Seja Nerd: Mês do Orgulho LGBT+ e o que isso tem a ver com o Mundo Nerd

Feliz orgulho gay! Feliz mês colorido!

Por Paula Joane

Em Junho comemoramos o mês do Orgulho LGBT, referência à data 28 que marca a revolta da comunidade LGBT dos anos 60 em Nova York, cansada da repressão da polícia. Hoje, com um pouco mais de liberdade do que 50 anos atrás a comunidade tem e deve gritar em cada cantinho e esfera da sociedade sua presença e força!

Inclusive no nosso tão amado mundo nerd! E apesar de ser uma tribo com suas características, o nicho nerd sempre foi conservador, dominado até um tempo atrás pelo gênero masculino. Como encarar então essa questão de identidade de gênero e orientação sexual? Como entender a luta de cada letra da sigla LGBT e dar espaço para todas elas? Chegou o momento de incluir ao invés de segregar. É na ficção que buscamos as histórias que falem por nós! E nosso mundo real é tão diverso que nada mais justo termos pluralidade no entretenimento, mundo esse que investimos tanto, seja tempo, seja o dindin.

Só para começarmos e termos uma ideia, os primeiros LGBTs nos quadrinhos só começam a ser inseridos de forma aberta no século XXI (Obrigada, Matheus Wenna pela ajuda nas pesquisas <3). Antes disso, pouco era a representatividade nas HQs. Essa representação vinha como intertexto, de forma sutil, como foi o caso de Batman e Robin e suas demonstrações, de forma extremamente velada. O verdadeiro boom e inserção desse público é recente e pode ser percebido quando nos rebut a Marvel arrisca um Wolverine ou Lanterna Verde gay. Além da DC já começar a trazer à tona a bissexualidade da Mulher Maravilha e da Arlequina.

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Só que é aí que vem uma questão tão discutida no mundo dos heróis: Qual a forma de trazer essa representatividade? Criar novos personagens ou mexer com os antigos?

Eu, Paula, acho super interessante criar novas representações, com suas características próprias sem precisar mudar sempre um personagem de acordo com a demanda do mercado. Porém, podemos pensar que se colocarmos um personagem clássico que já tenha um público forte, ele tem mais força de alcance e mais possibilidade de investimento do que um que começou do zero. Foi o caso de Porcelana, personagem de gênero fluido, criada por Gail Simone. Porcelana fazia parte do Sexteto Secreto (sob responsabilidade de Simone em 2005), equipe também com outros personagens LGBT… Mas advinhem?  Floopou e foi cancelado.

Nos games, a resistência também não é novidade. Foi só anunciarem que o Kung Jin de Mortal Combat X era gay que choveu comentários maldando os golpes do personagem (não aconselho ler esses comentários, é de tirar o olho da órbita de tanto girar). Situação semelhante, quando anunciaram um personagem LGBT ao League of Legends, aflorando as acusações e preconceito de quem já dizia pejorativamente que o jogo era de “viado.  Como se a classificação “ser de gay” fosse algo ruim…

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Mas vamos abrir ainda mais o leque nerd! Quando expandimos o nicho e entramos na cultura de massa, é menor ainda a representatividade LGBT.  No cinema, por exemplo, Quantos filmes de heróis tem um personagem gay? Ou quantos filmes de ficção científica traz uma figura trans? As últimas inserções que lembro vem com a Ranger Amarela – que é lésbica -, e também a sutil relação de LeFou e Gaston em A Bela e a Fera, que quase caiu no clichê do alívio cômico.

Pois é! Ainda é preciso além de ter personagem que represente essa comunidade, saber também como trata-los. Primeiro não é requisito de um personagem LGBT ser uma figura caricata. Segundo, vamos contar a história de um transexual… Mas colocamos uma pessoa hetero-normativa para interpretá-la? Como alcançar representatividade, se nem nos bastidores ou no mercado de entretenimento, a produção não dá espaço para essas pessoas plurais e reais?

