Seja Nerd: O Kickstarter e a resistência criativa no mercado de videogames

Na coluna da semana, Juca Oliveira discute a importância da onda recente de sucessos de crowdfunding na reconfiguração da indústria contemporânea de videogames

Por Juca Oliveira*

Depois de ter zerado Donkey Kong Country: Tropical Freeze há mais de um mês, fiquei tão na dúvida sobre o que jogar em seguida que acabei não jogando nada por semanas. Até que, finalmente, na semana passada, desisti de todos os jogos mais recentes que eu tinha na minha fila e resolvi jogar um de quase 20 anos atrás: comprei Super Mario 64, do Nintendo 64, no Virtual Console do Wii U. Embora eu conheça bem o poder desse clássico de 1996, que é provavelmente o mais importante jogo do gênero plataforma 3D da história dos videogames, tive um pouquinho de medo de que ele tivesse envelhecido mal e que o gameplay me parecesse muito limitado depois de todos esses anos. Mas não! A jogabilidade continua impecável, os controles precisos continuam intactos na sua exatidão, e a diversão de explorar aquelas ilhas voadoras dentro das pinturas do castelo da Princesa Peach é hoje em dia tão intensa quanto foi quando joguei Mario 64 pela primeira vez, na infância.

Minha experiência ao revisitar clássicos da era 64-bits, bem como os 8- e 16-bits, me leva sempre a contemplar a atemporalidade desses jogos, e a me perguntar: por que não tinha nenhum jogo remotamente semelhante a Mario 64 na minha fila de jogos mais recentes? Às vezes me parece que a indústria de videogames escolhe ignorar alguns gêneros que ainda são super pertinentes e pelos quais muita gente ainda se interessa hoje em dia, em troca de tendências que muitas vezes me parecem fabricadas e empurradas para o público. Mas, felizmente, acho que andam surgindo por aí soluções para resistir a esses vícios da indústria.

Vocês já ouviram falar no Kickstarter, né? Pra quem não conhece: o Kickstarter é um serviço de crowdfunding no qual o artista/equipe de artistas interessada em financiar um projeto apresenta um vídeo e um dossiê da sua ideia, estabelecendo um orçamento específico pretendido para desenvolver seu projeto e um prazo limite para receber os investimentos. A partir do pitch do artista, dentro do prazo para arrecadação de fundos, qualquer pessoa interessada em ver o projeto realizado pode contribuir com qualquer valor para ajudar no financiamento. Geralmente quem investe acima de um valor X recebe vantagens em troca, num sistema que cria “recompensas” para os apoiadores mais substanciais do projeto (como receber uma cópia do jogo/filme/livro assim que ele for produzido, etc.). Atingido o prazo, se o orçamento pretendido tiver sido alcançado, a equipe desenvolve seu projeto. Resumindo um bocado, é mais ou menos assim que funciona.

Apesar de ela ter originalmente se apresentado como uma solução mais viável para desenvolvedores independentes de videogames, ao longo dos anos ela vem se revelando como uma alternativa considerável também para produtores de filmes, livros, action figures e outros muitos tipos de projeto que se comunicam com uma base de fãs que em muitos casos coincide de ser formada em grande parte por nerds.

Apresento a vocês, então, três projetos que acho dignos de atenção por ajudarem a ilustrar o que eu considero ser um sintoma do estado viciado da indústria contemporânea de videogames, que anda abandonando vertentes, gêneros e estilos consagrados e priorizando franquias com lançamentos anuais, comercialmente rentáveis, mas exauridas do ponto de vista da inventividade na variadade de gameplay.

1. Mighty No. 9

Lançamento previsto: dezembro 2015

Desenvolvimento: Comcept Inc./Inti Creates

Direção: Keiji Inafune

https://www.kickstarter.com/projects/mightyno9/mighty-no-9

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Mighty No. 9 é um jogo de ação side-scrolling criado por Keiji Inafune, o pai de Megaman. Segundo Inafune, o jogo mistura os melhores aspectos dos clássicos protagonizados pelo androide azulzinho das eras 8- e 16-bits que tanto conhecemos e amamos, dando um toque contemporâneo com efeitos gráficos e framerate mais modernos, novas mecânicas de jogabilidade, e incorporando ideias sugeridas pelos fãs, o que torna a experiência tão nostálgica quanto inovadora.

Em Mighty No. 9, você joga como Beck, o nono de uma série de robôs superpoderosos. Ele foi o único que não foi infectado por um vírus de computador que levou as outras criaturas mecanizadas ao redor do mundo a perderem o controle e ficarem raivosas.

O conceito por trás do argumento do jogo é muito familiar para quem jogou Megaman, lutando contra os Mavericks em sequência, e o próprio Inafune não tem o menor pudor de admitir que o personagem e a ideia do jogo é espiritualmente a mesma de Megaman. A diferença é que a Capcom aparentemente não se interessa em fazer novos projetos na franquia do azulzinho de Inafune há mais de uma década, e o próprio game designer se cansou de esperar que a empresa ouvisse a voz dos fãs que pediam desesperadamente pelo retorno de Megaman, se lançando como desenvolvedor independente com sua empresa Comcept Inc. e contando com um projeto no Kickstarter que bateu muitos recordes. O jogo sairá para todas as plataformas no final desse ano.

