Nocivo Shomon: “Por que acham que só atacando alguém você consegue espaço?”

Em sua passagem por Vitória da Conquista, Nocivo conversou com a Revista Gambiarra sobre sua carreira, atitude machistas e sua a relação com outros rappers

Por Natália Silva e Rafael Flores/ Foto: Willinha Soares

O ano de 2016 foi bastante explosivo no universo do rap brasileiro e o paulista Nocivo Shomon foi um personagem presente nas tretas musicais (“diss”, como são chamadas). Por exemplo, seu nome foi negativamente citado na controversa letra de Sulícidio – do baiano Baco Exu do Blues e do pernambucano Diomedes Chinaski, para quem devolveu a provocação em forma de música.

No entanto, a história do cara não vem de agora e além das “diss”, suas letras trazem conteúdos pesados e fortes em relação à vida na periferia e outras causas sociais. Shomon ainda produz “beats” e passeia por outras vertentes do movimento Hip Hop, como o grafite, o freestyle e o pixo.

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Nocivo Shomon durante o Conexões de Rua 2 / Foto: Willinha Soares

Sua primeira letra foi escrita em 1996 e falava sobre a morte da banda Mamonas Assassinas, mas foi com os Racionais que abriu os olhos para os problemas sociais ao seu redor. “Depois que eu ouvi Racionais eu mudei a minha ótica sobre o Rap. Tive uma veia mais protestante de dizer o sobre o que tinha a minha volta e tinha que ser mudado”, conta.

Em sua passagem por Vitória da Conquista, durante o evento Conexões de Rua – Nocivo conversou com a Revista Gambiarra sobre sua carreira, a relação com outros rappers e sobre atitudes machistas.

Revista Gambiarra: Em 2016 você foi envolvido em uma polêmica com o Baco e o Chinaski por conta da “diss” deles, Sulicídio. O que você acha de letras de rap acabarem partindo para ofensas pessoais a outros rappers? 

Nocivo Shomon: Eu não poderia deixar de combater algo que eu achei errado. Combater de forma musical, eu sempre tento deixar isso bem claro, que minha resposta é na música, é no âmbito musical, é no campo da lírica. Em nenhum momento quando eu batalho com MC nesse tipo de som, que o pessoal chama de “diss”, eu penso em ofender o lado pessoal, eu penso em falar da vida pessoal, nada disso. Nem citar nome também, pode ver que nenhuma que eu fiz tem nome citado. Eu uso metáfora que o pessoal já sabe pra qual carapuça, pra quem é, tá ligado? Mas eu tento fugir disso. Eu acho que é uma parada que, sei lá, não precisa disso, tá ligado? Citar um nome… se seu verso é inteligente, quem for afetado vai sacar a parada.

RG: Você pensou duas vezes antes de escrever a resposta?

NS: Eu pensei bem antes de devolver o som. Pra fugir da xenofobia, que foi aplicada, pra não ofender as pessoas com HIV, também. Mas isso não me faz dono de verdade de nada. Só expus minha resposta que eu acho que devia ser escrita, que eu senti vontade de escrever. Respondi algo que eu achei que era errado. Mas no mesmo som, não é só uma resposta, eu tentei mostrar que a “diss” não é só feita para atacar MC’s, mas também para passar uma visão. Então, o som é mais passando uma visão do que atacando MC’s. É mais do que uma resposta, é passar o outro lado, que a gente pode se unir também. Não precisa ninguém amar ninguém, é só saber respeitar o espaço do outro. Eu modifiquei, me reciclei, mudei várias paradas em mim para chegar a essa conclusão. Hoje eu acho que unido a gente é mais. Mas não é unir de você colar com quem você não gosta, é você respeitar o espaço do outro. O nosso inimigo está assinando lei para destruir o nosso povo, não tá com o microfone na mão. O câncer do Brasil não é o MC e hoje o MC é mais caçado do que político. Tem gente que abandona os políticos que estão ‘fodendo’ a nação e fica perseguindo na internet, esses bagulhos. Tá indo até além da música. Tem gente que não tem a mentalidade pra entender que isso é apena uma batalha lírica e já leva pra outro lado. Tem que tomar muito cuidado também, para entender o que escreve para não incitar o ódio. O rap nunca foi incitar o ódio.

