Seja Nerd: Assistir junto – amor ou cilada?

Marcou com o namorado de assistir a estreia de Game Of Thrones e ele te passou a perna e maratonou todos os episódios vazados? Juca Oliveira comenta casos como esse na coluna Seja Nerd da semana.

Por Juca Oliveira

Anteontem, na sexta-feira, dia 10 de abril, estreou no Netflix a nova série da Marvel: Daredevil (eu me recuso a chamá-la pelo seu nome oficial traduzido pro português, já que o personagem não tem NADA A VER com atividades relacionadas à destruição de edificações). Como eu havia discutido na coluna de estreia da Seja Nerd, a Marvel Studios conquistou o meu respeito – e junto com o meu, o de uma legião de fãs novatos e veteranos – pela forma como vem construindo, nos seus filmes e séries de TV, um universo ficcional coeso, de forma semelhante a como a Marvel Comics trabalha nos quadrinhos. A ligação direta do episódio de Agents of S.H.I.E.L.D. que saiu uma semana antes de Capitão América 2 entrar em cartaz com os acontecimentos do filme, bem como todos os desenvolvimentos que atingiram a trama da série depois do desfecho do mesmo, demonstraram que a Marvel Studios seria capaz de fazer com que os fãs mais ávidos buscassem acompanhar com assiduidade e pontualidade tudo que acontece no MCU – Marvel Cinematic Universe –, indo atrás de todos os filmes e de todas as séries.

Isso é assustadoramente semelhante a uma rotina que é uma velha conhecida de quem lê os gibis: aquele hábito de acabar acompanhando as histórias que acontecem nas revistas de outros heróis para se sentir totalmente por dentro de tudo que vem acontecendo na revista do herói que você de fato gosta de acompanhar – já que as tramas se cruzam por tudo se passar num mesmo universo. Com Daredevil, essa história aumenta drasticamente de proporção, pois ela é a primeira de 4 séries de TV produzidas numa parceria da Marvel Studios com a Netflix, que trará também os outros heróis mais “pancada” de Nova Iorque protagonizando suas próprias séries: Luke Cage, Punho de Ferro e Jessica Jones. Todos esses heróis agem numa pegada mais pé-no-chão por serem mais humanos, mais urbanos, e todos atuando no submundo criminoso de uma Nova Iorque que (nessa versão da história) revela suas fragilidades viscerais ao se reconstruir cheia de medos e inseguranças após a devastadora batalha travada contra Loki e um exército de Chitauri em Vingadores (2012) – e essas fragilidades parecem estar sendo exploradas por uma horda de oportunistas e estrategistas do submundo, encabeçados por Wilson Fisk, mais conhecido como The Kingpin / O Rei do Crime (que é o grande vilão pra essa legião de heróis do Hell’s Kitchen).

Tudo isso pra dizer que, com a chegada de Daredevil ao Netflix, todo um novo grau de fanboyismo / fangirlismo se coloca ao alcance de nossos sentidos, uma vez que a série demonstra logo em seus primeiros momentos que está completamente integrada ao MCU e aos seus eventos, e ao mesmo tempo está abrindo o caminho para todo um recorte desse universo, mais urbano e sombrio, povoado por heróis mais pé-no-chão, com um tom sério e uma linguagem ultraviolenta de deixar queixos caídos. Então, naturalmente, era sobre isso que eu estaria falando na coluna dessa semana, certo? ERRADO. Sabem por quê? Porque, muito embora a Netflix tenha feito a generosíssima escolha de disponibilizar todos os episódios da série de uma vez na data da estreia, possibilitando assim que os fãs hardcore (e as pessoas caseiras desesperadas por algo bacana pra assistir) fizessem uma megamaratona nesse fim de semana, assistindo de uma vez aos 13 episódios (de uma hora de duração cada), eu não ia poder fazer isso. Porque eu combinei de assistir a Daredevil com meu roommate. E essa história de “ih, não vou poder, porque essa série eu combinei de assistir com [tal pessoa]” me é muito familiar.

Eu sei o que vocês fizeram No verão passado, depois de ter assistido à primeira temporada de Breaking Bad, eu tomei uma decisão: ia “guardar” o resto da série pra ver com meu pai. Estávamos morando juntos na época, e ele é muito exigente com televisão, então tinha muito tempo que eu esperava a oportunidade de encontrar algo que eu achasse que passaria no controle de qualidade dele pra sugerir que assistíssemos juntos. E deu certinho: ele foi fisgado logo no primeiro episódio. Bom sinal, certo? Bom… Mais ou menos. No verão escaldante de Salvador, deitado com as cortinas fechadas e o ar condicionado ligado, ele me alcançou em dois dias. E a partir daí, era sempre uma negociação desesperada – eu queria parar depois de dois ou três episódios, mas acho que nem preciso explicar muito que a série era tão bem escrita e tão viciante que não precisava de muito esforço pra me convencer a pausar só pra coar um cafezinho e então continuar assistindo com ele. Até o fim do verão, tínhamos terminado as cinco temporadas. Eu admito que na época eu quis atribuir a isso a minha falta de produtividade naquelas férias, mas hoje sei muito bem que a disposição a assistir ao seriado nesse ritmo alucinado demonstrava que tinha uma tendência procrastinante aqui dentro esperando pra ser ativada pelas maratonas Netflíxicas.

