Sem Firula: Ganhar ou perder, mas sempre com democracia

Natália Silva fala sobre a Democracia Corinthiana, em um momento em que enxerga a democracia no país ameaçada

Esse foi um dos textos mais difíceis de começar para mim. Dessa vez, não pela síndrome do papel em branco, mas porque foram muitos os assuntos pensados e sugeridos. No fim, sobrou duas opções alvinegras e pesou o momento político que vive o nosso país. Abandonei a ideia de escrever sobre a Gaviões da Fiel, maior torcida organizada do Sport Club Corinthians Paulista e decidi tratar dos anos que este mesmo clube de futebol viveu uma democracia.

Agora você pode pensar: “mas o futebol não é democrático?”. Sim, caro leitor ou leitora, o futebol é, mas o clubes de futebol e as entidades que gerem o esporte, não. Neles, existem pesos e medidas bem distintas para cada personagem que compõe o show que acompanhamos nos campeonatos da vida.

A Democracia Corinthiana foi lembrada, na última semana, por conta do encontro realizado pelo Levante Popular da Juventude, na Universidade de São Paulo (USP), para debater a atual conjuntura política do país e relembrar o momento vivido pelo Corinthians, nos anos 80. Compareceram ao evento três dos principais nomes do movimento: Wladimir, ex-lateral direito, Adilson Monteiro, ex-diretor de futebol e Juca Kfouri, jornalista. Além do fundador da Gaviões da Fiel e jornalista, Chico Malfitani, entre outros.

O  Corinthians foi fundado, em 1910, por operários, carroceiros e pequenos comerciantes do bairro Bom Retiro, na região central da cidade de São Paulo. Desde o início, o clube tinha como proposta ser popular. Tanto que a frase conhecida como a que marcou a fundação do alvinegro, proferida pelo seu primeiro presidente, o alfaiate  Miguel Battaglia, foi: “O Corinthians vai ser o time do povo e o povo é quem vai fazer o time”.

Mas apesar de sempre ter tido a imagem de popular, a democracia não é tão real, como acontece nos outros clubes e nas entidades. O povo não decide nada, nem mesmo o “povo” que faz parte, efetivamente, do clube. Existem diretoria, conselho, cartolas, uma política como a que vemos no Congresso Nacional e uma base que trabalha muito e não opina em nada. Quando opina, seu voto ou sua voz tem menos valor.

No entanto, se chamarmos a história dos clubes de futebol no Brasil de deserto, existe um óasis. O movimento chamado de Democracia Corinthiana, que ocorreu no alvinego paulista nos anos 80, foi inédito e, infelizmente, único.

Uma viagem ao passado

O ano é 1981. Após viver anos de uma ditadura interna além da que o país já vivia, o Corinthians, finalmente, estava trocando de presidente. Saía de cena Vicente Matheus, entrava Waldemar Pires. A estratégia de Matheus era continuar mandando em tudo, já que ele era vice da chapa de Pires, mas não foi bem assim que aconteceu e ele acabou se afastando da gerência do clube.

Waldemar Pires descentralizou a administração e criou o cargo de diretor de futebol. Para assumir a pasta, quem foi convocado foi o sociólogo Adilson Monteiro Alves. Sem saber o que fazer com um time que estava afundado, Adilson convidou jogadores para debater soluções e iniciou um movimento de autogestão inédito em um ambiente reconhecido pelo autoritarismo sempre presente.

Os jogadores que encabeçavam o movimento eram: Sócrates, o único do Corinthians que representava a Seleção Brasileira, fazia questão de comemorar seus gols com o braço direito levantado de punho fechado, como símbolo de resistência;  Wladimir, lateral direito, negro e que se identificava como um operário da bola; e Walter Casagrande, recém saído da adolescência, com 19 anos, era o representante da juventude insatisfeita dos anos 80.

Decisões como contratações ou demissões passaram a ser discutidas em conjunto. Chegaram a conclusão que a concentração antes dos jogos deveria ser opcional, se tornou. E assim o clube seguiu, com as decisões em relação ao futebol sendo tomadas através de votações, onde todos os votos possuíam o mesmo valor. No documentário Ser campeão é Detalhe: Democracia Corinthiana, Sócrates disse que o que fizeram foi “discutir o país sob o ótica do futebol”.

