Seja Nerd! Mas… como?

A coluna Seja Nerd está de volta e com ela o sempre pertinente questionamento de quem merece o carimbo nerd

Por Paula Joane

Olá, padawans! Sou Paula Joane, sou nerd e agora estou assumindo esse novo cantinho. Quando os “Gambiarrianos” me fizeram essa proposta, eu fiquei baita feliz, claro. Mas, alguma coisa lá no subconsciente ficou meio insegura. Primeiro, substituir os artigos de Juca é muita responsabilidade. Depois, pensei em ficção científica, HQs, literatura, mangá, animês, games, cosplay, super-heróis, Marvel-DC. Tudo isso faz parte do meu mundo. Alguns em maior escala que outros, que só aprecio de longe. Mas aí surgiu uma reflexão existencial: seria eu nerd o suficiente para falar de nerds? Afinal, nerd não é ser tão bom nesse universo que por isso se ganha tal título?

Nos últimos anos filmes de heróis enchem as salas de cinemas, símbolos de HQ estampam camisas.  Identificar um nerd se tornou tão comum quando desafiador.  O número de apreciadores de conteúdo de ficção certamente cresceu e isso é nítido nas ruas, nos debates de redes sociais, nas vendas de produtos para o nicho. De outro lado existem também expectadores, não tão engajados e só de momento que tiram os nerds-raízes do sério.

Então, nessa dualidade de paixão e poser, como ser nerd? Qual nerd precisamos ser para valer o título?

Numa pesquisa de opinião rápida e despretensiosa me falaram que nerd era “ser feliz e encontrar nos livros e games um lugar pra chamar de seu” (@pamstradolini), seguindo a mesma linha mencionaram também que era “viver um universo só de coisas boas” (@wzs.20). Decidi, então, completar essa coleta de opinião com o maior nerd que eu respeito e que me influenciou desde criança a entrar nesse mundo: meu pai. Zema –como é chamado – me falou que ser nerd é um conceito social, uma tribo urbana, que relaciona pessoas que desenvolvem apego a uma cultura e modo de vida intelectual.

Há alguns anos, nerd era pejorativo, uma gíria para representar estudantes dedicados ou até quem tinha dificuldade em socializar. Com raízes na denominação da Nortel Networks, antiga Northern Electric Research and Development, a palavra é usada desde 1950, nos corredores do Massachusetts Institute of Technology (MIT). De lá pra cá o termo mudou, abarcando um universo bem maior que o original. Hoje ser nerd é conceitual, é divertido, é motivo de orgulho.

Orgulho que a cada dia 25 de Maio (e outros dias também, porque não?) comemora o lançamento de Star Wars – A New Hope. E para deixar ainda mais referencial a data, é dia de lembrar das toalhas. Esse item super prático, indicado pelo autor Douglas Adams, para quem é um mochileiros das galáxias.

Entretanto, em tempos de cobranças, até os nerds que eram reprimidos, parecem exigir certos atributos para entrar na turma.

Cada fã exige inconscientemente um perfil nerd de seu outro parceiro nerd. Eu já fiz isso, já julguei pessoas “normais” e populares por se intitularem sem ao menos terem incorporado o estilo “estranho-diferenciado” de ser.  Se você não entende de game, ou não sabe todos os universos e reboot da DC, se não teve paciência para Senhor do Anéis ou não é do curso de exatas, você… não é nerd.

Agora vejamos, como meu pai disse, nossa “tribo” tem essa relação com conteúdos intelectuais. Mas não necessariamente precisa-se ser o gênio dos computadores, para admirarmos algo, buscar entendê-lo ou se aprofundar no assunto.

Acho que ser nerd vai além de estereótipos. Nerd é interesse. É conteúdo.

Ser nerd é referências. E brincar com elas, muitas vezes de forma crítica.

É ir numa livraria e ficar horas desbravando aqueles livros. Imaginando-os numa estante na sua casa.

É vestir a camisa de uma história. Literalmente. É olhar para o guarda-roupa e se perguntar como você conseguiu ter mais peça daquela saga do que roupas normais.

É ter o prazer de seguir um ritual: sentar na poltrona do cinema, apreciar o apagar das luzes e efeitos sonoros invadindo o espaço.

É ser seu próprio personagem. Vestir-se dele, fisicamente, ou mentalmente, enquanto passa seus olhos por narrativas.

Ser nerd é ser tão atarefados e fazer mil coisas ao mesmo tempo.

É não entender nada da premissa de uma série, mas se encantar pela forma que o roteirista ainda consegue te prender nela.

Vou arriscar e dizer ainda que ser nerd é representatividade. Ah, essa palavra que eu tanto adoro.  É saber que existe um mundo fantástico, de possibilidades, de criatividade e identificação. São narrativas que você gostaria de viver, e vive, mesmo que em outros planos e realidades paralelas.

É criar histórias. Sua história, seu jeito, seu mundo de representação.

Ser nerd é poder dizer “o que é ser nerd, para você”. Mesmo que não seja exatamente do mesmo jeito para outro.

Gostaria de terminar essa reflexão com uma das frases que mais gosto e que está tão ligada ao ser nerd, tão quanto Douglas Adams poderia estar (ela foi tirada diretamente do Restaurante no Fim do Universo, volume 2, do Guia dos Mochileiros da Galáxia):

“Existe uma teoria que diz que, se um dia alguém descobrir exatamente para que serve o Universo e porque ele está aqui, ele desaparece instantaneamente e será substituído por algo ainda mais estranho e inexplicável.

Existe uma segunda teoria que diz que isso já aconteceu.”

Então, para quê rotular uma só forma? Seja o nerd que você queira ser. Seja o nerd que procura por respostas. Descubra os porquês do nosso universo. E reset o game do nosso clã, quantas vezes precisar.  Seja Nerd, seja a busca por universos.