Seja Nerd: Tudo novo e diferente na Marvel Comics

Juca Oliveira comenta as notícias sobre os novos encaminhamentos editoriais da Marvel Comics, que se reestrutura nessa nova era pós-MCU

por Juca Oliveira

Quem não viu ainda as imagens lançadas como teaser do novo universo Marvel nos quadrinhos? Vejam então! São essas aí em cima, no banner da coluna da semana. Junto com elas, vem a notícia de que o corpo editorial Marvel Comics está pretendendo, ao fim do ciclo Guerras Secretas (que está atualmente em curso nos gibis), se reestruturar completamente. Serão mais de 50 novas HQs, um reboot completo e corajoso, com muitas coisas sendo transformadas em suas equipes, personagens, e roteiros. O novo rumo tomado nos gibis está se configurando na forma de um novo universo apresentado sob o título All-New, All-Different Marvel, no qual muitas portas estão sendo abertas para experimentações e questionamentos com personagens estabelecidos, além da introdução de novos e reinventados personagens. Segundo a divulgação, a Marvel enxerga esse movimento, a acontecer a partir de outubro desse ano nos Estados Unidos, como o início dos próximos 50 a 75 anos da editora. Se eles mesmos entendem a decisão como o começo de uma nova era e acreditam no marco que isto pode vir a se tornar na história da gigante conhecida como casa das ideias, acho que é uma boa ideia a gente tentar entender um pouco os significados e as consequências deste momento.

Vamos começar dando uma olhada nas imagens.

Mesclando as duas imagens teaser, percebemos algo que não muda: o Homem de Ferro.

Mesclando as duas imagens teaser, percebemos algo que não muda: o Homem de Ferro.

A proeminência do Homem de Ferro no centro das imagens retrata o assumido esforço da Marvel em convergir o MCU (Marvel Cinematic Universe) com os quadrinhos (para não dizer: curvar os quadrinhos à imagem dos cinemas). Nos gibis, o Homem-Aranha assume historicamente o papel de mascote mascarado da casa das ideias… Mas em qualquer outro meio, por conta do estrondoso sucesso das produções da Marvel Studios, desde 2008 o garoto-propaganda deles sem dúvida alguma tem sido Tony Stark com sua armadura high-tech. Existe então essa assumida disposição em trazer o Homem de Ferro para a frente como o novo ícone da Marvel em todos os meios.

Outros elementos indicam essa tendência a convergir cinema e quadrinhos: a dissolução do Quarteto Fantástico enquanto equipe leva seus membros a compor outros núcleos. Do que se tem notícia, o Coisa entra pros Guardiões da Galáxia (linkando com o filme) e o Tocha Humana agora faz parte dos Inumanos (linkando com a série da S.H.I.E.L.D.). E falando nas séries: numa das imagens, vemos o agente Coulson, e na outra, o Daredevil com seu novo uniforme, agora preto. Impossível achar que é coincidência, né? Ah! E o Homem-Formiga, que veremos no cinema logo mais, em julho, figura entre os heróis mostrados nos teasers, trajando também um uniforme um tanto quanto semelhante ao que podemos ver nos trailers que já saíram do filme do herói diminuto.

Além disso, estão lá o Pantera Negra (a fazer sua estreia cinematográfica no ano que vem, em Capitão América 3), e os novos Thor (que, nos quadrinhos, há algum tempo é uma mulher) e Capitão América (cujo traje foi assumido por Sam Wilson, o antigo Falcão). No caso desses dois últimos, embora não estejam ainda em concordância com o que está rolando no MCU, sabemos que os eventos em Thor: Ragnarok podem levar a uma mudança radical no personagem, incluindo quem sabe passar adiante o martelo… E que o contrato de Chris Evans no papel do Capitão está à beira de terminar, com especulações sobre quem deve assumir seu lugar: o Soldado Invernal? Sam Wilson, como nos quadrinhos? Veremos em breve (ainda não acredito que Civil War já estreia em maio do ano que vem).

