Root Sensation: BaianaSystem reflete história e cultura em seu novo disco

BaianaSystem completa dez anos mostrando que sabe se reinventar sem perder sua essência de experimentação e miscigenação que assentou terreno para o surgimento e desenvolvimento de tantas outras bandas da nova música brasileira

Por Jade Dias e Rets

“O Futuro não Demora” título do novo álbum da banda Baianasystem, que celebra
uma década de carreira no lançamento do novo disco, coloca seus ouvintes diante de uma transição que engenha um ciclo habilidosamente estruturado.

Após dez anos Baianasystem mostra que a experimentação e a mistura continuam
sendo características fortes no perfil da banda soteropolitana. Contando com a produção
majoritariamente de Daniel Ganjaman, que também assina o Duas Cidades e retorna à
Bahia para fazer parte da imersão criativa realizada pela banda desde o ano passado, o
disco viaja para fora de Salvador e para dentro da antropofagia brasileira, conectando
origens e atualidades da musicalidade baiana, tendo como ponto de observação a ilha de
Itaparica e a baía de Todos os Santos.

É muito natural a forma como a banda aborda vários conceitos ao mesmo tempo. O
movimento do corpo se dá espontaneamente guiado pelo vocal rasgado e rimado de Russo Passapusso, conectado com os graves de Sekobass, os beats e de Mahal Pita e João Meireles, as distorções experimentais da guitarra de Junix, a percussão orgânico-eletrônica de Japa System e a guitarra baiana de Roberto Barreto.

O terceiro disco conta com participações variadíssimas que, por serem tão distintas e ao mesmo tempo tão pertencentes entre si, reforçam o caráter heterogêneo da banda. Curumin, Edgar, BNegão, Vandal, Antonio Carlos & Jocafi, Mestre Jackson, Ícaro Sá, Manu Chao, Lourimbau, Samba de Lata de Tijuaçu e a Orquestra AfroSinfônica unem-se ao grupo para criar uma obra que, dividida em dois lados opostos e complementares, narra uma história de surgimento, percepção de si e análise do ser humano e de sua cultura de um modo geral. Justamente para sustentar o conceito de linearidade do disco, a banda não disponibilizou nenhum single antes do lançamento oficial e fechando o ciclo, a Orquestra Afrosinfônica participa de ambos os lados da transição elemental.

Começando com um ijexá em “Água”, essência da vida (H20 é ouro em Pó),
seguida por “Bola de Cristal”, a primeira parte do disco trata da criação, da compreensão da humanidade sobre si mesma e o (re)conhecimento de suas origens. Exaltando Zulu Nation, Orquestra Rumpillez e Nação Zumbi e Ilê Ayê como influências e verdadeiras inspirações, além de Martin Luther King e Nelson Mandela, ícones da resistência e da luta negra contra toda forma de opressão, celebrados na faixa “Salve”; até a abordagem da noção de território e sua reafirmação em “Sulamericano”, passando pela travessia de Mar Grande até a ilha em “Sonar”, estabelecendo a conexão com o oceano, chegando ao intervalo na representação dos dois elementos entoado como um mantra por mestre Lourimbau em “Melô do Centro da Terra”, canção que marca a divisão das duas partes do disco.

Seguindo para a segunda parte em “Navio”, que busca identificar as origens dos
ritmos percussivos que guiam o álbum, e “Redoma”, uma observação do caos urbano de
Salvador e toda sua efervescência à partir da baía de todos os Santos. “Saci” traz a
descaracterização do personagem folclórico, colocando-o como protagonista da resistência, relacionando-o com o “nego fugido” que apesar de ter a perna cortada como punição pela
fuga continua empenhado em ser livre. A canção é sucedida por “Sambaqui”, ápice da
abordagem antropofágica do disco, tanto pela relação com os próprios Sambaquis,
depósitos construídos por humanos, quanto por sua própria letra. Atingindo a “Arapuca”
observa-se uma quantidade massiva de informação depositada numa canção curta, sem
refrões, que relaciona tudo que tem ocorrido no cenário político-social atual, numa analogia com a quantidade colossal de informações com as quais somos bombardeados diariamente. A canção “Certohpelocertoh” que começa com um áudio enviado pela mãe do rapper Vandal, mostra seu ponto de vista da vida nas ruas de Salvador vivendo “O certo pelo certo”, com o peso de batuques orgânicos e guitarras distorcidas, é uma das músicas mais impactantes do disco. O encerramento do álbum se dá na faixa “Fogo”, transmitindo a mensagem que dá nome ao disco “O futuro não demora” e entoando versos de “Salve”.

O resultado geral é um som com presença forte que, ao contrário de se distanciar
das levadas eletrônicas e de ritmos baianos do álbum anterior, mostra mais uma vez que abanda sabe dialogar com vários cenários musicais. A presença marcante de mais
elementos orgânicos (arranjos de orquestra e violão, percussões gravadas ao vivo e pianos) oferece ao disco uma sonoridade diferente dos anteriores sem se desligar da essência da banda.

BaianaSystem completa dez anos mostrando que sabe se reinventar sem perder sua
essência de experimentação e miscigenação que assentou terreno para o surgimento e
desenvolvimento de tantas outras bandas da nova música brasileira. O Futuro não demora e BaianaSystem está aí para desbravá-lo da forma que mais tem sabido fazer:
compreendendo o passado e imprimindo o presente como momento de ação e
transformação.