Trocando em Miúdos: Conquista é uma das cinquenta cidades mais violentas do mundo. Pra quem?

Lucas Sampaio problematiza dados de pesquisa recente que coloca Vitória da Conquista na 36ª posição dentre as cidades mais violentas do mundo

Por Lucas Sampaio

Foto: Paulo Nunes Jr

Muros de concreto que volta e meia são construídos com o objetivo quase que apartheidiano de impedir a entrada de outros povos em circunscrição alheia são bem didáticos para entendermos a sistemática da segregação. Israel/Palestina, Espanha/Marrocos, o finado muro de Berlim e até uma tentativa de murar as favelas do Rio de Janeiro em 2008 (ideia do glorioso ex-governador Sérgio Cabral) são alguns dos exemplos.

Em Vitória da Conquista, joia furtada do sertão baiano, o fenômeno é parecido. Decerto, a barreira que se impõe no nosso município não é física. Pior, é socialmente constituída, feita tijolo por tijolo pelas mãos da segregação social/racial. Nada muito diferente do resto do país, é claro.

Eu, pessoalmente, não conheço nenhum dos nomes que viraram a estatística ingrata de 38,46 homicídios/100 mil habitantes no ano de 2015, nos tornando a 36º cidade mais violenta do mundo, segundo dados divulgados na última segunda-feira (25) por uma ONG mexicana. Nem eu, nem toda a região central que engloba bairros privilegiados como Recreio ou Candeias. É a periferia que chora os seus ais.

A nossa classe média é, a bem da verdade, atingida de raspão pelo projétil da violência urbana. Tem a sua segurança delegada especialmente ao setor privado, que lucra bastante nas terras conquistenses desde o final da década de 90, endossada pelo temor um tanto reverencial que existe em relação a assaltos, furtos e outros crimes contra o patrimônio.

Não há como negar que, eventualmente, esse vulcão em erupção pode respingar lava em indivíduos da “sociedade”, usando a nomenclatura provinciana da nossa região. Me lembro com zelo de um famoso blogueiro da cidade anunciar em uma de suas curiosas manchetes: “Violência chega à Avenida Olivia Flores”. Ele se referia a um assalto numa lanchonete do bairro Candeias que resultou num disparo de arma de fogo que atingiu um dos clientes. A notícia expõe a indignação seletiva e classista, que determina qual humano merece ter suas dores morais ou físicas supervalorizadas e qual deve agonizar nos números mórbidos de alguma ONG mexicana. O muro existe. E é concreto.