unidos do paradoxo tropical

Na terra onde a dor é grande e a ambição pequena, a mulher, o negro, o gay, todos são figuras marcantes do carnaval e das estatísticas. Abram alas para o paradoxo tropical

Por Lucas Sampaio*

O país do carnaval é mesmo uma contradição tamanha. Temos uma vocação para o erotismo e ao mesmo tempo um conservadorismo latente em relação a temas que envolvam o sexo, por exemplo. Temos pernas de fora e programas televisivos ultramodernos com um hortifrúti variado de mulheres-fruta e, em contrapartida, apoiamos diversas condutas opressoras ao direito à liberdade de terceiros. Mas a hipocrisia não é a rainha do espetáculo apenas na época dos confetes e das serpentinas. Ela rege todo o nosso calendário cristão e expõe um Brasil que bate e afaga.

Espancado, amarrado e desnudo numa avenida da zona sul do Rio de Janeiro, um jovem negro, aparentemente menor de idade, ali estava. Estava ali também toda ode aos ratos, composição clara da sociedade que ainda acredita na retaliação desumana como forma de exterminar toda e qualquer violência urbana, que atinge diariamente as classes privilegiadas em todas as cidades brasileiras. A recorrência dos crimes urbanos parece ser, aliás, o único fato que revela aos nossos olhos a existência dessas criaturas que soluçam de dor num canto do Brasil sem que ninguém ouça. Em regra, fazer um marginal típico sofrer é motivo de comemoração instantânea. No caso do negro amarrado, não há notícias de que este tenha cometido qualquer conduta delituosa.

Nós, que também já somos o país do beijo gay em final de novela, somos o recordista mundial de crimes motivados por homofobia, conforme sugere o Grupo Gay da Bahia (GGB). Agredir e assassinar homossexuais tornou-se uma prática quase que esportiva por essas bandas. O dualismo aqui é tão catastrófico que uma trama dramatúrgica de mero entretenimento fútil fez muito marmanjo linha dura torcer pelo happy end de um casal formado por dois homens. Isso, é claro, tem uma importância gigantesca no combate ao preconceito, mas não impede a existência de alguns muitos complacentes a espancamentos com lâmpadas fluorescentes em gays que transitam pela Avenida Paulista, afinal de contas, nossa dubiedade também tem extensão continental.

A supervalorização da figura feminina, especialmente a menos de um mês das festividades carnavalescas, não é empecilho para que tenhamos ainda um dos mais elevados índices de violência contra a mulher. O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) divulgou um estudo em setembro de 2013 revelando que, a despeito da Lei Maria da Penha, não houve queda considerável do número de feminicídios entre 2009 e 2011, período em que a lei já estava vigente, o que demonstra que o problema não está no rigor das leis, mas sim no machismo escancaradamente encrustado nas raízes sociais.

Na terra onde a dor é grande e a ambição pequena, a mulher, o negro, o gay, todos são figuras marcantes do carnaval e das estatísticas. Abram alas para o paradoxo tropical.

*Lucas Sampaio é Advogado e Bacharel em Direito pela Faculdade Independente do Nordeste.