Seja Nerd: PRECISAMOS falar sobre Vingadores 2

Não temos escolha, o tema da semana tem a obrigação moral de falar sobre um dos maiores lançamentos nerd do ano

Por Juca Oliveira

Pela segunda semana consecutiva, as circunstâncias dessa louca contemporaneidade do universo nerd me obrigam a ser óbvio aqui na pauta da Seja Nerd: a gente PRECISA falar sobre Vingadores 2: A Era de Ultron. Então, para aqueles que ainda não assistiram ao filme: POR QUE AINDA NÃO? SPOILER ALERT! Não me responsabilizo pelos aspectos passionais e spoilerísticos dos comentários a seguir.

O filme nos recepciona com uma cena de ação. Sabe quando o trailer te faz ter a sensação de que você já viu um pouco de tudo que tem no filme? Aquela sensação de que as partes mais impactantes já lhe foram entregues, de que os momentos mais empolgantes e as cenas de clímax foram mostradas antes de você assistir ao filme? Desfazendo todas as minhas preocupações, Vingadores 2 faz exatamente o contrário disso. Quem diria que a cena do salto do jipe, em que todos os heróis pulam rumo à batalha, que parecia ser naturalmente uma das money shots do filme, apareceria logo nos primeiros minutos? Isso diz muito pra quem estava ligado nos materiais de divulgação no filme e com algum receio de que já tivesse visto tudo nos trailers; mostrando a cena do jipe logo na entrada, o filme nos diz: “vocês ainda não viram nada”.

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Cena impactante do trailer de Vingadores 2 aparece nos primeiros minutos de filme

Essa abertura faz uma coisa muito bacana, que foi algo que senti falta de ser melhor estabelecido no primeiro filme: ela já apresenta o grupo de heróis se comportando como uma task team, mais semelhante a como eles tradicionalmente se comportam nos quadrinhos –  uma equipe com missões específicas, tarefas, uma agenda de objetivos. Se no primeiro filme, o último ato da batalha de Nova Iorque nos deu um saborzinho disso ao mostrar eles trabalhando de fato como uma equipe coordenada, comandada pelo Capitão América, aqui a equipe já é introduzida em cena agindo em grupo, inclusive com personagens fazendo comentários sobre missões anteriores que eles, pelo visto, andavam fazendo juntos nesses últimos tempos. Isso é essencial para fundamentar a pertinência de os Vingadores existirem enquanto uma série de filmes, pois expande um pouco a ideia de qual seria a função da equipe, ou a justificativa para eles existirem. Se antes Nick Fury se referia a eles como um grupo de seres notáveis que se reuniriam “sempre que precisássemos deles, para vencer as batalhas que nós, humanos, não seríamos capazes de vencer”, agora já está muito claro que eles se comportam como uma equipe de guardiões sempre em estado de alerta, sempre em plena função, ativamente investigando e combatendo ameaças numa escala global. Para quem está habituado ao modus operandi dos Vingadores nos quadrinhos, essa lógica é familiar e parece fazer mais sentido.

O cetro de Loki é o objetivo da primeira missão dos Vingadores no filme, como daria pra especular a partir da provocação lançada na cena pós-créditos em Capitão América 2, e sua importância pro desenvolvimento da história demonstra a surpreendente carga de matéria-prima dramática que Joss Whedon conseguiu extrair de um único objeto. Isso demonstra também que a coesão dos eventos do MCU (Marvel Cinematic Universe) é maior do que pensávamos e vários elementos que já haviam sido introduzidos e sugeridos anteriormente foram pensados como parte integrante de uma narrativa maior envolvendo a sequência das histórias através dos filmes – a revelação posterior de que a fonte dos poderes do cetro é uma das Jóias do Infinito comprova isso. Reaver o cetro permite que Tony Stark e Bruce Banner avancem num projeto de criação de uma inteligência artificial capaz de comandar um exército de armaduras ao estilo do Homem de Ferro, eliminando assim a necessidade de que o próprio Stark vista a armadura – o projeto Ultron.

Mas a impulsividade da dupla de cientistas em explorar o poder do cetro – cuja estrutura interna se revela como uma espécie de cérebro superdotado –, em segredo e com um prazo apertado, acaba criando um monstro: o próprio Jarvis, responsável por administrar o programa Ultron, acaba sendo subjugado pela inteligência artificial, cujo pensamento ultra-racional identifica a extinção da humanidade como o caminho mais lógico e viável para atingir o objetivo de Tony Stark: a paz no nosso tempo. O nascimento de Ultron é bem construído por apresentar visualmente a velocidade quase instantânea com que a inteligência dele acessa uma infinidade de arquivos, dados, e redes, e se reprograma para elaborar uma forma mais reducionista de atingir o seu objetivo; Tony Stark cria uma inteligência inteligente demais, mas desprovida de compaixão. A destruição de Jarvis, que na ausência da S.H.I.E.L.D., acabara funcionando como um centro virtual de comando e estratégia para os Vingadores, debilita muito a equipe; de repente, eles têm que fazer todas as tarefas com as próprias mãos. Some-se a isso o fato de que a inteligência de Ultron, bem como a de Jarvis, é virtual, e portanto ele se alastra pelo mundo através da internet, e de repente os Vingadores se encontram totalmente despreparados para enfrentar um vilão que parece bastante assustador.

