Seja Nerd: A maravilha de ser mulher, que salva o mundo da guerra.

“Se você pode ser uma heroína numa tela salvando o mundo, você pode ser uma heroína salvando o seu mundo seja ele qual for”

Por Paula Joane

Há certo tempo atrás, quando o mundo dos super-heróis dos quadrinhos americanos ainda não me atraia tanto (sempre fui mais dos mangás), a imagem que eu tinha da Mulher Maravilha estava sempre ligada ao Super-Homem. Deve ser a versão feminina dele, oras. Os mesmo tons de roupas, poderes parecidos e toda a pose de ser a “mulher” ou par do herói; eu pensava. Toda a disposição da figura da Mulher Maravilha e sua representação não me atraiam, nem me chamava para conhecer mais sobre a Princesa Diana, apenas como ela e só ela.

Eis que, nessa hype de filmes de heróis, finalmente tive chances de ser apresentada a muitas figuras não tão conhecidas, e de reconhecer aqueles que antes eram só nomes rotulados. Que bela surpresa foi ir ao cinema e assistir a um dos primeiros filmes solo de uma heroína mulher, e que vinha assombrada pelas últimas falhas da DC. Saí da sala saboreando o gostinho da representatividade, e melhor de conhecer a Mulher Maravilha, pela maravilha dela ser uma mulher, que salva o mundo.

Gostaria de logo avisar que não vou desenvolver esse texto dizendo que o filme foi tão bom que pareceu produção da Marvel. Esqueçam, não sou provedora da treta entre estúdios de quadrinhos, muito menos vou interligar essa impressão ao filme, como se fosse sua maior vitória. A vitória aqui, caros filhos do barro que Zeus esculpiu, é a figura que Diana veio representar em uma super-produção que já chegou a 200 milhões de pessoas.

capa WW

“Eu queria salvar o mundo”

O filme começou com essa frase de Diana, enquanto explanava sobre as obscuridades do mundo e de seus sonhos de menina. Qual criança nunca pensou em salvar o mundo também? E quantas crianças mulheres tiveram incentivos de continuarem pensando dessa forma?

Se você pode ser uma heroína numa tela salvando o mundo, você pode ser uma heroína salvando o seu mundo seja ele qual for. Então, temos Gal Gadot como protagonista, e Patty Jenkins como diretora. Finalmente uma produção com mulheres não só no destaque da narrativa, como no comando da direção. Fator que influencia toda a representatividade de uma produção: Não basta só dar espaço para personagem mulher, também se precisa saber como construí-la. Dar espaço para que seja a visão de uma mulher, não a visão que um homem acha que uma mulher poderia ter.

Nessa perspectiva temos muitos pontos positivos: em nenhum momento do filme as amazonas ou a própria MM foi hipersexualizada. As escolhas de câmeras valorizaram a habilidades das guerreiras, que eram de uma mistura de graciosidade com força. E o que falar dos recursos de slow-motion? Talvez em outros filmes, eles entrariam em demasiado. Talvez, só talvez, seria um recurso batido, usado com frequência. Mas sabe quando você está assistindo e as câmeras lentas só ressaltam como dignas de lutas as personagens femininas são?

Cada vez que as amazonas davam aqueles saltos e os frames ficavam lentos, eu via os movimentos de corpo e me sentia ali, nelas, com a mesma capacidade e admirando que sim, é possível ser guerreira! E isso tudo foi através de uma direção feminina, que não só arriscou abordar a complexidade das guerreiras (talvez um diretor homem não tivesse tido o mesmo feeling de captar tais perfis), como construiu cenas ótimas de ação.

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Além disso, ver as habitantes de Temiscera, amazonas que treinam, lutam, governam e são autossuficientes foi uma das melhores coisas do filme. E melhor, gostei muito da diversidade de mulheres na ilha. Fica no gostinho ver mais daquela organização, incluindo destaque para outras mulheres, lutas internas e a forma que elas encaram a sexualidade, porque não?

Conversando com meu consultor particular (seu Zema, meu pai) ele me falou das outras origens da Mulher Maravilha. De secretária a filha de um abuso sexual entre deuses e amazona… Representações intimamente ligadas com o contexto machista da época em que foram produzidas e que afetariam na forma com a MM também se apresentava para o público. Chego então, no que mais gostaria de comentar sobre esse filme: A representação da personalidade de Diana.

