Teago Oliveira: “Eu estava receoso em fazer um disco e soar como a Maglore”

Teago conversou com a Revista Gambiarra sobre o processo de produção do seu álbum solo e das novas sonoridades alcançadas

Músicas escritas por suas mãos estão na boca de Erasmo Carlos, Pitty e Gal Costa e sua banda Maglore está completando 10 anos de estrada, incluindo no portfólio praticamente todos os festivais independentes do país e apresentações marcantes no Rock in Rio e Lollapalooza. É neste contexto que o cantor e compositor Teago Oliveira mergulha em um novo trabalho solo.

Teago Oliveira na Sala do Coro do Teatro Castro Alves, em Salvador | Foto: Rafael Flores

Com uma ambientação nostálgica, “Boa Sorte” (Deck Disc, 2019) foi lançado há um mês e já recebeu shows de lançamento em São Paulo e Salvador. Durante passagem pela Bahia, na primeira apresentação ao vivo do álbum na Sala do Coro do Teatro Castro Alves, Teago conversou com a Revista Gambiarra e comentou sobre o processo de produção do trabalho e das novas sonoridades alcançadas.

Revista Gambiarra: Como é estar no palco agora, dez anos depois, falando por você mesmo, assinando Teago Oliveira?

Ah, tô velho, né? Me sinto mais velho obviamente. Eu sou muito apaixonado por música e na Maglore a gente conseguiu construir um caminho que foi muito bonito, eu tava conversando com os caras esses dias que a gente tocou no Rock in Rio agora e saí de lá com vontade de chorar, sabe? Não de tristeza, mas de agradecimento. É muito engraçado como o público da Maglore compra a onda da banda e ajuda e a gente realmente depende disso, sacou? A gente tocou em um palco menor no Rock in Rio e o público da Maglore que estava lá lotou o espaço, galera com a camiseta do Weezer, tá ligado? A galera foi lá pra ver outras coisas, não a Maglore e foi do caralho, ali a gente sentiu como a gente tem um público do cacete. E a resposta que eu dou é com música, e a Maglore tem um jeito bem peculiar de fazer música e muito coletivo, apesar das músicas serem minhas, o processo da feitura e até na própria mixagem, na ordem das faixas, tudo isso passa pelas mãos de nós quatro, às vezes nós cinco, às vezes nós seis, são mais pessoas que não tão só no palco.

Teago Oliveira na Sala do Coro do Teatro Castro Alves, em Salvador | Foto: Rafael Flores

Eu sempre tive uma necessidade artística mesmo de procurar outros caminhos, fazer um outro tipo de música, com as referências que eu tenho, com menos dedos de outras pessoas. Apesar de eu adorar ter a banda e eu adoro esse processo coletivo que transforma sua música em algo completamente diferente do que você imaginou, eu senti uma necessidade artística de ter algo com meu dedo e de alguém que tá produzindo, pra ficar mais unilateral, é um forma de se entender musicalmente e nesse meu disco, eu acho que nunca saí com uma sensação de que fiz um disco tão legal quanto esse.

Eu estava receoso em fazer um disco e soar como a Maglore, isso ia ser uma derrota muito grande ver que no final eu estaria copiando o som da minha própria banda.

R.G: E na própria gravação, como foi estar sem a banda?

Isso aí foi muito legal e muito aterrorizante, ao memso tempo, muito por que eu não fiz pré-produção, com a Maglore a gente se auto produz, a gente ensaia bastante e quando chega para gravar a coisa já está meio pronta e é só apertar o REC que a parada funciona. No meu disco, no Boa Sorte, Léo MArques, que é o cara que produziu, ele dava o rec e eu gravava a guitarra ou o violão pra mostrar pra ele a música e a voz. Então muita coisa do disco tem minha voz guia, preferi nem gravar a voz real, e depois dessa guia a gente ia gravando os intrumentos, gravei os baixos, violões, guitarras, conga, tambores, surdo, ele gravou agogô, meia-lua, pandeiro e fomos revezando nas percussões. Aí chamamos uns camaradas, Rodrigo Garcia e Tiago Melo, pra gravar os violinos como eu tinha imaginado. Foi o único momento que incluímos mais músicos.

