Seja Nerd: Have you felt it?

Na coluna Seja Nerd da semana Juca Oliveira explica porque está sentindo, sim, “a Força” despertar ao seu redor depois do último trailer do primeiro filme da nova trilogia de Star Wars

Por Juca Oliveira

Ontem, andando na rua a caminho de casa, passei por duas pessoas com camisetas de Star Wars em lugares e situações diferentes. Uma delas, na saída do metrô, era uma garota adolescente andando apressada ouvindo música com seus headphones grandes e pretos (que, pelo fato de eu estar particularmente atento a esse tema, e por mais que pareça ridículo, me remeteram ao penteado da princesa Leia). A outra era um cara com seus 30 e tantos anos de idade – talvez 40, não sei – caminhando com sua esposa e seu filhinho pequeno. O pai explicava ao filho que não, o sabre de luz não atira lasers de volta nos inimigos; ele só rebate os tiros das pistolas dos droids e stormtroopers, e quem faz isso não é a espada, e sim o Jedi que estiver usando a arma, e só se ele for habilidoso e ágil o suficiente.

Hoje, enquanto eu estava sentado num café escrevendo a coluna, escutei na mesa ao lado um grupo de amigos conversando sobre a origem do embate entre os Jedi e os Sith, criticando a trilogia dos anos 2000 (Episódios I, II e III) por, segundo eles, não passar de “uma enrolada história de origem para Anakin Skywalker, e com um desfecho frustrante ainda por cima”. Especularam ainda sobre qual seria a chance de Yoda retornar na trilogia nova e sobre a identidade do Sith que aparece no primeiro teaser segurando o sabre de luz com as lâminas em cruz na empunhadura – será ele o mesmo personagem que aparece mascarado no segundo teaser? Ou veremos mais de um vilão sendo apresentado no primeiro filme da nova trilogia?

Agora há pouco, já em casa, ouço meu roommate conversando pelo Hangouts com um amigão nosso lá de Salvador. O testemunho deles é algo que venho ouvindo e lendo muito pelas redes sociais desde quando saiu o segundo teaser do Episódio VII na quinta-feira: uma aparente comoção com a sensibilidade de J.J. Abrams em compreender a essência do que caracteriza Star Wars. Se entre algumas pessoas ao meu redor não existia ainda a curiosidade e o hype em resposta ao trabalho de Abrams, o que venho observando é que esse segundo teaser vem incitando muito desse interesse. As pessoas parecem estar acreditando.

Lembram da fala que abre o primeiro teaser, que saiu em novembro do ano passado?

“There has been an awakening. Have you felt it?”

É CLARO que nós sentimos.

Desde quando foi ao ar esse primeiro teaser-trailer do Episódio VII de Star Wars (The Force Awakens) ao qual me referi, é bem isso que eu venho sentindo acontecer em grande parte dos corações de quem é apaixonado pela série: é como se, analogamente ao tal despertar da Força, a esperança, ou a empolgação, não sei, tivesse finalmente despertado de verdade em nós também. Aquela velha paixão que andava dormente havia tanto tempo e que foi acordada (embora ainda meio sonâmbula) nos anos 2000, mas que nunca se satisfez de verdade com o resultado do que nos foi apresentado como continuação (na verdade, prequel, cronologicamente falando) daquela trilogia que amávamos tanto, parece agora estar realmente desperta.

E pensar que, de início, tanta gente esteve tão reticente quanto à ideia de que seria produzida mais uma trilogia da série Star Wars pro cinema… O que é perfeitamente normal. Afinal, o que o próprio George Lucas fez com a série na trilogia dos Episódios I, II e III, nos anos 2000, parece ter ajudado a botar a nossa “Força” pra pegar no sono por uns tempos e nos deixou assim de pé atrás e céticos quanto ao futuro da franquia nos cinemas. No entanto, nas mãos da Disney, a nova trilogia foi entregue a J.J. Abrams, que demonstrou uma enorme competência na forma como guiou o revival da série Star Trek recentemente (2009 e 2013) e também em Super 8 (2011), provando que sabe o que faz em termos de ficção científica old school.