O movimento incomodou o governo, a ponto de proibirem  o Corinthians de usar o nome Democracia Corinthiana em sua camisa. Mesmo porque eles não discutiam o tema apenas internamente, se posicionaram em meio a ditadura e pediam as Diretas Já. Em 1983, em plena final do Campeonato Paulista contra o São Paulo, o Timão entrou em campo com uma faixa que dizia “Ganhar ou perder, mas sempre com democracia”.

Os líderes do movimento começaram a participar de comícios. E foi em um deles, em 1984, que Sócrates disse que se não pudesse votar para presidente, ele sairia do país. Como não pôde votar, cumpriu sua promessa e partiu para a Itália.

O movimento democrático teve fim no Timão nas eleições internas de 1985. Adilson Monteiro foi candidato a presidência e perdeu para um representante do passado, Roberto Pásqua. A torcida invadiu o clube, principalmente a Gaviões da Fiel, houve pressão, mas não teve jeito. Socrátes tinha ido embora, Casagrande também saiu, a nova diretoria gastou o dinheiro ganho e voltou ao conservadorismo. Foi o fim.

Sobre os ganhos que o clube teve? Depois da Democracia, o Corinthians passou a ser um time nacional. Foi quando se transformou, de fato, na força que é hoje. O futebol era jogado junto. Coletividade, grupo, união, eram essas as palavras que os regiam. Venceram o Campeonato Paulista em 1982 e 1983, quase conquistaram o tri-campeonato em 1984, juntos. A torcida foi, realmente, o décimo segundo jogador. Aprenderam a torcer de verdade, com calma, paciência e amor pela camisa. Segundo Juca Kfuori, no documentário referido anteriormente, a parte ruim “é que não ficou nada. Um episódio na história do futebol brasileiro que não deixou uma herança” no esporte, mas para Adilson Monteiro “foi a contribuição do futebol para a redemocratização do país”.

De volta ao “futuro”

É claro que se o movimento se repetisse hoje, seria necessário que alguns preconceitos que se arrastaram junto ao futebol, ao longo dos anos, não estivessem presentes. A democracia teria que existir não só para os homens héteros, mas reconhecendo que a nação corintiana também é composta por mulheres e homossexuais.

Mas não foi para puxar o debate de uma nova Democracia Corinthiana que resolvi escrever sobre o assunto. E sim para lembrar alguns e contar a outros que um dia uma parcela do futebol se posicionou. Isto no momento em que o país vivia uma ditadura, que por mais que não fosse em seus tempos mais difíceis, ainda era uma ditadura. Então, hoje, vivendo em uma democracia, é hora de todos nos posicionarmos. O mundo do esporte não tem que ficar alheio a isso.

E aí eu mudo de ideia. É sobre uma nova Democracia Corinthiana, sim. Mas uma que estrapole os muros do Parque São Jorge e ocupe todo o futebol brasileiro. Não quero um futebol que seja democrático só porque é necessário apenas uma bola e duas traves para que se consiga jogá-lo. Quero um futebol, em nosso país, em que: nos clubes todos os atores sejam ouvidos; federações e confederação que se importe com os clubes pequenos tanto quanto com os grandes; que os dirigentes se preocupem com o bem estar dos torcedores; e que a coletividade seja posta em primeiro lugar, porque é esse sentido de coletividade que contribuirá para o crescimento de nosso país em outras instâncias.

Utopia? Não. Sonho. Um sonho que tenho certeza que pode se tornar realidade se cada pessoa que se importa com o futebol fazer o que puder para contribuir. É uma escolha individual que se reflete no coletivo.

Mas, antes disso, precisamos estar em um país democrático. E a equação é a mesma. Não se trata de transformar as disputas políticas em clássicos do futebol, se trata de evoluir, não retroceder. Quero que a democracia conquistada outrora, com muito suor e sangue, seja respeitada. Se querem vencer, que vençam nas urnas.

GANHAR OU PERDER, MAS SEMPRE COM DEMOCRACIA! #NãoVaiTerGolpe!

 

 

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