Raul Santiago, do Coletivo Papo Reto, dá dicas de enfrentamento à violência policial

A Revista Gambiarra conversou com o ativista durante o I Encontro Baiano de Mídia Livre, que aconteceu na última semana em Salvador

Um grupo de whatsapp, composto por moradores do conjunto de favelas do Complexo do Alemão é a grande ponte para a criação do conteúdo da Coletivo Papo Reto. Mototaxistas, comerciantes, estudantes e gente de todo o tipo alimenta o grupo com informações em tempo real sobre o que está acontecendo na região.

A partir disso, o coletivo seleciona e observa as informações para a posterior publicação na fanpage oficial no Facebook. O conteúdo varia de denúncia de casos de violação de direitos humanos à vídeos que exaltam os múltiplos aspectos positivos da favela, ressaltando a cultura local e história de moradores.

Raull Santiago é um dos fundadores do coletivo e esteve na Bahia na última semana para participar do I Encontro Baiano de Mídia Livre, em Salvador. Santiago mediou uma oficina intitulada “Enfrentamento à Violência Policial”, na qual compartilhou sua experiência no Alemão e orientou os presentes com algumas dicas e cuidados a serem levados em consideração em coberturas que envolvem esse tipo de situação.

Após o espaço, a Revista Gambiarra conversou com ele e repassou alguns dos principais passos para garantia de direitos e da segurança ao observar casos de violação de direitos, principalmente partindo da Polícia Militar. Confira:

Revista Gambiarra: Raul, em Vitória da Conquista temos passado por situações delicadas em relação a denúncias de abuso por parte da Polícia Militar. Qual a melhor maneira de denunciar esses casos?

Raull Santiago: É bizarro a forma como os governantes pensam o diálogo com as pessoas, através da militarização dos espaços. Sempre somos pensados a partir da polícia, é um modo operante muito bizarro e que realmente tem que ser denunciado, por que numa lógica de guerra militarizada não é possível encontrar avanços. Na realidade do Complexo do Alemão, que é de confrontos diários e também participando de manifestações, o primeiro conselho é claro: só filme se você se sentir seguro para isso. Então, tem que pensar bem se você quer realmente filmar aquilo e se sim, ter mais alguns cuidados. Se você estiver sozinho e der pra filmar escondido, fique escondido e se for necessário se expor, comece a narrar o ambiente e o que você está filmando: ‘ olha, eu estou filmando essa situação onde tem um policial que está revistando uma casa dentro da favela e eu vou acompanhar essa revista’ – lembrar de não fazer julgamentos ou agressões verbais aos policiais, por que a própria polícia pode usar esse vídeo contra você. Mas tente se expor o mínimo possível, não se identifique. Agora, se nessa situação tiver outras pessoas, o ideal é induzir que todas filmem junto com você.

R.G: E o que dizer se a pessoa for coagida a parar de filmar?

R.S: É bom saber antes de tudo, o básico das leis – como por exemplo, que temos o direito de filmar um policial quando fardado, por que enquanto servidor público ele perde a inviolabilidade da imagem. É seu direito como cidadão filmar e acompanhar o trabalho de um funcionário público, mas também ter a consciência de que você não pode sair postando isso nas redes sociais. A depender da narrativa que você tá usando, você pode gerar provas e guardar pra si e a partir disso contactar outras instituições. Às vezes a gente tá expondo uma situação grave, uma denúncia muito importante e o simples fato de você postar sem construir uma rede com advogados, defensores e outras pessoas que podem te ajudar a avaliar, pode por em risco as próprias pessoas que você tá querendo ajudar e a você mesmo como denunciante. É legal procurar uma página na internet de Direitos Humanos e nunca usar seu perfil pessoal, trabalhar em coletivo. E também a partir do momento que a policia te ver, entender que você pode ser um possível perseguido dessa segurança pública violenta. Então sempre digo, só filma se tiver certeza que dá pra filmar.

R.G: Quando tratamos de mídia e violência, é muito fácil cairmos nas armadilhas do sensacionalismo. Há um cuidado com o tipo de conteúdo que é postado nos canais do coletivo?

R.S: O Coletivo Papo Reto não circula imagens abertas de morte ou violações bizarras, o que acontece muito no Rio de Janeiro e outras páginas fazem muito comumente. Nossa política interna é de quando recebemos uma imagem, fazemos uma curadoria, avaliamos se pode ser postada na íntegra para expor uma situação, ou apenas parte dele. Quando tem uma denúncia muito grave ou quando a pessoa que filmou está expondo muito quem ela é, a gente articula com outras redes para minimamente tentar usar esse vídeo como prova de alguma forma em incidência de violação de direitos humanos. Quando são cenas de morte, a gente embaça, não expõe a pessoa, seja ela quem for, policial, morador ou jovem envolvido na criminalidade. Na maioria das vezes, mostramos só um chinelo, ou uma marca de sangue, algo que já dê pro público entender, sem termos que mostrar tudo. Escolhemos não expor de forma abrupta aquela situação, por que na dinâmica das redes sociais, da rapidez disso tudo, muitas vezes a gente recebe um conteúdo mais rápido do que a família dessa pessoa, então a gente põe uma cena e a família sabe que seu parente morreu por conta de uma rede social, sabe? A gente opina por não expor tanto dessa forma.

R.G: Vocês enxergam que violência presente nas favelas é principalmente fruto da guerra às drogas? Com um possível cenário de legalização, essa violência diminuíria?

R.S: Há uma série de discussões que são necessárias e precisam acontecer em torno disso pra gente poder mudar a realidade, não só no Rio, mas no país como um todo. Quando você fala de drogas, isso circula por vários países e estados até chegar na favela. Então, a gente vive numa sociedade onde o racismo é muito presente, a desigualdade social é muito crescente, é preciso repensar a nossa sociedade a partir da discussão do racismo, resgatar a valorização do que significa os direitos humanos, por que hoje esse termo é muito criminalizado, é como se você fosse defensor de coisas ruins. Então, a gente tem que discutir descriminalização, legalização e a abordagem das drogas a partir da saúde e não da segurança. Também discutir a partir de uma legalização, qual a participação da favela nisso tudo. Por que hoje a gente é criminalizado e morre em nome da guerra às drogas, mas e quando legalizar, o moleque da favela vai poder botar uma banca pra vender ou até isso vai ser excluído da favela? De inicial, acho que essa discussão em torno da guerra às drogas, ela pode reduzir o impacto violento da atuação no nosso cenário, mas ao mesmo tempo se não pautarmos racismo, desigualdade social e a governabilidade do país, vão continuar matando negro, morador de favela, vamos continuar vítimas de preconceito independente de guerra ou não. Isso é só um dos motivos para o extermínio, tirando esse, com certeza aparece outro, por que antes disso o povo negro já era escravizado, então já era um processo histórico de violação, então temos que assumir que o brasil é um país racista e começar uma discussão em torno disso aí.

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