Radioca deixa a música brilhar como protagonista no TCA

O Festival Radioca não poderia ter escolhido local melhor para o início desta edição

Por Ana Paula Marques e Rafael Flores

Considerado um dos mais importantes festivais de música independente do país na atualidade, o Festival Radioca deu início à sua programação na noite desta quarta-feira, 6, em Salvador. Em um formato inédito em suas cinco edições, o primeiro dia de evento aconteceu na Sala Principal do Teatro Castro Alves com shows de Amaro Freitas Trio (PE), Tiganá Santana (BA) e Tim Bernardes (SP). 

A abertura ficou nas mãos do pianista pernambucano Amaro Freitas. Passeando pelo jazz e por elementos musicais da cultura popular brasileira, o músico trouxe, pela primeira vez na capital baiana, canções do seu disco “Rasif” para um público atento. “Estou muito feliz de estar aqui, é a primeira vez que piso nesta terra e a gente já estreia em um festival maravilhoso e, coincidentemente, viemos todos de branco”, disse, se referindo aos seus parceiros de palco Jean Elton (baixo acústico) e Hugo Medeiros (bateria).

Amaro Freitas | Foto: Coletivo ISO 314

Amaro contou ainda que o título do álbum é uma palavra árabe que significa pedras e provavelmente deu origem ao que conhecemos como recife (nome também da sua cidade natal). Ele acrescenta que o nome do estado de Pernambuco significa “mar que arrebenta”. E é como esse mar que arrebenta em pedras, mas às vezes se acalma, que seu espetáculo se guia. 

Amaro Freitas | Foto: Coletivo ISO 314

Os poucos minutos entre o final de uma apresentação e outra criam uma sensação de continuidade, de seguimento de raciocínio. Compositor, instrumentista, produtor musical e pesquisador baiano, Tiganá Santana foi o segundo a ocupar o palco do teatro.  Ao seu lado estiveram Sebastian Notini (percussão), Jeferson Cauê (percussão), Aline Falcão (teclados, acordeom e voz), Ladson Galter (baixo) e Leonardo Mendes (guitarra e violão de aço).

Tiganá Santana | Foto: Coletivo ISO 314

A grandiosidade de Tiganá fica evidente em cada faixa de sua apresentação, que focou no último trabalho “Vida-código” e outros momentos de sua carreira. O artista trouxe também uma versão de “Ilê Se eu Não Gostasse de Você”, famoso tema do bloco Ilê Aiyê, presente no mais recente trabalho em uma gravação com a sua mãe Arany Santana.

Tiganá Santana e banda | Foto: Coletivo ISO 314

“São muitos significados do Ilê, mas o que se chama de novo movimento negro contemporâneo aqui, em larga medida, vem da ética e estética política do Ilê Aiyê. Em 1974 o Ilê já trazia isso e o início do movimento negro no brasil é considerado em 1978, em Porto Alegre. Não poderia me furtar a dizer isso”, disse Tiganá ao lembrar o aniversário do bloco no dia 1º de novembro, mês que também é dedicado à Consciência Negra.

Tim Bernardes | Foto: Coletivo ISO 314

A grande banda baiana saiu de cena e deu lugar à atmosfera solitária de “Recomeçar”, trabalho solo do compositor e multi-instrumentista Tim Bernardes, membro da banda O Terno, que apesar de sozinho com seus instrumentos conseguiu preencher o palco, que simulava um quarto. “Este é um show de compositor, em que eu pretendo mostrar as músicas na crueza que elas foram feitas”, descreveu. 

Tim Bernardes | Foto: Coletivo ISO 314

Lançado em 2017, o disco ainda não tinha sido apresentado ao vivo em terras baianas, que acabaram recebendo antes o “<atrás/além>” (2019) do Terno, no mesmo palco. As melancólicas canções do álbum solo, como “Calma”, “Tanto Faz” e “A história mais velha do mundo” dialogaram com trabalhos com a banda, como foi o caso de “Volta”, que apareceu no bis para os que se aconchegaram na frente do palco. Também apareceram duas versões, um mashup entre “Changes” (Black Sabbath) e “Paralelas” (Belchior) e a potente “Soluços” (Jards Macalé).

Fruto de um programa de rádio com o slogan “Seu Programa Dependente de Música”, o Festival Radioca não poderia ter escolhido local melhor para o início desta edição. O histórico teatro baiano foi ideal por proporcionar que a música e os diálogos que se firmam a partir dela fossem os protagonistas da noite.

O Radioca segue até o dia 10 de novembro, com o lema  “A música que você ainda vai ouvir”, ocupando diferentes espaços de Salvador, dentre eles a Arena do Sesc Pelourinho e a Chácara Baluarte.

Confira a programação

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