Ultimamente eu tenho tido algumas conversas sobre esse hábito nosso de combinar de assistir às coisas com alguém. Lembram do Donkey Kong que eu estava prestes a zerar semana passada? Bom… Eu não cheguei a terminar o jogo no domingo, depois de publicada a coluna. Mas eu terminei na terça! Mas sim, voltando: a ideia original com esse jogo era zerar ele com um amigo. Mas ele mora longe, e quase nunca estamos na mesma cidade e com tempo pra jogar juntos, então dei cabo de terminar sozinho mesmo. Nas últimas férias, zerei New Super Mario Bros. U com um outro amigo, e isso só foi possível porque ele tinha as tardes livres no recesso entre Natal e ano novo, então conseguimos maratonar todas as incontáveis fases daquele gigantesco mundo jogando juntos na mesma tela. O que quero dizer é que jogar junto faz todo o sentido. Eu nem pretendo desenvolver muito esse pensamento aqui, porque acho que o valor de jogar videogame junto, com amigos, no mesmo espaço, tentando atrapalhadamente coordenar as tarefas, gritando de emoção em momentos difíceis e comemorando desesperadamente ao conseguir derrotar um chefão, ou mesmo competindo e rindo com os outros / dos outros, é um tópico à parte que merece ter uma pauta dedicada só a ele um dia. O fato é que jogar junto é agir junto, é colaborar ou competir, ajudar ou atrapalhar, o que seja. Mas é uma forma de interagir. Mas assistir junto não é interativo. Então por que gostamos tanto dessa história de combinar de assistir às coisas socialmente?

Eu costumo explicar o meu não-entendimento a respeito desse hábito comparando um filme a um livro (ou uma série a uma revista, que seja). Tentem imaginar ler coletivamente. Tem gente que faz, eu sei. E com livro é diferente, eu sei: você precisa passar a página, e cada pessoa lê numa velocidade; tem gente que gosta de voltar pra reler a página ou o capítulo; e até alguns que pulam capítulos chatos ou leem fora da ordem. Mas assistir também tem disso: tem gente que entende rápido uma sequência de revelações, tem gente que não (o clássico “ahhhhh, então o tempo todo era ELE o bandido?”); tem quem goste de voltar várias vezes numa cena engraçada pra continuar rindo alto até que ela perca totalmente a graça (eu, por exemplo); e até aqueles que começam a achar chato e querem ver logo o desfecho, assistindo em fast forward (é sério, eu conheço gente assim de verdade). Meu argumento, enfim, é: o tipo de contemplação que você exerce ao assistir ou ler algo pra mim é intrinsecamente solitário. Por isso que eu vivo dividido sobre ir ao cinema, por exemplo: a telona, a escuridão, e o som potente ajudam a construir um senso de imersão, mas o público é imprevisível e facilmente uma conversinha paralela pode quebrar toda a concentração e destruir a experiência. No entanto, contraditoriamente, eu cultivo esse hábito de assistir coisas com pessoas, e quase sempre acho melhor assistir junto.

Talvez o segredo esteja no prazer de encontrar aquela coisinha que caiba melhor de assistir com tal pessoa, por saber que a contemplação estará em sintonia, e na medida certa praquela série ou praquele filme específico. Foi assim quando escolhi a pessoa perfeita pra cochilar junto em todos os episódios de Twin Peaks e a pessoa ideal pra rir junto de todas as loucuras fritas de Adventure Time. Foi assim quando senti a alegria de encontrar uma série que eu avaliei que meu pai ia gostar, ou um filme que eu sabia que minha mãe ia ver e rever mil vezes comigo. Foi assim a decisão quase automática, ao estar morando com meu atual roommate, cujo gosto pra TV também é superdifícil, de que veríamos Daredevil juntos. É massa quando a gente assiste a alguma coisa e pensa em alguém, e sabe que vai dar certinho de ver junto. E como quase tudo que eu relato, a explicação pras coisas acaba afunilando pra memória e pro afeto. Eu não me lembro direito do que acontece em cada temporada específica de Breaking Bad, mas eu nunca vou me esquecer do verão em que eu e meu pai maratonamos a série com nada mais que uns breves comentários empolgados e uma rápida xícara de café entre um episódio e outro.

P.S.: Só relembrando a todos sobre meu convite da semana passada para que enviem críticas, sugestões de pautas, correções, perguntas etc. para jucafsoliveira@gmail.com! E outra: essa semana tem sorteio de coisinhas legais da Loja Seja Nerd de novo, e clicar no botão compartilhar aqui embaixo já é meio caminho andado pra concorrer ao brinde da vez, que será revelado logo mais pela Revista Gambiarra no Facebook. Fiquem de olho na fanpage da Gambiarra ao longo da semana para o resto das instruções pra entrar no sorteio.

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