Seja Nerd: Ler, jogar, assistir… ou desistir?

Juca Oliveira fala sobre a sobrecarga de opções de entretenimento típica da forma como temos acesso às diversas mídias que trazem os conteúdos que consumimos, algo bastante presente no universo nerd

Por Juca Oliveira

Já deve ter acontecido com a maioria de nós, em algum momento, a seguinte situação: chegar em casa exausto, precisando relaxar, doido para vagar com a mente para algum lugar distante da sua própria rotina, do seu próprio mundo real. Você se alimenta, toma seu banho, se aconchega no cantinho do sofá e olha pra sua mesa de centro: lá está o livro que você começou a ler semana passada e depois não teve mais tempo de continuar. Ao lado dele, 2 gibis emprestados que você precisa dar conta de ler logo pra devolver. Na dúvida sobre as opções, você desiste de ler e liga a TV. Ao flertar com a ideia de ligar seu videogame, lembra-se que parou o jogo que está jogando num ponto difícil, que exige um grau de concentração mais alto pra conseguir passar. Desiste disso também e acessa então o Netflix. Salvos na sua lista, encontram-se vários filmes e várias séries legais que te recomendaram, todos aguardando “o momento certo” para serem assistidos. Você passa tanto tempo avaliando suas opções que acaba pegando no sono enquanto reassiste, pela sétima vez, aquele episódio “fubento” da sexta temporada de Friends.

Esta sobrecarga de opções de entretenimento é típica da forma como temos acesso às diversas mídias que trazem as coisas que curtimos hoje em dia, os ditos ~conteúdos que consumimos~. Não é uma questão nerd especificamente, eu sei, mas certamente é uma questão muito presente no universo nerd, pelo fato de as coisas que nos interessam estarem espalhadas em tantos meios diferentes de entretenimento, e de esses meios hoje em dia apresentarem tantas opções. Uma das justificativas que enumerei na semana passada como fator que ajudou a visibilidade da cultura nerd a alcançar públicos maiores foi a popularização das plataformas de suporte às linguagens que continham os universos ficcionais para onde gostávamos de fugir, como os videogames, os quadrinhos, e os desenhos animados. Hoje em dia, temos novidades dignas de atenção em todas essas frentes praticamente toda semana! Fora, claro, as séries de TV: estas, sem dúvida, trazem coisa nova pra acompanhar numa velocidade alucinante – talvez até várias vezes por semana, dependendo de quantas você acompanhe.

Na última sexta-feira à noite, enquanto eu tentava dar conta de finalmente zerar Donkey Kong Country: Tropical Freeze no Wii U (jogo no qual avanço arrastadamente há vergonhosos SEIS MESES, devido também a esse problema de escolher o que fazer com meu tempo livre), meu roommate se acomodava no sofá com um livro gigantesco que havia comprado naquela semana. Como eu estava com esta pauta para a coluna cozinhando na cabeça e no bloco de notas, despertou minha curiosidade observar seu criterioso preparo da ambientação para favorecer a leitura daquela maçante obra de mais de 1000 páginas de David Foster Wallace. Depois de declarar que ia precisar de toda uma dedicação pra dar conta de não se distrair e efetivamente ler aquele “tijoloso” exemplar de literatura, a primeira coisa que ele fez foi se isolar do celular e do computador, ou seja: contornar a intrínseca distração que a internet traz. Para mim, a relação que mantenho entre qualquer intenção de produtividade ou concentração e a internet tem algo de muito parecido com isso, e eu até já desabafei sobre o assunto neste artigo que publiquei no Medium no ano passado. Enquanto meu roommate, como o total nerd que é em tudo que gosta de fazer, observava o tempo médio que ele levava para ler uma página e assim planejar as horas que seriam necessárias até concluir a leitura, para então poder distribuir nas suas horas vagas os momentos em que sentaria pra ler o livro, eu pensava comigo mesmo que um dos motivos para estar jogando o mesmo jogo havia seis meses tinha a ver com esse tipo de planejamento e comprometimento. Ou com a não-existência deles.