2. Yooka-Laylee

Lançamento previsto: outubro 2016

Desenvolvimento: Playtonic Games

https://www.kickstarter.com/projects/playtonic/yooka-laylee-a-3d-platformer-rare-vival

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Yooka-Laylee é um jogo estilo plataforma 3D idealizado pelo talento criativo por trás dos jogos da série Banjo-Kazooie e Donkey Kong Country, desenvolvidos pela Rare. Muitos dos antigos membros dessas equipes se demitiram e fundaram a Playtonic Games, também independente, para trabalharem juntos nos projetos que tanto amavam fazer na década de 90.

Os novos heróis são Yooka (um camaleão verde) e Laylee (uma morceguinha nariguda), criados a partir de conceitos que exploram as possibilidades que os personagens darão ao jogador para a melhor experiência de gameplay possível num jogo plataforma 3D. O criador dos personagens é o mesmo artista por trás da caracterização da família Donkey Kong na série Country e dos clássicos e lendários heróis do N64, Banjo e Kazooie. O gameplay será baseado também na exploração e na possibilidade de coletar diversos itens e objetos espalhados pelos mundos que se expandem à medida que você investe os itens coletados. As mecânicas de jogabilidade se baseiam na parceria entre os personagens, e relembram e expandem as habilidades de Banjo-Kazooie: cair lentamente, voar em ambientes específicos, rolar, etc.

Este projeto foi lançado no Kickstarter já com 3 meses de desenvolvimento, e o vídeo do gameplay provisório revela muito da alma do clássico Banjo-Kazooie, com gráficos contemporâneos e incorporando também novas ideias e mecânicas de jogabilidade. No primeiro fim de semana desde o lançamento da campanha, o projeto bateu recordes no Reino Unido em número de apoiadores e valor arrecadado, e ainda restam 30 dias da campanha pela frente.

3. Bloodstained: Ritual Of The Night

Lançamento previsto para 2017

Desenvolvimento: Inti Creatres

Direção: Koji Igarashi

https://www.kickstarter.com/projects/iga/bloodstained-ritual-of-the-night?ref=nav_search

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Bloodstained é um jogo de plataforma side-scrolling baseado em exploração, trazendo elementos de crafting e de RPG idealizado por Koji Igarashi, diretor assistente do clássico do PS1 Castlevania: Symphony of The Night (tido por muitos como o melhor jogo do Playstation 1). Igarashi dirigiu e/ou produziu, ainda, todos os jogos 2D da série Castlevania nos anos seguintes, incluindo todos os do Game Boy Advance e do Nintendo DS, que estabeleceram um estilo próprio e foram todos grandes sucessos de crítica e venda.

Em Ritual of The Night, você joga como Miriam, uma órfã atingida pela maldição de um alquimista que lentamente cristaliza sua pele. Você tem que lutar através de um castelo repleto de demônios de todo tipo, trazido à realidade pelos poderes de Gebel, um velho amigo de Miriam cujo corpo se tornou mais cristal do que carne.

Ou seja: trata-se de um Castlevania, só que com outro nome, outra apresentação. Igarashi também não reluta em admitir que a intenção do projeto é ser um “sucessor espiritual” do clássico estilo 2D estabelecido pela franquia ao longo de muitos anos, o qual a Konami simplesmente se nega a visitar também há muitos anos. O projeto ainda tem 26 dias de campanha pela frente, mas já arrecadou quase 2,5 milhões de dólares, muito mais do que os 500 mil pretendidos originalmente.

O que os três casos têm em comum é o fato de trazerem à tona esse relato de desenvolvedores cheios de ideias e vontades inventivas para a criação de jogos em franquias, gêneros e estilos clássicos na história dos videogames, mas se frustrando ao dar de cara com a barreira imposta por grandes empresas que detêm os direitos autorais das suas respectivas propriedades intelectuais. Ao se colocarem em contato com a comunidade dos fãs através de redes sociais como Twitter e Facebook, todos eles foram capazes de sondar o nível de interesse das pessoas em investir no retorno a essas franquias abandonadas. O resultado disso é que, nesses três exemplos, os desenvolvedores independentes foram protagonistas de campanhas de sucesso absoluto no Kickstarter, marcando assim essa virada na tendência mercadológica ditada pelas grandes empresas e revelando a quem acompanha a indústria dos videogames que existe ainda lugar para clássicos como Megaman, Banjo-Kazooie e Castlevania.

Outras campanhas de sucesso no Kickstarter, como o clássico instantâneo que foi Shovel Knight, de 2014, já demonstravam que releituras a esses clássicos em gêneros como plataforma, ação side-scrolling e a própria fórmula de exploração Metroidvania tinham todo o lugar no mercado moderno de videogames. É graças a esses desenvolvedores independentes que andam contestando corajosamente a indústria formatada e viciada dos videogames que hoje em dia temos tantas opções de jogos muito criativos e divertidos para download em nossos consoles modernos, fugindo à exaustiva repetição de gênero e jogabilidade geralmente apresentada pelas grandes desenvolvedoras. Agora então, com essas novas campanhas que retomam os clássicos de gêneros que parecem ter desaparecido, em breve a biblioteca de jogos disponíveis para download vai se tornar ainda mais interessante e rica de boas opções. Se a minha empoeirada e letárgica fila de jogos tivesse exemplos como Yooka-Laylee e Mighty No. 9, ela certamente andaria muito mais rapidamente – e eu provavelmente não precisaria incluir nela revisitas a clássicos como Mario 64 por sentir falta de versões mais modernas de bons jogos no gênero.

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