Um rolêzinho na sala de jantar

Lucas Sampaio estreia sua coluna falando sobre os rolezinhos, nos quais jovens advindos das periferias das grandes cidades agruparem-se para adentrar a espaços radicionalmente criados para saciar os desejos consumeristas das classes pujantes

Por Lucas Sampaio*

A despeito da esperada e corriqueira estreia da décima quarta edição do reality Big Brother Brasil, a terceira semana de 2014 foi marcada pela massiva discussão a respeito do “rolezinho”, palavra que já encontrou diversos conceitos a depender do ponto de vista do seu interlocutor. Fato incontroverso, o ato de jovens advindos das periferias das grandes cidades agruparem-se para adentrar a espaços tradicionalmente criados para saciar os desejos consumeristas das classes pujantes parece não agradar àqueles que Os Mutantes optaram por chamar de ‘pessoas na sala de jantar’, ocupados em nascer, morrer e fazer compras.

A sala de jantar bradou com veemência contra a inserção da complicada e perfeitinha juventude classe C nos conglomerados de consumo frívolo, templo sagrado da classe média, que não admite tamanha invasão antiestética da garotada aba reta. Englobam qualquer jovem com características explicitamente de periferia no rol de criminosos, baderneiros. No critério de classificação penal da sociedade televisiva e da Polícia não há que se preocupar com efetivo cometimento de delitos. O critério é, escancaradamente, a condição social do sujeito.

Enquanto o “rolezinho” se expande pelo país em caráter de protesto, empolgando os mais otimistas na possibilidade de uma nova Revolta de Junho, a sala de jantar assiste, com pouca perplexidade, a realidade desumana do sistema carcerário do Maranhão da pomposa família Sarney, exposta internacionalmente após a divulgação de um vídeo entregue à Folha de São Paulo pelo Sindicato dos Servidores do Sistema Penitenciário do Maranhão que mostra presos decapitados no Complexo Penitenciário de Pedrinhas, em São Luís. As imagens foram feitas pelos próprios detentos.

Ao contrário do silêncio cancerígeno a respeito dos acontecimentos nos corredores penitenciários maranhenses, situação e oposição se pronunciaram a respeito dos “rolezinhos”, pegando carona nos holofotes midiáticos. Qual não foi a surpresa de quem viu o governador Geraldo Alckmin (PSDB/SP) apoiando a prática e negligenciando o dever de ação da Polícia Militar, tantas vezes por ele invocado. Quanto ao governo do PT, nada de surpresas. Aproveitou o momento para explorar mais uma vez a crucial dicotomia ricos x pobres, tentativa plausível de trazer de volta a imagem da sua essência socialista, tão maculada pelo julgamento do mensalão no ano passado. Vale lembrar que entre Copa do Mundo, BBB e outras ladainhas genuínas, esse ano também é (veja só) de eleições presidenciais e legislativas, além de reformas ministeriais.

Com uma considerável parcela de apoiadores da adesão à pena de morte pelo nosso país tropical, a sala de jantar comemora cada cabeça cortada, cada detento humilhado, cada “rolezinho” reprimido. Voltemos ao reality. Não é nada pessoal, só questão de afinidade.

*Lucas Sampaio é Advogado e Bacharel em Direito pela Faculdade Independente do Nordeste.