Seja Nerd: Super Gambiarra Bros.

Na coluna da semana, Juca Oliveira nos apresenta a sua perspectiva a respeito de um personagem importante na história de sua vida

Vamos fazer diferente aqui na coluna desta vez? A essa altura, quem lê aqui com alguma assiduidade sabe que o significado de ser nerd pra mim tem tudo a ver com memória, afeto, amizade e tudo mais. E a própria existência da coluna Seja Nerd, que me faz estar aqui hoje pela oitava vez (já! pois é!) compartilhando um pouquinho das minhas reflexões e ideias com vocês se deve a uma série de esforços e conquistas a partir de algumas pessoas que, para mim, também têm tudo a ver com memória, afeto, amizade e tudo mais. Hoje eu vou usar este espaço, que atualmente acho que posso dizer que é a principal plataforma que me dá voz e acredita no que tenho a dizer, para contar para vocês uma breve historinha sobre uma dessas pessoas.

Este rapaz na ilustração é o (questionavelmente) famoso Rafuda Flowers. Ele é um dos personagens principais de uma franquia que vem crescendo muito em popularidade, chamada Super Gambiarra Bros. (que na verdade não se refere a dois irmãos, mas sim a um casal protagonista e a uma irmandade de colaboradores, amigos, parceiros e “bróderes” de todo tipo que eles mobilizam com seu poder da lampadinha). Minha história acompanhando a trajetória desse personagem é longa: são mais de 20 anos de co-op multiplayer na vida. E rapaz, tendo passado juntos por tantas fases diferentes, acho notável que tenhamos mantido a coordenação por longos anos sem termos dado game over nenhuma vez.

Antes de comermos cogumelos mágicos para ficarmos grandes como somos hoje, vivemos em mundos coloridos cheios de imaginação e fantasia, muito parecidos com aqueles pelos quais passeávamos no Super Nintendo dele a cada fim de semana, quando era quase religioso passar numa locadora na sexta-feira, descobrir algum novo clássico instantâneo, levar pra casa e passar o fim de semana jogando juntos, vidrados. A fundação da relação de amizade que construímos desde quando éramos pequenos o suficiente para merecermos ser carregados por Yoshis cuidadosos parecia um daqueles toscos e maravilhosos álbuns de figurinha de banca de revista, que tinha de TUDO que uma criança podia gostar: videogames, desenhos animados, super-heróis, séries de TV, mangá, quadrinhos… Compartilhamos sempre as nossas referências e os nossos tesouros pessoais um com o outro — e nos ajudávamos a completar os nossos álbuns também. A troca de figurinhas sempre foi literal e figurativa entre nós. E pensando bem, a respeito desses assuntos, hoje continuamos sendo bem crianças no nosso apreço por todas essas coisas que levam nossa imaginação embora para mundos fantásticos povoados de memórias bem preciosas. Acho que é também por isso que sou eu que estou aqui escrevendo sobre essas figurinhas: fomos descobrindo na vida e compartilhando um com o outro, antes de ouvir falar a palavra nerd pela primeira vez, que adorávamos tudo aquilo que eventualmente seria batizado dessa forma. Ser nerd sempre foi ser primo dele, amigo dele, player 2 no Super Nintendo dele.

Nos puzzles mais complexos da infância tardia, já tentamos dominar o mundo de nossas próprias formas. A incessante busca por superação estratégica nos fez embarcar juntos na aventura de treinar monstros de bolso. Nossos Game Boys foram comprados na mesma época, e consultávamos um ao outro antes de comprar o jogo de Pokémon do momento: se o meu era o Red, o dele seria o Blue. Sabíamos desde o início que provavelmente não teríamos a paciência de capturar todos os 150 monstrinhos originais, mas um saber que o outro existia e tinha a versão oposta do jogo nas mãos nos fazia saber que isso era possível e nos permitia acreditar que poderíamos catchem all se realmente quiséssemos. Acho que isso acabou virando também um aspecto constante nas nossas parcerias, inclusive essas de hoje em dia: saber da existência um do outro é saber que temos alguém para contar caso precisemos de alguém que nos faça acreditar que somos capazes de realizar alguns dos sonhos dos quais às vezes nós mesmos duvidamos se daremos conta.

Nos conturbados e muitas vezes cruéis tempos de escola, especialmente quando vêm chegando, enfileiradas, as confusões da adolescência, era normal sentirmos que precisávamos de um super-herói às vezes. Mas o que eu aprendi com Rafuda Flowers é que é muito mais poderoso quando nós podemos ser nossos próprios salvadores. Diante dos meus olhos, ele passou pelo tipo de crueldade que eu, alguns anos antes, já tinha sentido na pele e ficado intrigado sem entender de onde vem. Em alguns momentos, não consegui me segurar e acabei quase Hulkando em face à injustificável chateação que vi sendo dirigida a ele por pessoas cruéis e maiores que nós dois. Intervir e espantar essas pessoas do caminho dele era um mínimo de apoio que eu podia oferecer naquela hora pra dizer que eu ainda estava ali pro que precisasse. Hoje em dia acho que ele seria muito mais capaz de fazer isso por mim do que eu por ele. Sinal dos tempos!

Outro sinal dos tempos foi ver Rafuda Flowers passar pela fase da faculdade — outra que costuma ser jogada no nível hard enchendo seu sacolão de bugigangas de novos itens durante todo o trajeto. Sua vontade o fez destravar todos os baús de tesouro nos locais mais obscuros e secretos, aumentando o alcance de suas habilidades a cada experiência. E o mais bacana de tudo foi que a quest desse personagem não envolvia ter que resgatar nenhum par romântico aos exaustos moldes da donzela em apuros; em vez disso, sua parceira a partir dessa fase é a outra protagonista do Super Gambiarra Bros., tão intrépida e habilidosa quanto ele próprio. Juntos, eles se salvam de apuros e criam suas próprias estratégias e sidequests, mobilizando os mais diversos personagens coadjuvantes que acabam colaborando e se tornando partes importantes da história toda.

Quando Flowers terminou essa fase da faculdade e eu não pude estar presente pra assistir à cutscene de comemoração do fim dela, enviei um recado pra ele. Nesse recado, eu dizia a ele que acreditava que tem muita gente por aí que tinha um trabalho danado pra encontrar uma profissão, mas que a criatividade e a energia que se escondiam dentro desse sacolão de bugigangas dele — o inventário do personagem Rafuda Flowers — faziam dele um integrante de um outro grupo de indivíduos: o dos que inventam sua própria profissão a cada novo projeto. Hoje eu venho aqui atualizar a minha percepção sobre isso: os Super Gambiarra Bros. inventam e reinventam suas próprias profissões e atividades, explorando os limites dela, e de quebra inventam um pouquinho as dos outros também. Nunca pensei que eu seria colunista e ilustrador colaborando com um trabalho em que acredito tanto, e que toda hora se reabastece com novos projetos e novas ideias.

Viva Rafuda Flowers e os Super Gambiarra Bros.! Juntos, eles me revelaram o poder imenso do power-up da lampadinha brilhante, que enche o jogador de curiosidade e vontade de inventar, explorar, descobrir e construir juntos. Que venham as próximas fases, com todos os desafios que devem nos reservar, pois com o super inventário de Flowers, estamos muito bem equipados para lidar com o que vier.

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