Após essa acelerada apresentação, que situa os heróis com os quais nos familiarizamos depois do primeiro filme e os novos oponentes que enfrentarão, começamos a mergulhar aos poucos nas realidades de cada personagem, e a entender o que anda acontecendo com cada um.

O Bruce Banner de Mark Ruffalo continua excelente, retratado com a introspecção, e as inquietudes e perturbações características do personagem. Dessa vez, ele parece não ter mais dificuldade para se transformar no monstro verde, embora o processo de ‘destransformação’ exija a ajuda da Viúva Negra de Scarlett Johansson. Pela tranquilidade que ela demonstra ao ajudar o Hulk a morfar de volta ao Bruce Banner, imagina-se que ela vem se especializando nisso, se tornando não somente uma espécie de encantadora ou domadora do monstrão verde, mas, pelo visto, também um par romântico em potencial. A relação entre os dois personagens parece inusitada e talvez seja um tanto quanto inesperada por alguns de início, chegando a parecer forçada nos primeiros momentos. No entanto, posteriormente, a partir de um vislumbre que temos a respeito dos medos e dos traumas da assassina, possibilitado pela intervenção mental da Feiticeira Escarlate, interpretada por Elizabeth Olsen, e dos momentos em que a Viúva Negra contracena e dialoga com Banner, entendemos que ambos os personagens têm motivações e medos pessoais semelhantes, e a relação entre eles se fortalece ao longo do filme a partir destas características. O conflito interno de Banner e sua incapacidade de lidar com o assustador poder destrutivo de sua fera interior, a despeito do maior controle que aparenta agora ter sobre o Hulk, acaba fadando o personagem a optar pelo exílio ao fim do filme, depois de mais um episódio de destruição em massa facilitado também pela Feiticeira, e posteriormente contido numa luta explosiva contra a armadura Hulk Buster do Homem de Ferro.

O Thor de Chris Hemsworth agora reside na Terra e dedica seu tempo às missões dos Vingadores, já que em Asgard tudo aparenta estar sob controle – com a ressalva de relembrar que ele (ou nenhum outro Asgardiano, na época) sabe que seu irmão Loki secretamente tomou o lugar de Odin no governo do reino. Após uma busca pessoal por respostas mais tarde, depois de um rápido vislumbre durante a interferência da Feiticeira Escarlate em sua mente, em que visualiza algumas Jóias do Infinito alinhadas, é que as motivações reais de Thor se revelam: ele demonstra se preocupar com ameaças num nível cósmico ao entender que algumas peças de um quebra-cabeça maior vêm sendo movidas universo afora, e esse intento dele em correr atrás desse prejuízo acaba tendo um papel fundamental numa das sequências mais impactantes do filme: o nascimento do Visão.

O Tony Stark / Iron Man de Robert Downey Jr. e o Steve Rogers / Capitão América de Chris Evans são personagens que chegam em Vingadores 2 sem maiores mudanças depois de seus respectivos desenvolvimentos em seus filmes solo. Stark demonstra em alguns momentos que continua pensando em alternativas a ter que seguir vestindo a armadura do Homem de Ferro – o que resulta na própria criação do seu “filho” Ultron, como sabemos, e também na tomada de controle do projeto do Visão (seu “neto”?). A tenacidade do seu intento demonstra uma nuance de sua personalidade que dá ao personagem um lado sombrio: mesmo após se visualizar como o motivo da destruição da humanidade e dos seus companheiros Vingadores, Tony segue com os planos que acredita serem capazes de resolver o problema do seu próprio jeito, mesmo quando isso significa ter que combater os membros de sua equipe. Esse conflito entre a própria ideia dele de uma boa intenção e o que na realidade são atitudes potencialmente destrutivas está na base do que torna sua criação, Ultron, tão interessante enquanto opositor; os dois personagens têm a mesma teimosia e a mesma tensão pessoal, só que cada um pende para um lado (e isso também gera momentos hilários em que a forma de pensar de um se revela tão parecida com a do outro).

