Pola Ribeiro: “A sociedade nem percebe que a comunicação é um direito”

Pola Ribeiro assumiu recentemente a Secretaria de Audiovisual do Ministério da Cultura

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O secretário do Audiovisual do Ministério da Cultura (MinC), Pola Ribeiro, está à frente de um desafio enorme. Fazer com que a diversidade de filmes, imagens, documentários e ficções produzidos no país encontre o povo. Para isso, terá de promover uma retomada política que significa uma verdadeira guinada ao que vinha sendo proposto, pelo menos nas duas últimas gestões, pelo MinC. Em Florianópolis, Ribeiro conferiu de perto as novas produções latino-americanas no 19º FAM, onde participou de debates com representantes do audiovisual brasileiro. Confira a seguir a entrevista:

No Brasil, a TV aberta está cada vez mais empobrecida, no sentido de estar atrelada a programas de baixa qualidade e meramente comerciais. Como reverter esse quadro avassalador, onde a comunicação parece ter um sentido único?

Pola Ribeiro: Na verdade, a Constituição Brasileira fala que a comunicação deve ser uma parte privada, uma parte do Estado e uma parte da sociedade. Mas ela não foi regulamentada, e quando algo não é regulamentado o privado faz o que quer e o público não consegue fazer nada. Porque o privado só não faz o que é proibido, e o público só faz o que é regimentado, o que está escrito. Então a comunicação privada no Brasil cresceu bastante, sendo até referência internacional. Nada contra a comunicação privada, apenas que ela não pode ser sozinha a comunicação do país. O que acontece no Brasil hoje é que o Estado não tem meios de comunicação, quando se comunica é em 30 segundos, e na lógica do privado.

A sociedade nem percebe que a comunicação é um direito dela. Então nós estamos reconfigurando esse desenho, que não é simples. Não depende só do Ministério da Cultura, mas é um processo que está em plena discussão e o Ministério está chamando para si esse debate da democratização da comunicação e ao mesmo tempo da implantação de alguns canais públicos que foram regulamentados agora há pouco tempo, que é o Canal da Cidadania, que permite que cada cidade do Brasil tenha quatro canais de televisão públicos, sendo dois da sociedade e dois do Estado. Teremos o Canal da Cultura, o Canal da Educação e o Canal da Saúde. Então, de alguma forma, isso já ajuda a reconfigurar o sistema da televisão digital aberta. Então, nesse exercício da comunicação pública eu acho que é a única forma da gente mexer na comunicação do país.

O Brasil ainda não acordou para o fato de que a comunicação privada não é a única alternativa para a construção de um país democrático?

Pola Ribeiro: Você não pode ter um pensamento só privado. Porque o privado é o comercial. E o comercial tem como conteúdo principal não o programa, não é a novela ou o futebol que é o conteúdo principal. A novela ou o futebol estão ali para te levar até a hora do intervalo comercial. E quem vive do comercial vive do seu sucesso, ou do seu inverso, do fracasso. E a vida da gente nem é sucesso nem é fracasso. A vida da gente está entre uma coisa e outra. De vez em quando tem um sucesso, de vez em quando tem um fracasso, e a nossa vida está no meio disso.

Então, se a televisão só vive do sucesso ou do fracasso, quer dizer que a nossa vida não está na comunicação. E se temos uma comunicação que não dialoga com a realidade do país, acaba nesse mundo da violência que a gente vê. A violência é a linguagem da não comunicação. O país está sem uma comunicação pública e isso é um problema. Estamos precisando reconfigurar de fato esse quadro, e o audiovisual tem um papel importante aí e os canais de comunicação pública também.

O ministro Juca Ferreira costuma dizer que o Brasil tem uma das políticas audiovisuais mais robustas do mundo, mas ainda existem muitos gargalos como a distribuição e exibição dos nossos filmes. Como reverter esse quadro?

Pola Ribeiro: É robusta no sentido de que tem um investimento razoável, tem fundo para financiamento dos filmes, tem uma estrutura institucional desenhada para realizar essa operação. Agora, estamos trabalhando nessa concepção de enfrentamento do mercado. Era um mercado que estava totalmente ocupado, de salas de exibição para o filme estrangeiro, onde o Brasil consegue dar conta apenas de uma fatiazinha desse mercado. Mas o que a gente precisa é crescer para todo o povo brasileiro, precisamos dar uma resposta pra todo o povo brasileiro.

Então, digamos que temos uma política robusta, mas masculina, para o audiovisual. E eu estou responsável pela parte feminina da política, que é a costura entre os diversos entes do audiovisual, que são aparentemente periféricos em relação ao mercado. Mas que dão conta dessa complexidade que é o audiovisual, que é a linguagem, como uma plataforma de relações de transversalidade, de sistemas de rede. Estou falando de cineclubismo, de pontos de cultura, de festivais, de professores, de pesquisadores, da própria preservação do audiovisual brasileiro. Das escolas, que precisam do audiovisual. Então, a gente precisa dar conta de todo esse ambiente, que é de uma complexidade muito grande. Essa é uma atividade muito enraizada no povo brasileiro, que gosta de tecnologia, tem criatividade, gosta de se expressar e com uma diversidade muito grande.

Na primeira gestão do ministro Gilberto Gil e depois com Juca Ferreira, os cineclubes foram, digamos, mais protagonistas dessa política do audiovisual. Depois isso ficou um tanto de lado. É possível reverter isso?

Pola Ribeiro: Na verdade a política de cineclubes vem variando ao longo dos anos. Sempre foi um braço auxiliar da difusão. Sempre teve o mercado e esse olhar mais crítico, que se confunde com a inovação. Esse setor está todo se reconfigurando, em função das novas demandas da sociedade e das novas tecnologias que vão se apresentando tanto para a produção como para difusão do audiovisual.

Hoje qualquer telefone que a gente tenha na mão está filmando em HD, então os meios de produção estão cada vez mais leves e ágeis. O brasileiro está filmando. O jovem brasileiro hoje filma. E temos os novos sistemas de difusão como a fibra ótica. E os cineclubes vivem essa crise criativa para atender uma nova realidade e uma nova demanda. Só que durante essa parada que você mencionou, o que houve foi uma parada do pensamento político em relação a isso. E o que nós estamos fazendo é retormar o pensamento político, aliando a comunicação, aproximando pessoas e projetos. Com gestão partilhada com a sociedade.

E nesse sentido os cineclubes estão respondendo a essa demanda. Nós vamos ter agora em agosto, um encontro de cineclubes na Bahia, a Jornada dos Cineclubes. E o Ministério vai participar fortemente, não só a secretaria do audiovisual, mas a secretaria que trabalha ligada à educação e também com a diversidade. Estamos discutindo a questão da infância, da escola, e os cineclubes são parceiros muito fortes que vão entrar com certeza de cabeça nesse projeto.