Rogério Big Bross: “O mainstream dos anos 80 e 90 não existe mais pro rock”

Big Bross participou do projeto Conversas Infinitas e dividiu com o público algumas histórias curiosas sobre o rock nacional

Por A.J. Oliveira

Foto: Rafael Flores

O soteropolitano Rogério Big Bross é um nome importante nos bastidores do rock nacional. Responsável pelo selo Big Bross Records, o produtor musical e DJ já lançou trabalhos de bandas como Retrofoguetes, Pastel de Miolos e Ronei Jorge e os Ladrões de Bicicleta e circula com sua banquinha de discos pelos festivais do Brasil, levando sons alternativos a novos territórios.

Big Bross esteve no Centro de Cultura Camillo de Jesus Lima na última quinta-feira participando do projeto Conversas Infinitas. Ele dividiu com o pequeno público presente algumas histórias curiosas sobre o rock nacional e depois bateu um papo com a Revista Gambiarra. Confira abaixo:

A.J.: A gente vê que hoje em dia o rock já não consegue alcançar o mainstream, não consegue chegar à grande mídia. Por exemplo, no ano passado saiu o disco das Vespas Mandarinas, que é uma banda que tenta fazer um som mais acessível, é um rock de qualidade e que tem essa preocupação de atingir um público maior. E mesmo assim eles não conseguiram tocar em grandes emissoras de TV nem em muitas rádios que não fossem só de rock. Você acha que o gênero ainda tem chances de voltar ao mainstream?

Rogério Big Bross: Cara, você falou de uma banda que eu acho que tá fazendo isso. As Vespas Mandarinas estão rodando bem. Agora, eu vou lhe dar uns exemplos mais concretos de um caminho encontrado. A Matanza é um exemplo disso: ela não toca em rádio. A Matanza tem público aqui em Conquista, não tem? Em Salvador também, atraiu 1300 pagantes, é um fenômeno. Teatro Mágico não toca na rádio. Então hoje não existe mais a grande gravadora que vai investir nas Vespas Mandarinas, se eles não tiverem um trabalho de produção grande. E aí cada banda encontra o seu caminho para fazer isso. E são essas bandas que vão chegar. É como eu citei, como é que o Teatro Mágico tem público em todo canto? Como é que o Matanza tem público em todo canto?

O próprio Autoramas, o Wander Wildner, são caras que estão há muito tempo na estrada, tudo bem. Mas são caras que não tocam no rádio, não estão na TV, não estão na grande mídia, mas fazem turnê, circulam o ano todo e vivem de música. A banda Eddie, de Recife, é uma banda com 20 anos. Lançou vinil, disponibilizou toda a discografia agora gratuitamente. Aí você se pergunta, “como é que o Eddie sobrevive?”. Com um trabalho de produção grande, uma coisa construída.A banda tem que aprender que na primeira vez que ela for tocar em Salvador ela vai se bancar para ir; na segunda talvez ela já não se banque tanto; na terceira ela já vai poder exigir um cachê, porque ela já vai formar um público. Se o artista não circula ele não forma público, se não tem público o produtor não quer contratar.

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Foto: Rafael Flores

A.J.: Mas você não acha que essas bandas que você citou são meio que um “mainstream dentro do underground”? Porque uma coisa é você ter o seu público, ter vários fãs na internet, e tal… Mas são bandas que se você perguntar quem é pro seu pai ou pra sua mãe eles não vão saber. O que falta para elas conseguirem alcançar isso?

R.B.B.: Talvez eles não queiram isso para eles. Tem bandas que querem ganhar um salário de cem mil por mês, tem outras que dez mil tá bom. Todas essas bandas que eu citei – Autoramas, Wander, Eddie… – são bandas que têm um trabalho de mais de dez anos. O Cachorro Grande é uma banda que é de uma gravadora grande, entre aspas, que é a DeckDisc, mas a gravadora não investe neles, não banca o clipe deles, por exemplo. Banca o disco. Eles estão no sétimo disco e sabem que ao longo de dez anos vão construir uma carreira e essa carreira vai fazer com que eles vivam mais um bom tempo tocando, como é o caso da Cascadura em Salvador. A Cascadura é uma banda de vinte anos, cara. Cascadura é de 92. E tá na atividade por quê? Porque não parou nunca. Porque tem um trabalho de produção foda, são sete discos, um atrás do outro. Então hoje o artista tem que perceber que além de compôr, tocar, a parte artística da parada, se ele não entender da parte empresarial, não estiver associado a amigos, a parceiros…

Um bom exemplo disso é a Vivendo do Ócio, também de Salvador. Os caras se movimentam na internet como nenhuma outra banda do Brasil. Eles estão sempre pedindo para eu gravar um depoimento, ou estão armando alguma história, ou o Dieguito (baterista da Vivendo do Ócio) e outro estão discotecando… Agora estão com o projeto Trummer SSA, que é com o Fabinho do Eddie, Dieguito e (Luca) Bori do Vivendo do Ócio. Então os cara estão sempre se associando a pessoas legais, o que é o caso do Vespas Mandarinas. Vespas Mandarinas já veio do Banzé!… Eles têm uma produtora legal, que é a Fabiana Batistela, e é uma banda que eu acredito que mainstream, de tocar na rádio, de sua mãe seu pai conhecerem, talvez nunca seja, se não for trilha de alguma novela algum dia – o que não impede de ela continuar lá no underground. Mas o mainstream daquela época, anos 80, anos 90, não existe mais.

A.J.: E nem vai existir?

R.B.B.: Aí é o seguinte… Pro rock, não. Daquele jeito, não.

A.J.: Às vezes uma banda nem tem um milhão de fãs, mas tem uns trezentos que são muito fiéis. É uma coisa muito preciosa para uma banda ter essa cumplicidade, essa fidelidade dos fãs. Como é que você acha que se consegue alcançar isso?

R.B.B.: A postura da banda, a relação dela com os fãs é muito importante… Tratar bem os fãs. Banda que trata bem o fã tem fã.

A.J.: Vi você dizendo que já tá até com um certo receio com bandas novas, porque às vezes elas morrem muito rápido… Mas mesmo assim eu gostaria que você destacasse algumas do cenário atual que você acha que podem ter um futuro maior, que vale a pena prestar atenção.

R.B.B.: Muito novas? Eu tô escutando muito uma banda de Salvador chamada Dezo e os Dementes. Odeio o nome mas a banda é muito legal. Uma outra de Salvador chamada Os Johnsons, Rivermann, de Camaçari… Hellbenders, de Goiânia, Black Drawing Chalks… Ó, taí um bom exemplo disso, bandas como Vanguart vão chegar a esse patamar que eu lhe falei, de Autoramas, de Eddie, e daqui a um tempo vão estar realmente só vivendo da banda. São bandas que eu acredito que, pelo trabalho que eu vejo deles como banda, como coletivo, como associados, são bandas que vão mais além.