Seja Nerd: “Rapaz, que bom ano para quem é nerd!”

Na coluna da semana, Juca Oliveira expande um pouco a reflexão sobre a experiência cinematográfica do nerd contemporâneo

Essa semana eu assisti ao episódio 19 da segunda temporada de Agents of S.H.I.E.L.D. e vi que cantei a bola na coluna da semana passada: eles de fato suprem um pouco a lacuna que ficou em Vingadores 2 quanto a dar alguma explicação sobre a questão dos poderes dos gêmeos Maximoff. E não só isso: como o filme só foi ao ar na semana passada nos EUA (isso mesmo, nós aqui no Brasil o recebemos uma semana antes), foi esse episódio de S.H.I.E.L.D. que construiu a ponte e funcionou como uma espécie de introdução para Era de Ultron; resultou que o fanboy em mim falou mais alto e eu aproveitei e fui reassistir ao filme no cinema – e que decisão acertada! A forma como o episódio da semana passada do seriado abre pros eventos do filme cria uma continuidade quase direta entre um meio e outro. Olha eu aqui mais uma vez enaltecendo a experiência transmídia da Marvel Studios… Mas tem um sentido eu estar falando disso! Calma lá!

Voltando a falar um pouco sobre a coluna da semana passada, me remeto a uma anedota que eu ensaiei contar a vocês na ocasião, mas acabou ficando de fora: quando saímos do cinema depois da sessão de Vingadores 2, eu e meu roommate sentamos num boteco com um casal de amigos dele que assistiram ao filme conosco pra trocar ideias, opiniões e tudo mais. Depois de conversarmos sobre Era de Ultron, recapitulamos e falamos um pouquinho sobre Homem-Formiga, Mad Max, e Guerra nas Estrelas – todos os quais estrearão ainda esse ano. Ao fim da conversa, o amigo do meu roommate comentou: “Rapaz, que bom ano para quem é nerd!”. Embora eu tenha concordado sorrindo (e com sinceridade, no momento), fiquei pensando nisso depois, pro resto da noite e além. É verdade que 2015, no que diz respeito ao cinema e à TV, é um bom ano para nós nerds – mais ainda no caso específico de quem gosta de super heróis e de produções cinematográficas baseadas em quadrinhos. Mas é verdade também que essa afirmação a respeito do cinema, sobre ser um bom ano pra quem é nerd, poderia se aplicar a vários outros anos recentes. Ao ficar pensando nisso e tentando recapitular mentalmente todos esses últimos bons anos para os nerds no cinema, achei que seria uma boa ideia fazer algumas rápidas pesquisas e tentar pensar um pouco nessa recente trajetória ascendente dos filmes de super heróis, que vêm apresentando tanto sucesso que começam a definir uma espécie de subgênero próprio, com suas próprias tendências narrativas e visuais.

É difícil apontar exatamente para um marco certeiro que pontue o início dessa jornada rumo à diversidade e à constância de lançamentos de filmes de super heróis que temos hoje, que foi o que me fez achar que não tinha nada demais saber que tinha dois grandes lançamentos da Marvel num só ano. Mas como aqui não queremos ser absolutos nem sentimos uma necessidade de exatidão, vou eleger meus próprios marcos, baseado em parte nas rápidas pesquisas que fiz e em parte na minha própria memória ao relembrar a trajetória através desses anos todos, desde o ano 2000, quando a Fox lançou X-Men. A sensação que tenho é que antes disso, filmes baseados em quadrinhos eram raros; eram a exceção, e não a regra. Mas as coisas mudaram! Sabem quantos filmes baseados em quadrinhos foram lançados desde X-Men? 64. Isso dá uma média de mais de 4 filmes por ano nesses últimos 15 anos.

O que Bryan Singer fez por X-Men, que eu acho que é digno de nota (e provavelmente o que me faz lembrar simbolicamente desse lançamento quando parei pra pensar nessa onda atual de filmes baseados em quadrinhos), foi conferir seriedade ao material de origem. Com todas as licenças que tomou na adaptação dos personagens – alguns dos quais sabemos bem que foram retratados de forma mais crassa ou truncada do que outros –, ele buscou mostrar os mutantes, com sua absurda gama de poderes fantásticos, ambientados num mundo muito semelhante ao nosso mundo real. Os temas abordados e os ambientes e cenários do contexto não retratavam um mundo muito fantasioso, mas sim de uma versão bem pé-no-chão que se aproximava da realidade na medida do possível. E essa decisão por retratar um mundo mais realista escapa também de mundos over-estilizados, com traços específicos ou temáticas noir, exageradas, etc. que correm muito mais o risco de pegar de vez ou alienar totalmente a audiência (como o Batman de Tim Burton, antes, ou a Sin City de Miller/Rodriguez/Tarantino, depois). Ou seja: a quantidade de filmes baseados em quadrinhos de receptividade dúbia pela audiência diminuiu bastante desde então.