Os gêmeos Maximoff, resumidos por Maria Hill como “He’s fast, she’s weird.” (Ele é rápido, ela é estranha), em termos de explicações, ficam mais ou menos por aí mesmo. Sabemos somente – como, aliás, já sabíamos desde os pós-créditos de Capitão América 2 – que eles são “aprimorados”, sem maiores explicações, e que o Barão Von Strucker andava experimentando neles com a ajuda do cetro de Loki, presumidamente amplificando seus poderes. A prometida age of miracles não chega nem a ser mencionada. No entanto, com o alastramento transmídia da Marvel, para quem acompanha todas as frentes de desenvolvimento do MCU, sabemos que essa escassez de informações sobre a origem dos poderes dos gêmeos não interfere na capacidade de aproveitar o filme. Não é mais um problema que o filme não faça questão de esclarecer absolutamente tudo sobre esse novos humanos “aprimorados”, uma vez que temos Agents of S.H.I.E.L.D. para potencialmente cobrir essas questões, já que no momento atual a série passa por uma trama que explica com mais minúcias o que está por trás desses indivíduos com poderes, e como a S.H.I.E.L.D. (ou o que restou dela) vem se encarregando de recrutar ou rastrear tais indivíduos, no que poderíamos interpretar como um estabelecimento de contexto para a Guerra Civil. Pietro e Wanda Maximoff se desenvolvem mais nas cenas finais do filme, com cada um dos personagens atingindo seu próprio ápice na trama de formas bem distintas – o que é uma decisão corajosa de roteiro por romper um pouco com a lógica de os gêmeos estarem sempre juntos, e quase trabalhando à parte, como frequentemente acontece nos quadrinhos.

Não é exatamente uma surpresa, mas ainda assim acho notável que o Gavião Arqueiro seja o personagem que tenha tido o maior espaço para desenvolvimento num filme que introduz quatro novos personagens à lista já grande de protagonistas da franquia. A escolha por desenvolver mais os personagens que não têm muito tempo de exposição fora dos filmes em que os Vingadores se encontram é compreensível, e não dói nem um pouco que o agente Barton tenha seu merecido momento; uma vez a par do contexto pessoal do personagem, é inevitável que se crie uma certa empatia por ele. No próprio filme, em diversos momentos, o humor sagaz da narrativa chega a tirar sarro do fato de ele ser um arqueiro em meio a um exército de robôs, lutando ao lado de monstros e deuses. O contexto e as questões pessoais dos personagens avançam na história no sentido de ajudar a compreender as motivações dele para seguir seu rumo, saindo da equipe ao fim do conflito.

No fim das contas, Vingadores 2 dá conta de apresentar 4 novos personagens interessantes, desenvolver e dar encaminhamentos intrigantes a personagens velhos  conhecidos nossos, convencer de que o conflito da história do próprio filme tem seu impacto, e ao mesmo tempo avançar das melhores formas possíveis com o plano maior do MCU. Tudo isso com um ritmo que vai fazer os leitores de quadrinhos sentirem que estão… lendo quadrinhos! Cenas de combate alternadas com interlúdios no estilo fallback and regroup são tão Marvel Comics, que nesses termos será difícil desagradar aos chegados nos gibis.

A velha situação daquele grande-combate-final-contra-um-exército-de-inimigos-destruindo-uma-cidade está começando a ficar cansativa, mas como sabemos que a próxima fase dos Vingadores terá uma escala CÓSMICA, acho que essa pode ter sido a última vez que vimos esse modelo de duelo final – e convenhamos: nesse filme ele ainda consegue trazer suas próprias inovações. O filme ainda: estabelece novos heróis que demonstram sua importância, e mesmo com tantos personagens diferentes num filme só, cada um tem seu devido tempo em cena; recapitula rapidamente os eventos que vêm trazendo à tona algumas das Jóias do Infinito, e faz toda a questão de pré-apresentar o escopo do conflito que nos aguarda na fase 3; consegue redefinir o caráter da equipe dos Vingadores, agora compreendido como um grupo de heróis que trabalham sempre juntos, e caracterizado mais por seu intento e sua coordenação do que pelos membros que fazem parte do time – a apresentação de uma nova equipe ao final, provocando a referencia a New Avengers, é prova de que a Marvel Studios está pronta para ir abrindo mão dos seus porta-bandeiras das fases 1 e 2 do MCU e abraçar as novas caras que estão por vir.

Parabéns e obrigado a Joss Whedon, que conduz tanta coisa com a sagacidade do humor constante que nos faz sentir que se trata da Marvel, e com a competência e a coragem que no mínimo tiram o fôlego e fazem a história toda ter o impacto de uma empolgante jornada, do início ao fim. Whedon se despede do MCU tendo dado uma contribuição incrível, e é um alívio saber que ele continuará como consultor para os projetos da Marvel Studios em que não estará diretamente envolvido como diretor ou roteirista.

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Ah! E falando em “por vir”, é meio surreal que estaremos revendo muitas dessas caras que vimos agora já no ano que vem! Capitão América 3: Guerra Civil está previsto para estrear daqui a quase exatamente um ano, em maio de 2016, e certamente apresentará muitas caras novas e garantirá um conflito cuja natureza é inédita no MCU: pra que lado será que vamos acabar torcendo?

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