Por isso que é importante termos mais Irmãs Wachowski (Matrix e Sense8) na criação, para dar espaço a quem realmente tem  domínio e vivência para escrever sobre tais realidades.

E a higienização?

Já que estamos falando de Wachowski e Sense8, achei interessante trazer esse termo, uma vez que estamos falando de modos de fazer e retratar. Há algum tempo li nas redes sociais uma crítica sobre como Sense8 era higienizado, ou seja, “lavado” de tudo o que poderia repelir a audiência da grande massa: todos possuem um padrão, esse bem dentro das normas norte-americana e europeia, sem falar da prevalência de personagens magros e socialmente estáveis.  Quando li, pensei: Problematizam até isso? A série já não é uma ousadia para a indústria? De fato, Sense8 foi um passo além, não podemos borrar. Mas não é porque existe uma produção em vigor (não mais agra rs) que não se pode cobrar melhoras e enxergam um outro lado da história, não é mesmo?!

E as drags como ícones pop?

Você já deve ter reparado o quanto de gifs e memes com drags estão circulando nas redes sociais. Provavelmente eles devem vir do reality RuPaul’s Drag Race, programa de TV liderado por RuPaul, uma das grags mais famosas do mundo. Eis aí visibilidade a cultura drag que antes era restrita as noites, porque sim!

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Não tem problema ser pop, se isso significa lançar mais ainda essa comunidade para o mainstream. Se através do estrelado mais e mais pessoas podem conhecer um pouco do mundo de figuras que antes eram condenadas e vistas com outros olhos, até mesmo dentro da própria população LGBT, não existe problema em fazê-las ícones!

Lembrando que ícone é referência, palavra que muito se deseja! (Contando que sejam boas referências).

E os Yaoi/Yuri dos mangás?

Yaoi significa gênero de história com relações homossexuais entre homens, e yuri entre mulheres. Isso é representatividade? Convenhamos, a maior parte do conteúdo criado para essas histórias tem como público alvo principal e objetivo satisfazer fetiches, muitas vezes até de cunho machistas. É muito complicado analisar o mercado e produções japonesas, uma vez que eles estão inseridos em um contexto cultural totalmente diferente do nosso. Mas podemos analisar o público daqui que consome esse tipo de conteúdo e quem sabe desafiá-lo a encara outras formas de representação diferente dos estereótipos vendidos nessas produções. Fiquem ligados!

E as produções brasileiras?

Sei bem que você pensou logo no beijo gay entre Félix e Nico em Amor À Vida (meu shipp, ninguém sai). Ou logo pensou no caso da personagem trans Ivana que está sendo abordada na atual novela das 21h. Muita gente critica a alegria de ver esses temas de forma tão tímida ainda na TV aberta brasileira. Só que eu comemoro até certo ponto sim, porque – mesmo que seja para entrar na hype – o mainstream brasileiro está entendendo que é preciso sair da caixinha de conforto e trazer temas como esses para as telas. É saber que aquele público da família tradicional brasileira vai ouvir falar dos LGBTs, e mesmo que ainda seja um assunto estranho para um público tão cru, é válido que chegue até ele. Agora é torcer e continuar forçando para que essa mudança de cenário não seja coisa de “momento”, mas que de passinho em passinho chegue mais longe.

Quanto a tramas mais complexas, nosso audiovisual apresenta várias produções mais humanas. Série e filmes independentes estão aí para ser uma voz mais forte e bonita desse público. Me falaram que as Websérie Retratos e Copan são uma boa pedida! Vale prestigiar.

Por fim: E a representatividade LGBT+ nesse texto? Como falar desse assunto sem dar espaço a quem realmente pode falar com propriedade? Então, nerds lébicas, gays, bi, trans e orgulhosos… A palavra é de vocês! Fiz meu apanhado, mas é vocês que dão a voz. E não só aqui, mas nas produções, seja a arte qual for. Afinal, arte mesmo é mostrar o que se é sempre!

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