Mas estar sem a banda é um processo muito louco, por que fica um quebra-cabeça a música, você tem que ir encaixando peças, a banda já traz algo mais pronto.

Foi um desafio, foi massa de fazer, eu já tinha uma noção do que queria (apesar de não ter) e fiquei muito feliz com o resultado da gravação. A mixagem ficou por conta de Gui Jesus, que acabou masterizando também, ele é do selo Risco. Gostei muito da forma que ele encarou, ele seguiu muito bem o que eu e Léo tínhamos pensado pro disco, então eu fiquei muito em casa.

R.G: Quais referências de sonoridades são essas que você queria aplicar no seu trabalho solo que não dialogavam com a Maglore?

Teago Oliveira: Eu acho que a Maglore se enxerga de uma forma pop com referências antigas, da mesma forma que eu me enxergo, mas com uma construção coletiva, as especificidades das coisas, os detalhes acabam se tornando detalhes coletivos. Então, nem sempre a minha vontade pode prevalecer e eu nunca iria me impor, por que seria melhor fazer um trabalho solo. Eu adoro ter banda e banda é banda, você tem que brigar por suas ideias, você vai ser vencido, alguém vai ter outra ideia, etc, a construção de uma banda é muito legal. Esteticamente é um disco que tem muito a mão de Léo, produtor, a maioria das produções dele é lo-fi, utiliza muito microfone de fita antigo e o disco ficou com essa atmosfera. Confesso a você que abri muito o som, por que do jeito que o Léo queria o disco iria ficar com uma sonoridade anos 30.

E eu fui abrindo mais o som até achar um ponto legal, mas ainda assim, como a gente gravou com muitas coisas antigas, acaba que ele ficou com essa ar mais vintage e eu acho que pra mim tem arranjos modernos, me inspirei em alguns arranjos do Andrew Bird, que é um artista novo, apesar de ter uma estética um pouco antiga, né? Mas acho que essa sonoridade que a Maglore não tem é pelo fato de ser uma banda também, já falei isso mil vezes, e no meu disco eu aprofundei essa questão e não impede da Maglore ir pra algo mais lo-fi sem deixar de ter o po que ela tem. Na verdade, algumas músicas tem essa beliscada, né? Vampiro da Rua XV no “III” (Deck Disc, 2015) parece um pouco, tem essa vibe, no último disco a gente tava transitando entre os anos 70 e 80, então tem um arzinho de coisa antiga. A gente gosta de música velha pra caramba e isso acaba se refletindo naturalmente no que a gente faz e a gente flerta também com os sons de hoje em dia, é que nesse disco eu fui um pouco mais radical no resultado que eu queria.

R.G: Nesse processo que é solo, você também traz pra perto algumas figuras que circundam o ambiente da banda, como Hélio Flanders (vocalista da Vanguart, aparece em citação na música “Corações em Fúria”) e Marceleza de Castilho (ex-Suinga e único compositor a aparecer além de Teago). Isso ajudou o processo a ser menos solitário?

Teago Oliveira: É um disco que é meu, mas é também muito meus amigos que estão ali, sabe? Marcelo é um cara que deu duas músicas, né? “Últimas Notícias”, que a maior parte é dele e “Azul, Amarelo”, que eu acabei imaginando arranjos. E ele deu o título do disco também! É um cara que acho extremamente talentoso e sempre vou gravar músicas dele como se fossem minhas, por que acho que tem tudo a ver, somos de uma mesma geração, pensamos muito parecido em relação a música e já que ele não grava as porra das músicas dele, eu vou gravar.

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