Outras mudanças, no entanto, são sim um tanto quanto originais, e nada têm a ver (por enquanto, que saibamos) com os encaminhamentos dados aos personagens no MCU. O Hulk, por exemplo, não será mais o Bruce Banner — e ele nem aparece nas imagens de divulgação, então aguardemos alguma surpresa potencialmente impactante quando ele der as caras. O próprio Homem de Ferro, novo porta-bandeira assumido nesse futuro universo, ainda não foi confirmado que será ‘vestido’ por Tony Stark — esse é um mistério que está levantando muitas teorias, inclusive, como a de que talvez ninguém menos que Bruce Banner seja o novo cabeça-de-lata. O Dr. Estranho que aparece nas imagens teaser segura um machadão, e ninguém sabe ainda o que isso quer dizer também. E vemos também dois Homem-Aranha, supostamente Peter Parker e Miles Morales, coexistindo. Decisões assim demonstram a disposição da Marvel em dar uma sacodida geral nesse movimento de reboot editorial nos gibis.

Uma das motivações para a decisão pelo botão reset tem a ver com uma incorporação mais assumida da diversidade em seu corpo de personagens. Num dos releases de imprensa sobre a linha editorial All-New-All-Different Marvel, o novo universo reconfigurado da casa das ideias foi descrito como um “spectacular universe that truly represents the marvelous world outside your window!” (ou o “universo espetacular que verdadeiramente representa o maravilhoso mundo lá fora”). Falar em “representar” chama logo a atenção dos mais atentos, uma vez que ao longo dos últimos anos a Marvel vem mesmo traçando esse movimento de diversificar com seus personagens. Livre de um discurso sobre “minorias” ou “inclusão”, a justificativa tem sido a de simplesmente melhor representar a diversidade que existe no mundo, trazendo personagens com um maior alcance em termos de identidade de gênero, orientações sexuais, backgrounds religiosos, grupos étnicos e tudo mais. Em entrevista ao website Newsarama, o vice-presidente editorial da Marvel, Tom Brevoort, diz que a frase do release que descreve o novo universo não representa nenhuma mudança de postura nem nada assim, tendo em vista que sempre houve mesmo um esforço da parte deles para que os eventos no Universo Marvel fossem (à sua própria maneira) verossímeis ou contextualizados, a fim de que houvesse uma maior empatia do público com seus personagens e tramas. Brevoort assume que eles vêm fazendo um esforço maior nos últimos anos para romper com o status quo dos personagens mais conhecidos para refletir melhor a diversidade que há no mundo lá fora. Homem-Aranha negro/latino, Thor mulher, e Miss Marvel muçulmana são exemplos de reinterpretações recentes de personagens clássicos que continuam fazendo um estrondoso sucesso em termos de venda, popularidade, e aceitação dos fãs. É algo que vem sendo feito aos poucos, segundo Brevoort, personagem a personagem, de forma espaçada. Mas, naturalmente, com o fim de Guerras Secretas e o início da série All-New, All-Different Marvel, eles têm sim uma oportunidade de trazer essa diversificação de uma vez, com mais personagens. A ideia parece mesmo ser a de quebrar a monotonia de padrões equivocados, abraçando uma diversidade que é real, e que representa muito mais precisamente a realidade do ‘mundo lá fora’.