O primeiro teaser do Episódio VII, que foi ao ar em novembro de 2014, começa apresentando um cenário familiar (um deserto que nos remete a Tatooine), para logo em seguida inserir ali um personagem novo, e numa situação inédita também: ele é um stormtrooper! Tudo bem que já vimos personagens se disfarçando de stormtroopers antes, mas é nova a subversão de apresentar o que existe dentro de um dos clássicos trajes brancos do exército do império: quais os conflitos e as perspectivas de um jovem que se alista? (Esse interpretado pelo John Boyega parece ser um personagem bem conflituoso, pela sua constante cara de desespero.) Em seguida, acompanhamos o BB-8, o novo droid em formato de bolinha, girando velozmente pelo deserto, aparentemente fugindo ou talvez correndo pra entregar algum recado? Lembremos da primeira função de R2-D2 em A New Hope. O que tem de precioso neste robozinho é algo que o diretor J.J. Abrams fez questão de frisar desde muito cedo na pré-produção do Episódio VII: os efeitos práticos. A retomada do uso de recursos físicos, construídos, palpáveis, como bonecos em escala 1:1, fantoches articulados e droids que são de fato “robozinhos” operados por controle remoto (como é o caso do BB-8) me parece ser uma decisão muito acertada na busca por restabelecer a estética da trilogia original. Muito da “cara” daqueles filmes, assim como a ambiência e o senso de lugar que dão consistência àquele universo, decorria do uso de objetos no set e de efeitos visuais. Esse tipo de solução de efeitos práticos, apesar de ter sido adotada na época por ser a melhor forma de atingir resultados convincentes em termos de efeitos visuais, por conta das limitações tecnológicas, acabou estabelecendo um legado, um senso de realidade. Afinal, assim os atores tinham aqueles objetos todos com os quais contracenar – evitando situações estranhas como a artificialidade do Jar Jar Binks dos Episódios I, II e III, digitalmente inserido nas cenas, sempre parecendo tão fora do lugar ao interagir com os atores em cena. Ver o BB-8 em ação como o novo ‘mascote’ de alívio cômico, em toda a graça de seu efeito visual prático, é reconfortante. O teaser segue a mostrar um esquadrão de X-Wings em ação, sobrevoando um corpo d’água – demonstrando que os efeitos visuais digitais também estão afiados. Logo mais, numa floresta escura e coberta de neve, um novo e misterioso Sith cambaleia, ativando seu intrigante sabre de luz com a cruzinha na empunhadura. Após um instante de silêncio, o teaser fecha com a épica reapresentação de um clássico personagem da trilogia original, introduzido em cena ao som da inesquecível música-tema da série: a Millenium Falcon. Ok, ela é na verdade uma nave espacial – uma das mais icônicas da ficção científica de todos os tempos. Mas a representação e a expressividade que ela tem ao se apresentar em cena têm o peso de um personagem clássico, com todo o carinho que guardamos pela nave heroica e capenga em nossa memória.

Então essa foi a estrutura do primeiro teaser: apresentação de novos personagens e novos conflitos em contextos familiares, culminando na revelação de um personagem velho conhecido e muito querido.

O segundo teaser, por sua vez, começa já com uma música familiar da trilha sonora clássica da trilogia original. As primeiras cenas mostram naves antigas caídas num deserto: uma pequena X-Wing e uma gigantesca Star Destroyer do Império. Ouve-se uma voz, que parece ser a de Luke, falando sobre a Força. Durante sua fala, vemos o crânio derretido de Darth Vader aprisionado a sua máscara parcialmente destruída; em seguida, uma figura encapuzada com uma mão mecânica carinhosamente tocando o nostálgico mascote R2-D2 (será Luke?); e então vemos o que parece ser o antigo sabre de luz de Luke sendo entregue a mãos femininas (será Leia? ou a filha dela, talvez?). Em seguida, uma cena de ação com X-Wings sobrevoando um grande corpo d’água, aparentemente mais uma parte da sequência que vimos brevemente no teaser anterior. Nesses primeiros momentos, esse segundo teaser consegue já nos dizer a que veio: ele traz vários elementos clássicos da trilogia original, situando-os em um novo contexto. Estabelece, assim, um senso de familiaridade que nos faz sentir conectados ao espírito do universo Star Wars. E, apesar de toda a familiaridade, há sempre algum detalhe que denota algo novo: o símbolo do exército dos stormtroopers não parece ser exatamente o mesmo do império; os próprios stormtroopers têm um traje levemente renovado (será que a mira deles vai ser um pouquinho melhor nesse filme?); o Sith mascarado evoca o espírito de Darth Vader, embora seu sabre de luz tenha algo de diferente também; o próprio BB-8 nos faz lembrar imediatamente de R2-D2, ao mesmo tempo em que se diferencia totalmente, pela sua estrutura. E a cena final? Uma verdadeira carta de amor aos fãs da trilogia original: Han Solo e Chewbacca, armados e animados, num background que mostra o interior da Millenium Falcon mais imundo e mal mantido do que nunca, denunciando o estado de abandono da nave, que já era capenga, reforçando aquela carinha de largada que ela tinha na trilogia clássica. Han diz: “Chewie… We’re home!”.

Pra mim, é muito claro que essa declaração se refere a algo muito maior do que o já grandioso retorno de Han Solo e Chewie ao seu verdadeiro lar, que é a Millenium Falcon. Essa declaração é uma corajosa e ousada forma de J.J. Abrams passar o recado de que sabe onde tá pisando e de que conhece muito bem o poder da mitologia da qual está se apropriando pra mostrar que vai fazer isso com propriedade. É uma declaração simbólica, que demonstra que talvez os exageros cometidos pelo próprio George Lucas na trilogia dos anos 2000 tenham tido seu valor, para que fosse possível, em pleno 2015, que alguém entendesse a importância dos efeitos práticos e visualizasse a essência do que faz Star Wars ser o que é no nosso imaginário. É uma declaração que está aí no fim do teaser-trailer para reassegurar várias gerações de fãs de que as coisas ficarão bem, pois estamos voltando àquele universo que conhecemos tão bem e amamos tanto.

We’re home.

P.S.: Críticas, sugestões de pautas, correções, perguntas etc.? Entrem em contato através dos comentários no Facebook ou mandando e-mail para jucafsoliveira@gmail.com!

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