 “Eu sou o ‘homem’ que vai acabar com a guerra.”

Uma guerreira que acredita na sua missão de dar fim a guerras no mundo. Determinada e habilidosa. Mas repleta de empatia. A Mulher Maravilha é o que muitos heróis pareceram esquecer nas suas histórias rodeadas de egoísmo e poder. Ela foi representação de esperança e confiança. Além disso, ver a forma como Diana enfrentou outro mundo diferente do seu me encheu ainda mais de orgulho. Não levaram a ingenuidade dela até um nível desdenhoso, muito pelo contrário, a ingenuidade dela era prova de quão esquisito é um mundo machista de líderes burocráticos e egocêntricos; responsáveis esses por “salvar o mundo”. A ingenuidade da Diana foi uma forma intrigantemente sábia de encarar e confrontar os padrões sociais da época. E dessa ingenuidade também veio alguns alívios cômicos, que finalmente tive a tranquilidade de rir pelos motivos certos e não por rebaixar a figura de ninguém.

Diana e Steve Trevor

Diana e Steve Trevor

O ritmo do filme foi equilibrado, lançando mão de um tom sério em contexto de guerra (com sutis críticas para todos os lados de combate) e com pequenos alívios nos momentos certos. A equipe de combate também foi bem representada. Apesar de faltar mais uma figura feminina – essa ausência justificada pelo contexto da época -, soube trabalhar outras variedades de personagens: Um índio, um guerreiro com traumas de guerra. E o parceiro Steve também estava bem colocado no filme, não tomando para si o lugar de destaque da heroína, mas com sua importância na história.

E lembram quando eu falei que a personalidade da Diana era empática? Isso remete a uma grande temática do filme: o amor. Não o amor platônico entre homem e mulher, entre a Diana e o Steve; uma preocupação de muitos de como seria retratado. Eu definitivamente não sou dessas que odeiam romances em filme, muito pelo contrário, shippo mesmo! Só não dá para associar a imagem de uma personagem SEMPRE ao romance como se fosse a única utilidade de sua presença nas narrativas.

Esse com certeza não foi o caso de Wonder Woman. O amor no filme, era visto na garra da amazona em livrar o mal do mundo, era visto quando ela se compadeceu com as vítimas da guerra, quando ela soube que os humanos não eram tão corrompidos como diziam, que eles eram capazes de se sacrificarem por boas causas. Tá na hora de pararem de associar o amor como se ele fosse sinônimo de fraqueza. Em Wonder Woman, o amor foi justamente a força que ela precisava para vencer.

Eu não tinha como permear todo esse texto sem falar de como é importante o papel feminino num filme de heróis. Pode parecer até manjado, mas temos sempre que exaltar e reafirmar esses lugares de fala! Infelizmente, no cinema, ouvia do meu lado comentários como “olha o garanhão nessa ilha só de mulheres” ou “ela é feia, podiam ter escolhida uma mulher mais gostosa”, que me acometeram o pensamento de que nosso público ainda não está maduro o suficiente para receber essa representação.

Mas, todo o machismo exalado de alguns se espaireceu quando percebi que a sala estava bem democrática – mulheres, homens, crianças – e reparei também quão eufórico o cinema ficou nas cenas de força da MM. Por mais irritante que era ver o pessoal tirando foto com flash da tela do cinema, eu entendia que elas queriam gravar aquelas cenas, queriam prestigiar e salvar os momentos de triunfo da Mulher Maravilha.

E desculpem quase legitimar esse ato chato, mas achei esse reconhecimento do público para com as cenas fortes, sensacional. E mais; só para sair feliz de vez vi algo que aí sim, só reafirmou quão importante é representatividade no mundo do entretenimento: uma garotinha que não devia passar dos seus sete anos, brincava e executava golpes, como se fosse a própria Mulher Maravilhinha. Ali eu vi que ela queria salvar o mundo, como a Diana e como toda mulher pode ser e fazer.

Ver um bom filme, com uma mensagem bacana e cenas de ação boas, vindas ainda de uma heroína como protagonista torna tudo muito simbólico.

Que seja o primeiro de muitos filmes com super-heroínas, bem representadas. Eu quero é mais e cada vez com mais ousadia. Tome representação!