Essa alternativa de ambientação que se baseia na relação entre personagens fantásticos e mundos próximos do nosso cotidiano foi ainda melhor explorada por Sam Raimi em Spider-Man, de 2002 – que eu imagino que seja por muitos considerado o primeiro grande marco da trajetória de ascensão desse gênero emergente na produção Hollywoodiana contemporânea. Claro que aqui se trata de um material de origem cuja popularidade nos próprios quadrinhos já contava muito com o fato de se tratar de um personagem com um lado humano que parecia muito verossímil: os dramas adolescentes vividos por Peter Parker e o mundo que ele habitava eram familiares e traziam questões que evocavam empatia, como bullying, exclusão e ansiedade social. Então poderia se dizer que a escolha pela franquia Spider-Man era segura… Exceto pelo fato de que a tecnologia para efeitos visuais teria que dar conta da tarefa de nos convencer que aquele homem mascarado se balançando em teias no meio dos prédios de Nova Iorque não pareceria absurdo — e deu! O risco valeu a pena e a aposta da Sony acabou nos dando o filme baseado em quadrinhos que talvez seja o mais importante do gênero até hoje. Seu sucesso foi estrondosamente maior do que o de X-Men (que já havia sido grande), e ele não agradou somente a quem conhecia o personagem a partir dos quadrinhos ou do desenho animado: ele explodiu a popularidade do Homem-Aranha e atraiu audiências que abrangiam muito mais do que somente o público dos gibis, fazendo muita gente passar a se importar com personagens que eles antes talvez desconhecessem. Acho que dá até pra se discutir se a leva atual de filmes baseados em quadrinhos não se possibilitou em grande parte por conta dos parâmetros estabelecidos em 2002 por Spider-Man.

Daí em diante, esse gênero de filmes meio que explodiu em Hollywood. Na década de 2000-2010, filmes de super heróis estavam sempre figurando entre os mais vendáveis nos cinemas e o gênero começou a se tornar popular no meio cinematográfico tanto quanto era popular no meio dos quadrinhos. As peças pareciam estar se encaixando e os roteiros se aprimoravam a cada nova franquia explosiva. As histórias começaram a ficar interessantes, para além das cenas de ação. E querem melhor exemplo disso do que um que veio bem no meio dessa referida década, que foi a trilogia de Christopher Nolan do cavaleiro das trevas, iniciada com Batman Begins em 2005? Sua trilogia elevou o nível de expectativa a respeito da ideia de um mundo realista e sombrio e trouxe novos parâmetros narrativos, com roteiros densos e interpretações inesquecíveis. Até hoje muita gente parece eleger O Cavaleiro das Trevas, de 2008 (que é o segundo filme da trilogia Nolan) como o melhor filme baseado em quadrinhos de todos os tempos.

Nesse ponto da trajetória, nós nerds já estávamos ficando mimados por Hollywood: exatamente no mesmo ano em que Nolan nos apresentou sua obra-prima, que é também o ponto alto da trilogia, estrou também Iron Man (2008), dirigido por Jon Favreau. O recém-formado Marvel Studios começava ali um processo (que guardava um futuro muito próspero) de tomar as rédeas de suas propriedades intelectuais e guiar a transição delas para a linguagem dos cinemas, começando com o casamento de Robert Downey Jr. com o personagem de Tony Stark/Iron Man, que nos trouxe o garoto-propaganda que arrecadou a empatia de tanta gente e levou a história adiante. Lembram que na cena pós-créditos de Iron Man, ninguém menos que Nick Fury aparece na casa de Tony Stark e já menciona a palavra “Vingadores”? Nerdgasmos múltiplos e coletivos vieram em resposta a esse teaser astronômico nas salas de cinema… E isso foi em 2008! SETE anos atrás. Não acho que seria nenhum absurdo dizer que seria super compatível ouvir a fala “Rapaz, que bom ano para quem é nerd!” naquele ano, certo? E desde então, sinceramente, acho que não houve nenhum ano que não tenha sido um bom ano para ser nerd nesse aspecto: estamos já completamente habituados e mimados com esse ritmo de vários filmes baseados em quadrinhos todo ano. E agora não são só filmes… Tem também diversas séries de TV, minisséries, trilogias, eventos etc. Acho que é seguro dizer que estamos vivendo uma espécie de era de ouro das adaptações dos quadrinhos para audiovisual, e foi essa percepção que me fez ficar com a fala do amigo do meu roommate na cabeça: quando foi a última vez em que não foi um ano bom nos cinemas para quem é nerd?

As notícias dessa semana revelaram que no fim de semana de abertura de Vingadores 2, o filme arrecadou 191.3 milhões de dólares, batendo vários recordes. Em termos de arrecadação no fim de semana de estreia, na história do cinema, ele só ficou atrás de um filme. Adivinhem qual? Vingadores 1. Então acho que de alguma maneira dá pra imaginar que o pico dessa ‘era de ouro’ pode já ter sido atingido. Mas isso não quer dizer que a tendência vai se esvair num futuro próximo. O calendário de lançamentos é bem recheado pros próximos anos – na minha primeira coluna para a Gambiarra de Papel, falamos sobre a quantidade insana de filmes, só da Marvel, que teríamos para assistir daqui até 2020. E vemos aí a DC agora, aos tropeços, correndo atrás de construir seu próprio universo cinematográfico em resposta ao sucesso da Marvel Studios. E por mais que eu particularmente não consiga me sensibilizar ou me empolgar muito com o que apareceu até agora nesse front (sim, foto do novo Coringa de Jared Leto com a palavra “DAMAGED” tatuada NA TESTA, eu estou olhando para você), eu torço de verdade para que ela faça seu esforço para correr atrás de atingir um mesmo nível de coesão e unidade que a Marvel vem demonstrando, mesmo que isso demore anos e que ela precise aprender lições no caminho. Afinal, eu quero mais é que a gente continue comentando, ano após ano, quiçá por décadas: rapaz, que boa época nos cinemas para quem é nerd.

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