Sem Firula: Além do Bom Senso

O debate pela mudança estrutural no calendário do futebol é o assunto da coluna Sem Firula da semana

Por Natália Silva*

No programa da Revista Gambiarra na Mega Rádio FM da última terça-feira (12), falei um pouco sobre a iniciativa do Bom Senso F.C.. Aí, após a queda da pauta inicial, enquanto pensava com meus botões e lia um site sobre categorias de base do futebol, o Celeiro de Craques, me deparei com um link para a Universidade do Futebol. Leitura vai, leitura vem, percebi que não só o Bom Senso debate uma mudança no calendário do futebol no Brasil. E aí tudo se cruzou.

Quem ouviu o programa sabe que essa semana eu escreveria sobre a situação atual do Vitória da Conquista, planos e planejamento, mas como o time não está competindo agora, fica difícil de entrevistar alguém de lá. E é isso que tem que mudar. Os times pequenos também tem o direito de terem suas atividades prolongadas durante todo o ano.

Ouça o programa de estreia da Revista Gambiarra na Mega Rádio FM, que foi ao ar na última terça-feira (12)

Segundo Luis Filipe Chateaubriand, que é membro do Bom Senso e autor da obra “Um Calendário de Bom Senso para o Futebol Brasileiro”, muito deve ser feito para que o calendário seja bom, na verdade, na opinião dele, o calendário atual, imposto pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF), beira o sofrível. Concordo plenamente… Só se passaram cinco meses de 2015 e já temos jogadores cansados, por não ter tido tempo suficiente de férias e pré-temporada, além de jogadores desempregados porque os estaduais já acabaram.

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Paulo André é, atualmente, zagueiro do Cruzeiro.

Há algumas semanas apresentei o Bom Senso F.C. aqui na Sem Firula, como foi dito, uma das pautas deles é a mudança estrutural no calendário do futebol. A proposta, do grupo de jogadores, é que os clubes de grande porte tenham menos jogos por ano, com uma pré-temporada maior, e que os pequenos tenham mais jogos, para que os mais de 20 mil atletas, que perderam seus empregos ao final dos estaduais, segundo o grupo, possam estar empregados o ano todo. Além disso, propoem uma reformulação nas sérielogoHeaders C e D e a criação da série E, que substituiria os estaduais.

O debate pela mudança do calendário vai além do Bom Senso. A Universidade do Futebol, que é uma instituição que promove o ensino, online e presencial, de temas relacionados ao esporte, não possui uma proposta de calendário novo, mas fomenta o debate do assunto através de notícias e artigos escritos por seus associados. A intenção é que as pessoas estudem o futebol em seus diversos aspectos. Só a respeito do calendário, a busca do site aponta para mais de vinte mil links. Alguns não possuem aprofundamentos, mas a quantidade mostra que eles estão ligados no que está acontecendo a respeito.

Falando em Futebol do Futuro, esse também é um grupo que coloca em pauta o calendário do futebol. Se intitulando uma iniciativa voluntária, o Futebol do Futuro é formado por profissionais da Gestão e do Marketing Esportivo, interessados em propor alternativas viáveis para o desenvolvimento do Futebol Brasileiro a partir de um enfoque técnico. Segundo eles, em comum, partilham a ideia de que todos ganharão se tivermos um ambiente de futebol mais eficiente, organizado, transparente e financeiramente sustentável.

Quem saiu na frente foi o Atlético Paranaense. Desde de 2013, o clube decidiu sozinho driblar o calendário proposto pela CBF. O clube vem colocando o time sub-23 para disputar o estadual enquanto realiza a pré-temporada, com o time principal, para a Copa do Brasil e para o Campeonato Brasileiro. Já no primeiro ano rendeu bons frutos. Em 2013 o clube terminou o ano em terceiro lugar no Brasileirão, com vaga para Libertadores, e em segundo na Copa do Brasil. O sucesso no primeiro ano motivou o clube a continuar com a fórmula.

No calendário desse ano houveram 25 dias de pré-temporada, foi um avanço, principalmente, para os jogadores de elite. Mas o problema maior não foi resolvido. Os times menores continuam sofrendo com o calendário. É evidente para nós, o Vitória da Conquista encerrou suas atividades no estadual e teve que desfazer seu time. Quatro dos seus jogadores, por exemplo, foram disputar a divisão de acesso do estadual junto ao Flamengo de Guanambi. Caso o calendário valorizasse os times menores, isso não aconteceria.

Se o futebol em terras tupiniquis é diferenciado por conta de sua leveza, de sua arte, por que tratar os jogadores como máquinas? Quando se fala desses milhares que ficaram desempregados, fala-se também das famílias deles. E eu bato, incessantemente, na mesma tecla: há muito tempo, se é que houve um tempo, que futebol deixou de ser só um esporte no Brasil. O futebol faz parte da cultura, da ideologia do país, além do aspecto econômico, que no fim é quem define os rumos de nossas competições. O nome do Brasil no mundo é associado à Seleção Canarinho. Sendo assim, que imagem queremos passar? Quem nós queremos ser? Eis as questões. Espero que um dia possamos ter certeza que assistiremos aos jogos do Bode o ano todo.

Dúvidas ou sugestões, é só entrar em contato através das redes sociais ou e-mail da Revista Gambiarra (gambiarrarevista@gmail.com). E se ligue na Mega Rádio.FM toda terça-feira, às 20h. Abraço e até a próxima!

*Natália Silva é jornalista, graduada pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb).