Sem Firula: O machismo existe e, infelizmente, começa cedo

Natália Silva acompanhou algumas partidas dos Jogos Estudantis Conquistense e observou comentários machistas e racistas da torcida

Por Natália Silva

Quem acompanha a Sem Firula sabe o quanto gosto de valorizar as belezas do esporte, o quanto ele pode nos inspirar a sermos cada dia melhores. Mas, até mesmo no esporte, nem tudo são flores.

Mês passado houve, aqui em Vitória da Conquista, o retorno dos Jogos Estudantis Conquistenses e aproveitei a oportunidade para ir em busca de uma história para esta humilde coluna. Confesso que apesar de, normalmente, não optar pelo óbvio, saí de casa esperando por ele. Não o encontrei porque dessa vez dei de cara com o machismo.

Mas vamos começar do começo! 😛 A iniciativa da Prefeitura em voltar com os jogos foi linda, estão de parabéns, mas no próximo evento acho interessante pensar mais na escolha do horário. Depois do atraso de 50 minutos, começou às 14h50min de um dia de sol escaldante. Claro, que os jogos ocorreriam em uma quadra coberta, que jogos em sequência ficam mais fácil de se organizar e mais barato, provavelmente, mas o calor prejudica o desempenho dos futuros atletas e o público que se desanima em assistir.

O primeiro jogo da competição foi uma disputa entre as equipes femininas da Escola Municipal Carlos Manoel e do Colégio Monte Tabor. Foi aí que encontrei com o “maledito”. Como cheguei cedo ao ginásio (o atraso fez parecer cedo rs), sentei só, mas logo fui rodeada por adolescentes que esperavam seus jogos.

Quando as equipes entraram para o aquecimento observei algumas coisas nos dois times: não estavam com as camisas diferenciadas para goleiras; possuíam apenas as jogadoras que entrariam em campo, sem reservas; como sempre, uniformes que mais pareciam masculinos que femininos. Comentarei adiante.

A entrada delas foi o suficiente para começarem as piadinhas. “Ah! Nem sabem jogar bola”, “Nem adianta aquecer”, fora outros tipos de preconceitos como “coloca a gorda no gol, ela tampa mais”, “a negona  não pode ficar no gol, ela corre mais”.

11999876_911477438948247_1516219911_nQuando o jogo começou, vieram os deboches sobre as atuações dos times em quadra, uns tentavam ajudar os técnicos de suas escolas, outros tentavam desconcentrar mesmo. Sim, eram times tecnicamente fracos, mas qual é o incentivo real que essas meninas têm? São os mesmos incentivos que as equipes masculinas? Porque não amigo, nós não nascemos com uma estampa na testa informando se podemos ou não jogar futsal ou praticar qualquer outro tipo de esporte.

Enfim, dos que me cercavam nas arquibancadas, o som que se destacou não foi nada simpático. Em um primeiro momento você pode pensar: “Ah, mas eles são só adolescentes, não sabem o que falam”. Aí que mora o perigo. Sendo bem clichê, os adolescentes de hoje são os adultos de amanhã. A sociedade continua reproduzindo machismo se não o Enem não seria tão criticado, ainda existe uma diferenciação entre esporte de homem e esporte de mulher, continuamos tendo que desfaçar as belezas de nossas mulheres nos esportes de homens porque se não causa distração a quem tá assistindo. Voltando aos uniformes, você jura que não acha estranho as equipes de vôlei, por exemplo, utilizarem uniformes mais femininos e as de futebol continuarem com as roupas que parecem ter sido emprestadas pelos times masculinos?

Chegam as desculpas. “É porque tem que valorizar o futebol, não a beleza”, e porque homem tira a camisa, levanta o calção, ajeita a cueca e ninguém fala nada? Por que só homens assistem futebol? Porque só homens assistem ao feminino também? Por que esporte é coisa de homem e “princesinhas” não podem se interessar? São tantas perguntas imbecis que eu passaria dias aqui falando.

Não me chame de exagerada, por favor. Por exemplo, você que gosta de esporte, e é nítido até para quem não se interessa muito, sabe que nas conversas sobre futebol, na maioria das vezes, se destaca o nome de Neymar. Ele que nunca foi escolhido o melhor jogador do mundo pela Fifa, que não possui títulos mundiais, que não é a principal referência, em sua modalidade, de todos os tempos. Pouco se ouve falar em Marta, que foi eleita cinco vezes a melhor jogadora de futebol do mundo e que é considerada a melhor jogadora de futebol de todos os tempos, sem nenhuma objeção. Aí  vem alguém e a chama de “Pelé de saias”… Ela não precisa ser comparada com ninguém, amigo! 😉

No final é isso, desde cedo começam a tratar diferente as opções das meninas, somente pelo fato de serem meninas. Depois todos crescem e querem tratar com desigualdade todas as mulheres, por serem mulheres. Se continuarmos a naturalizar essas atitudes na infância e adolescência, nunca iremos cortar o ciclo vicioso.

Só me resta uma coisa a dizer, com muita tranquilidade. Na Sem Firula, machistas não passaram, não passam e não passarão! Abraço e até a pŕoxima! 😉