Quando a música passa de diversão para opressão

Segundo a pesquisadora Ana Bonomi e suas colaboradoras Lauren Altenburger e Nicole Walton, da Universidade do Estado de Ohio, nos EUA, “a normalização do abuso na cultura popular por meio de romances, filmes e músicas criam o contexto que sustenta a violência”

Por Ana Paula Marques

Nos últimos dias, uma polêmica se instaurou nos perfis das redes sociais dos conquistenses e ganhou apoio de jornalistas e ativistas feministas de outras partes do Brasil. Por meio de nota, movimentos sociais de Vitória da Conquista denunciaram o clipe “Tigrão Gostoso” da banda local Abrakadabra, porque, segundo eles, o material se desenrola de forma a enaltecer a posição do homem como opressor, naturalizando o sexo sem consentimento (mais conhecido como crime de estupro,  previsto pelo artigo 287 do Código Penal).

Os movimentos atentaram para o fato de que o videoclipe reforça a imagem da mulher como um ser frágil e submisso. Nele, a personagem é mostrada sem autonomia de vontade, explicitando uma apologia ao estupro, como pode-se observar nos trechos: “mas eu tô com medo, você vai me machucar” ou “é na hora do pavor que o bicho vai pegar”.

Considerado por especialistas como a mais grave violência depois do assassinato, o estupro vitima milhares de mulheres cotidianamente no país. Dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública apontam que as ocorrências desse crime superaram o número de homicídios dolosos, e que há ainda o registro de 4,1 mil tentativas de estupros no ano retrasado.

Na Bahia, os registros de violência contra à mulher vem crescendo constantemente e chega a superar a média nacional. De acordo com os dados do Mapa da Violência 2012, enquanto a média de todo país é de 4,6 assassinatos a cada 100 mil mulheres, na Bahia a taxa é de 6,1, ocupando o sexto lugar entre os estados brasileiros. Mas apesar de serem alarmantes, esses dados ainda podem estar distantes da realidade, já que os números não incluem outras formas de agressão à liberdade sexual.

Para a Organização Mundial da Saúde, violência sexual é “qualquer ato ou tentativa de obter ato sexual, investidas ou comentários sexuais indesejáveis, ou tráfico ou qualquer outra forma, contra a sexualidade de uma pessoa usando coerção”. São incontáveis os relatos de discriminação, preconceito, humilhação e abuso de poder em relação às mulheres em situação de violência sexual e uma das formas desses fatores serem observados é através da música.

Música e Opressão

De acordo com a pesquisadora Ana Bonomi e suas colaboradoras Lauren Altenburger e Nicole Walton, da Universidade do Estado de Ohio, nos EUA, “a normalização do abuso na cultura popular por meio de romances, filmes e músicas criam o contexto que sustenta a violência”. A banalização ocorre com a transmissão de uma visão preconceituosa contra a imagem da mulher, que muitas vezes passam despercebidas por quem consome esse tipo de produto. Alguns exemplos de músicas que incitam vários tipos de violência podem ser observadas em diferentes estilos musicais e não apenas no Funk Carioca e no Pagode Baiano, como é discutido no senso comum.

Nos anos 90, o rapper Gabriel, O Pensador, causou polêmica com a letra “Lôraburra”. Segundo a pesquisadora Fabiane Santos, em seu artigo “A Inscrição da Diferença no Discurso da Música Rap”, a figura feminina é animalizada, através de sua associação com animais: “cadelas”,“cadelinhas de boate”, “ratinhas de praia” e “vaca”. Tal associação com as fêmeas de animais como cachorro e boi, sugere a caracterização da mulher-objeto como uma fêmea, movida pelos instintos, na medida em que se entrega ao sexo e busca despertar a atenção do “macho” por meio da exposição de seu corpo. Já em relação a associação que a letra faz da imagem feminina com o rato, a autora afirma que a letra deixa transparecer a condição de ser inferior, assim como o rato que vive nos esgotos. A pesquisadora conclui, que o rapper fez referência à moda, atribuindo-lhe um caráter pejorativo, em decorrência de sua associação com a figura da mulher que vive da imagem.

No Hip Hop internacional, em alguns casos específicos, podemos observar letras extremamente misóginas, como por exemplo, músicas antigas do rapper estadunidense Eminem e do alemão Bushido, que em um dos seus clipes mostrou mulheres torturadas até sangrar.

Trazendo para um contexto mais atual da música brasileira, os cantores Henrique Costa e Rafael Castro enfretaram um enxurrada de críticas pelas músicas “Então se joga” (adaptação de  “Psycho Killer” do Talking Heads) e “Vou te encher de birinight”, respectivamente. Na primeira, o cantor sertanejo de Nobres (MT) diz que “A noite tudo pode acontecer, traz a tequila pra ela enlouquecer, um black, um red, um blue e fica no grau, se bebe tudo elas liberam geral”. Na segunda, o cantor que se consolidou como uma das revelações do cenário independente paulistano canta “Se você bobear eu vou te encher de birinight até você me achar jóia e a gente sair daqui (…) Depois eu tiro sua roupa, te amo sem você ver.” A polêmica alcançou os holofotes após um show que o cantor fez para a Calourada da USP em 2013, o que motivou uma nota do Diretório Central dos Estudantes.

Repercussão

A produção de cultura permeia-se por uma hierarquização, que muitas vezes prejudica a forma como são tratados alguns estilos musicais mais populares. Apesar desse debate ser um tanto mais complexo, essa hierarquização precisa ser combatida no sentido de que existe um contexto social por dentro dessas manifestações. Porém, também é de extrema importância tornar visíveis as relações de poder e dominação que nem sempre são perceptíveis, mostrando a relação das mensagens que esses produtos transmitem para a sociedade, a exemplo da música “Tigrão Gostoso”.

A polêmica chegou aos ouvidos da deputada estadual Luiza Maia (PT), defensora da causa feminista na Assembleia Legislativa da Bahia. Após assistir ao clipe do grupo na internet, a parlamentar garantiu que vai tomar providências contra o que considerou uma provocação. Segundo ela, as bandas precisam se conscientizar de seu papel de formadoras de opinião. “A nossa intenção é pegar esse conteúdo e debater. Não tenho nada contra a banda e nem contra nenhum estilo musical. Eu tenho contra quem se apropria da imagem feminina para fazer canções de apologia a este tipo de prática. Nós vamos tomar uma providência contra isso e na próxima segunda-feira (27) vou me reunir com a minha assessoria jurídica para decidirmos que posição adotar”, afirmou.