Nestes meses desde que eu comecei a jogar Donkey Kong, eu li livros (alguns eu não terminei), assisti a vários filmes (alguns mais de uma vez), acompanhei umas poucas séries de TV (algumas das quais eu abandonei), li HQs emprestadas de amigos (algumas das quais eu devolvi sem ter conseguido ler), e até joguei outros jogos de videogame, como Smash Bros. e Mario Kart – mas esses quase “não contam”, pois têm um caráter sociável, de jogar com muitos amigos, e pra isso sempre encontramos tempo. O  que quero dizer com isso tudo é que hoje em dia, principalmente com a difusão da internet, são tantas as coisas bacanas às quais temos acesso e que queremos ver e acompanhar, que é fácil se sentir sobrecarregado em meio a tantas opções.

Nos anos 90, quando eu era criança, o mais comum era que em casa as pessoas só tivessem acesso aos canais abertos de televisão: Globo, SBT, Manchete, Band. Em cada canal, tinha uma seleção de desenhos e séries que gostavam de acompanhar: Cavaleiros do Zodíaco, Dragon Ball, Caverna do Dragão, Arquivo X, Chaves etc. Era fácil estar em dia com tudo que nos interessava, pois podíamos nos programar para estarmos disponíveis nos horários ou dias da semana em que os programas iam ao ar – e ai de quem subestimasse a agenda mental interna na cabeça de uma criança! Sabíamos exatamente a hora de cada coisa que queríamos assistir, e estávamos lá sempre vidrados naqueles momentos. Quando terminava de passar, íamos cuidar de outras coisas. Ganhar um CD de presente significava botar o disco pra tocar, deitar no sofá, e folhear o encarte enquanto escutava com atenção a cada faixa do álbum, acompanhando a canção lendo a letra da música, quando tinha (e tinha quase sempre). Quando íamos nas casas de amigos e amigas e jogávamos videogame, era muito comum que fulano ou fulana tivessem tal jogo, que só aquela pessoa tinha, e que a gente só jogava na casa dela; a disponibilidade de jogos específicos para compra ou aluguel às vezes era limitada, e a gente acabava jogando o que tinha ao nosso alcance, e dentro desse universo conseguíamos encontrar nossas próprias referências e descobrir clássicos inesperados – alguns dos clássicos mais hegemônicos do Super Nintendo eu só fui jogar mais de uma década depois, graças à internet e à pirataria.

E foi bem ela, a internet, que nos trouxe uma alucinante velocidade de acesso a todas essas coisas: música, filmes, seriados, jogos, e até quadrinhos. Por volta dos anos 2000, o surgimento do software de download/upload de arquivos chamado Napster, introduzindo o sistema de compartilhamento P2P (peer-to-peer, em que você baixa os arquivos de outros usuários, em vez de um servidor único) abriu portas para uma era de pirataria em que as músicas em formato MP3 circulariam tanto pela rede mundial de computadores que a ameaça de que todas as gravadoras eventualmente quebrassem parecia real. Pouco mais de um ano depois, apresentando ao mundo o iPod e o sistema de compra de faixas individuais de música pela iTunes Store, a Apple de Steve Jobs se reerguia e reforçava o estabelecimento de uma nova lógica para a forma como teríamos acesso à música: o futuro do álbum musical era incerto a partir dali. Hoje em dia, com serviços como Spotify e GrooveShark, temos acesso a um acervo gigantesco de discos nacionais e internacionais. É tanta coisa pra ouvir, que não acredito que sobrem muitos que pratiquem um ritual nem remotamente semelhante àquele da época em que chegávamos em casa com um CD novo pra ouvir.

