Opinião: Achiles Divino e Maravilhoso

O ator Marcelo Benigno conta sua experiência com o show Divino e Ateu de Achiles

Por Marcelo Benigno (ator)

Ontem, dia 19 de julho de 2018, foi o show de Achiles, cantor natural da cidade de Maracás, no palco de Dionísio no Centro de Cultura Camillo de Jesus Lima. É um luxo para um artista da música cantar num teatro, nesse chão que para nós, sátiros e bacantes é mais que sagrado, e reinaugura-lo então, foi mais que especial.

Foto: Rafael Flores

O que falar de Achiles? Para falar de Achiles acabo falando e mim pois caatingueiro e resistente nas artes por essas bandas sei a dor e a delícia de ser o que é.  A empatia com os artistas de região para mim é imediata pois comungamos do mesmo labor e sina.

Prometo que esse textão será breve não vou me alongar, embora quisesse falar  mais de um artista desse quilate.

Foto: Rafael Flores

O que mais me impressionou em Achiles e seu show foi a sua autenticidade. O mercado é muito cruel conosco e nos enquadra com uma tarja para que o consumidor saiba o que está consumindo. O maracaense (é assim mesmo que se chama os naturais de Maracás?) foge ao rótulo e comparações.

Você pode até tentar enquadrá-lo nas suas referências e gostos pessoais mais não consegue. Lembro quando Johnny Hooker (não curto, obrigado, de nada) surgiu as pessoas o comparavam a Ney Matogrosso (que discrepância, meu Deus!). O fato de um artista ser gay, baiano, colorido, politizado não enquadra um artista e nem o Achiles em tarjas, a arte é justamente o contrário, arte é para libertar.

Achei tudo tão sútil sem as firulas dos artistas dessa geração, com um gosto de Betânia e Caetano, na poesia sutil para olhos atentos.

Nós que trabalhamos com arte, com estética ralamos muito para que as minúcias sejam descobertas além do todo, penamos muitas vezes pois querem ver o artista colorido, montado, bobo da corte, animador de festas e multidões.

Achei tudo na medida, desde figurino dele, até a cenografia do espetáculo que é funcional e bem executada. Evoquemos a feminidade dos triângulos! “Nas escolas esotéricas o triângulo significa a trindade divina que pode ser compreendido como: harmonia, perfeição e sabedoria; início, meio e fim; corpo, alma e espírito. ”

Gal Costa no show “O Sorriso do Gato de Alice”

Nós de teatro quando vemos um artista dessa potência pensamos em todos os recursos para ampliar a teatralidade em cena. (Olha o diretor teatral baixando aqui). Lembram quando Gerald Thomas dirigiu Gal Costa no show: “O Sorriso do gato de Alice”? Pura potência teatral! Achilles é teatral mas não afetado, e podia ser afetado, adoro todxs os afetadxs autênticos mas ele fez essa opção nesse dia, nesse show pelo o simples. Ser simples, entendam senhores, é a coisa mais difícil do mundo, só os verdadeiros artistas conseguem tal proeza.

Essa geração acha que ser artista é sair “fechando” por aí sem discurso e sem talento. E olha que o público nesse dia era predominantemente jovem!

Quem me conhece sabre das minhas questões com essa geração google e z, além das ruas e palcos sou professor (quantas cotas meu Deus!) mas a arte está ai para romper os paradigmas e cumprir seu papel.

Como Malforea disse, no seu blog, quando retornou ao Camillo com a apresentação da Orquestra Conquista Sinfônica, a minha desvirginação, afinal cinco anos de fechado literalmente mata o artista e profissional que vive do seu trabalho, se fez com a música e preferi que assim o fosse, pois se fosse com teatro, que é a minha linguagem,  chato de galochas como sou teria que ser sublime como o show de ontem.

Acho que Achiles tem que pegar a estrada,  as brs e os céus (cadê o novo aeroporto Vdc Lost?!) para vôos mais altos.

Ser o artista do interior nos é uma sina dolorosa e deixa cicatrizes e comparações aos artistas de fora, da capital, ao longo da nossa carreira.

Achei lindo começar o show saudando a Janaína e meu Oxóssi quase salta para dançar quando ele cantou evocando-o. Que lindeza! Asé!

Achiles é autentico, é ímpar não tem comparação! Sem calcanhares a vista! E que voz linda e gostosa!

Falaria mais sobre ontem e de como somos afetados pela arte boa e pelos encontros com a nossa tribo. Ontem revi amigos, parceiros e companheiros da arte e ver aquela casa cheia me traz memórias que fazem parte dos extratos desse teatral arcaico e chato.

Foto: Rafael Flores

Ah, o público consumidor de arte em Vdc Lost ainda precisa se educar!  Temos que fazer uma campanha urgente! As pessoas entram atrasadas, um levanta e senta toda hora! É claro que é música, mas é um espetáculo, tem que respeitar quem ta ali na frente e seus rituais.  Me lembrou das inúmeras vezes que parei os espetáculos de teatro do Caçuá ali mesmo para pedir para a dondoca desligar o celular no meio da peça! Depois não gostam quando falamos da ignorância e mal educação em Vdc Lost! Eu fico puto com isso! Mas a plateia de ontem era do artista. Tava na sua mão! Cantou as músicas dele e dançou com ele no final. Show vivo, sintonia! Aplausos!

Que esta casa volte a ser um local legitimamente cultural e destinado a todxs. Que a arte nos potencialize além da catarse, nos aponte reflexões, melhore nosso humor e dia a dia, nos delicie com momentos epifânicos como estes.

Achiles meu lindo, que os orixás continuem guiando seus caminhos e conserve esta simplicidade e força! Te desejo o melhor e pegue as estradas, meu nego! A Bahia é pequena pra tu. A música, a dança, as artes visuais,  e o teatro devem chegar a um público maior para cumprir seu papel.

Do novo fã e chato teatral com ranço de Vdc Lost. MB

Bora encher o Camillo com teatro e arte boa e da terra! Caçuá 20 anos!  As oficinas voltam! Se liguem mongoiós! Axé, evoé e merda! Só a arte salva!

PS: A produção do show foi uma realização do Coletivo Suíça Bahiana.