Outro ponto levantado é que o foco agora é a qualidade narrativa dos arcos e sagas, em vez de tentar concentrar os esforços em levar histórias adiante por um número acachapante de volumes. Isso não quer dizer que, depois de lançadas as novas HQs do universo All-New, All-Different Marvel, um mesmo duo artista/roteirista que assine a edição do primeiro mês não venha a assumir a revista por um, dois, três anos. Quer dizer apenas que a Marvel entende que nos dias de hoje faz menos sentido forçar uma linha do tempo de uma revista chegar até a edição 600, por mais doloroso que seja abrir mão do valor nostálgico em levar uma história tão longe em sequência. Segundo Brevoort, a preocupação agora é a qualidade e substância das histórias; se isso vai querer dizer arcos que se encerram antes de chegar ao #100, é uma mudança que o novo direcionamento editorial da companhia está disposta a assumir. Trata-se de uma postura de trocar quantidade por qualidade — o que, em princípio, é uma boa mudança, tendo em vista a tendência da casa das ideias de levar um bom argumento de roteiro às últimas consequências, esgotando as virtudes criativas e se atrapalhando toda por ter levado uma boa ideia longe demais.

Cumprindo com suas premissas de priorizar a qualidade narrativa ou não, uma coisa é certa: a partir do início das novas revistas do universo All-New, All-Different Marvel, será o melhor momento em décadas para se começar a acompanhar uma história de super herói mascarado: todas as revistas a partir do reboot serão numeradas a partir do #1. Aqueles que têm uma faísca de colecionador por dentro que se cuidem, pois serão mais de 50 novas revistas, e com a diversidade que a Marvel vem abraçando, o que não vai faltar é opção de personagem e roteiro diferente pra tentar convencer a todo tipo de gosto.

***

E vocês? Acharam absurda a decisão? Discordam do direcionamento de convergir cinema e quadrinhos? Estão loucos pra comprar tudo e colecionar pro resto da vida? Mandem suas opiniões nos comentários abaixo!

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5 comments

  • Excelente, vou ficar de prontidão pra tentar acompanhar essa nova fase, de comprar mesmo, porque nunca fui de seguir quadrinhos por essa preguiça mortal de nunca ter fim. Além de aqui em Conquista nunca chegar direito, sempre preferi as graphic novel mais fechadinhas, com esse novo formato me empolgo mais.

  • a vontade de colecionar pulsa forte em mim ao saber dessas notícias também, embora eu tenha um pé atrás com decisões talvez muito comerciais em equalizar demais os universos dos quadrinhos e do cinema… talvez seja uma pressão da disney, que agora é dona da marvel, em movimentar mais grana nos quadrinhos (tendo em vista que nos cinemas a arrecadação é esmagadoramente maior do que com a venda dos gibis). de qualquer jeito, tô super curioso pra ir descobrindo essas novidades, e acho que uma ou outra hq eu devo acompanhar sim! sempre quis essa chance de entrar na edição #1 de alguma história que eu curta, e sair acompanhando

  • Bom texto, obrigado pelas atualizações. Parece que a Marvel tá armando um combo matador com essas mudanças (acertadas, a meu ver). Vamos esperar que caprichem nas histórias para que a mudança dos personagens não seja vazia. É uma jogada “refrescante”, mas arriscada.

    Obs: Serial legal colocar as imagens iniciais com opção de zoom.

  • Como os filmes acontecem em um espaço de dois ou três anos, a necessidade da Marvel em focar mais em histórias do que em cronologia ocorre porque o universo de cada personagem deve ficar estático cronologicamente até que um novo filme aconteça – ninguém morrerá a não ser que morra também nos filmes, ninguém assumirá o manto do personagem a não ser que assuma também nos filmes, nada de relevante ocorrerá a não ser que ocorra também nos filmes. As histórias serão interessantes porque a equipe de quadrinistas é competente, mas não terão a liberdade criativa em grande escala de outrora. Servirão de complemento ao que ocorre nos filmes, como já ocorre com as séries. Por isso, estou muito mais interessado em ler as novas histórias dos personagens que certamente não gerarão bilheteria – dizem que o Reed Richards do universo Ultimate, que é um vilão responsável por destruir o Quarteto Fantástico do seu universo, assumirá o alterego do Hulk nesse novo universo unificado. Como Reed Richards não faz parte do MCU, qualquer coisa pode acontecer nos quadrinhos – e é isso que me deixa mais animado.

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