Sarau Hotel Mambembe, o maior espaço de experimentação em Conquista

Nesta última edição, o destaque fica para a performance do artista visual George Nery e dos músicos Daniel Oliveira e Ronaldo Ros

Sair para ouvir uma música que você nunca ouviu da boca de um artista que você não faz ideia de onde veio. Raramente esse é o objetivo dos rolês, certo? Mas tem uma galera em Conquista que tem procurado isso e lotado o Teatro Carlos Jehovah mensalmente nas edições do Sarau e Palco Aberto Hotel Mambembe.

Desde abril de 2016, o músico Euri Meira e sua trupe tem organizado o evento para agregar diferentes manifestações culturais da cidade. Intérpretes, poetas, compositores e até artistas plásticos locais tem no palco do pequeno teatro a oportunidade de dialogar com o público por alguns minutos.

Esse tempo é preciosamente aproveitado por cada um deles. Mesmo na parca iluminação do querido mini anfiteatro é possível observar as mãos trêmulas e os olhos brilhantes de alguns, que até se engasgam ao recitar uma poesia. Se apresentar neste projeto já é uma coisa grande para estes artistas e isso é muito interessante para a cidade.

O teor democrático do projeto também encanta. Tanto há espaço para a pequena Tainá Gusmão entoar “O Vento” –  música que Vinícius de Moraes fez para o “pum”,  quanto para poesias marginais e experimentações estéticas que mesclam música e audiovisual. Na edição de setembro, esta última possibilidade citada talvez tenha sido o mais revelador da noite.

Revelador por forçar a abertura de alguns poros de nossa interpretação que se fecham pelo costume do consumo. O artista visual George Nery e os músicos Daniel Oliveira e Ronaldo Ros montaram uma performance perturbadora que rompeu a normalidade estabelecida e esperada em um evento do gênero. Os ruídos produzidos pelos músicos não formam as melodias esperadas de uma canção de sarau, nem os vídeos projetados por Nery narram alguma coisa, como normalmente esperamos de um produto audiovisual.

O trio ainda guardou momentos catárticos como a citação da música clássica alemã “Carmina Burana”, entoada com um tempero de “Fora Temer”. Outra citação interessante foi do poeta sergipano Pedro Bomba, participante do Sarau Debaixo, um dos mais importantes sarais do nordeste.

“A princípio falamos dessa possível estranheza do público, mas como artistas era isso que a gente queria e foi bem positiva a experiência. Amei, quero mais e terão mais vezes. Eu particularmente não estou aguentando nem as coisas repetidas que eu mesmo me proponho, imagina?”, conta Daniel.

Considero então, o Sarau Hotel Mambembe a iniciativa mais importante de Vitória da Conquista este ano. Não é qualquer um que consegue incentivar a apresentação de novos artistas com tamanha inventividade e abertura para experiências tão elevadas.

O evento é gratuito e por enquanto não possui nenhum apoio financeiro, portanto a sustentabilidade depende da consciência do próprio público. Assim, é necessário passar o famoso chapéu, que no sarau vem em forma de caixa de sapato. A “caixinha do amor” fica no centro das apresentações esperando livres contribuições para a manutenção do projeto.

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