E parece que as velocidades “internéticas” vêm impondo a muitas outras grandes formas de mídia esse mesmo processo de aceleração: o YouTube surgiu em 2005, e desde então nossa capacidade de atenção parece vir diminuindo para intervalos de uns 15 minutos de video de cada vez; o Netflix começou a se difundir em 2010 como serviço de streaming de filmes e séries, e se os downloads via BitTorrent, popularizados ao longo dos anos 2000, não já tivessem dificultado a sobrevivência das locadoras de bairro, o serviço da marca vermelhinha certamente foi o responsável pelo fechamento de muitas delas. Conheço muita gente que diz que o Netflix hoje cumpre exatamente o papel que a tradicional locadora de bairro cumpria nos anos 90… Mas a diferença crucial é que na época da locadora, a gente já chegava em casa com os filmes escolhidos na mão, bastava se aprontar, relaxar, e assistir. Hoje, a gente senta no sofá e vê toda a locadora à nossa frente. Agora que estamos nos acostumando cada vez mais aos curtos intervalos de video que vemos no YouTube, e que não precisamos ir até a locadora pra trocar um filme que achamos chato, é muito comum assistir aos primeiros minutos de qualquer coisa, trocar para a próxima série, e acabar não dando a chance de algo se provar interessante, a não ser que já comece com cenas super intrigantes (o piloto de Breaking Bad manda lembranças). Até no mundo dos videogames a internet virou uma aliada anti-pirataria, e essa lógica do acesso a um enorme acervo de uma vez por custos mensais justificáveis já é onipresente na geração atual de consoles. Assim que você se entediar com uma fase de um jogo que baixou, pode deletá-lo da memória e baixar um dos outros jogos de graça do mês. As promoções da Steam, por exemplo, já são infames na rotina de quem joga videogames no computador: compramos MUITOS mais jogos do que jamais seremos capazes de sequer abrir pra ver se nos interessam.

Nesse mundo de hoje, em que você precisa evitar as redes sociais na segunda-feira se não quiser ter spoilers do episódio de The Walking Dead que acabou de sair no domingo, estar conectado é ser pressionado a estar em dia com tanta coisa que se renova numa frequência enlouquecedora. Nossos backlogs (ou back catalogs, as velhas conhecidas “filas de coisas pra ler/assistir/jogar”) parecem começar a crescer a partir do momento em que decidimos acompanhar uma série de TV, de livros, ou de quadrinhos. É por isso que me intrigam tanto as táticas boladas por pessoas como meu roommate, ou a serenidade de quem adquire um console da geração passada somente quando é lançado o da geração atual: são formas de driblar essa aparente necessidade por velocidade, e de mostrar que tudo aquilo que é realmente bom vai continuar sendo bom, mesmo depois que a afobação da novidade passar.

Agora peço licença, pois preciso ver se consigo zerar o Tropical Freeze antes que o domingo acabe. Seis meses é tempo demais com jogo só! (E eu tenho um filme pra assistir ainda essa noite, antes de terminar mais uma história em quadrinhos que preciso devolver).

P.S.: A resposta de vocês à coluna da semana passada foi maravilhosa! Muitos compartilhamentos, muita gente vindo pessoalmente comentar, e muitas pequenas discussões que se levantaram sobre várias nuances da pauta que abordamos – aquela tal paixão característica do nerd que eu tanto falei também se revela muito intensa na hora de argumentar sobre especificidades e exigir respostas. Eu sei que ser nerd é ser exigente e atento, e as críticas e repercussões do que dizemos aqui são super bem-vindas. Portanto, a partir dessa edição, convido a todos que tiverem comentários, sugestões de pautas futuras, perguntas, ou esclarecimentos, que entrem em contato via e-mail: jucafsoliveira@gmail.com. É imprescindível ouvi-los e ir construindo uma relação que se aproxime mais do diálogo, quebrando a noção de que isso aqui é somente um discurso. Espero ler feedbacks em breve. Até a próxima!

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