RG: Por trás de Sulicído está uma crítica à indústria fonográfica do rap no país. Me dê a sua opinião sobre o impacto dessa indústria em quem faz desse estilo musical um instrumento de trabalho.

NS: Então, como eu falei, a música, de início, já é algo que é um presente certo? A música não te deve nada; O mercado não te deve nada; a indústria fonográfica não te deve nada. Quem tem conquistou. Tipo assim, não é uma ONG,  não tá fazendo um favor para a humanidade você cantar um rap. Você escolheu pegar o mic (microfone), se você ficar rico, famoso ou seja o que for, se ganhar muito dinheiro não vai dividir com seu público. Então, porque quer forçar o público a ouvir você? Por que você acha que o público tem a obrigação de te dar fama? Porque você acha que só atacando alguém você vai conseguir espaço? (…) É uma manobra muito perigosa isso aí, também. Então, é isso, a música não é obrigação, ninguém é obrigado a fazer sucesso e o sucesso depende do seu ponto de vista. Ninguém mais vai escrever letra que possa mudar algo, só vai escrever letra de ataque, focada apenas em um som pra ter views, entendeu? E é o que eu falo, status em troca da dor de alguém. Eu já caminhei aí por esse lado de guerra de MC’s, de treta, de batalha de MC, pra mim não fez bem.

Nocivo Shomon durante o evento Conexões de Rua 2 / Fot: Willinha Soares

Nocivo Shomon durante o evento Conexões de Rua 2 / Foto: Willinha Soares

RG: Há pouco mais de dois anos você respondeu uma seguidora de uma rede social de modo machista por conta da opinião que ela deu sobre o preço de um beat que você estava vendendo. Hoje você responderia da mesma forma ou aquele episódio e o tempo te fizeram enxergar situações parecidas de uma outra maneira?

NS: Por trás do mano ali na internet, do MC, tem alguém que pode errar. Tipo assim, todo mundo erra, como se apegar a um erro só e crucificar alguém?

Foi por isso que te perguntei, hoje você faria da mesma forma?

Não, hoje eu saberia trocar mais uma ideia. O amadurecimento só vem com a vivência mesmo. Naquela época era minha mente a milhão e nem sempre você tem tempo para pensar. Há situações na sua vida que é o extremo, é automático. Tem bagulho qu­e é automático. Se eu trocar uma ideia com você, jamais eu vou te tratar de uma forma submissa ou vulgar. Eu tenho duas filhas, eu amo a minha mãe, respeito as mulheres, eu vim do ventre de uma mulher. Tanto que eu falo na música porque quando eu tô consciente é que a gente pode trocar uma ideia. Mas naquele dia despertaram meu ódio ao máximo, tem pessoas que até matariam ali, tem gente que perde a cabeça e mata alguém. Eu xinguei. E me arrependo por isso também, eu não tô justificando, mas você tem que analisar. Ela estava buscando sempre o ódio, sempre o ódio, ela não ia achar nada agradável. Mas naquele tempo eu não tinha entendimento, hoje eu ficaria de boa, tentaria pensar no lado dela, também, pensaria no machismo, pensaria no que as minas iriam se ofender. A mãe do meu filho me corrigiu em vários bagulhos assim, que eu não tinha noção, mas era um bagulho de inocência, não de maldade. Um dia  eu falei assim “Ah! Meu pai fez cinco filhos na mina”, aí uma menina que é bem engajada e pá, chegou e falou “Ele fez nela não, eles fizeram porque ela não é um objeto”. Aí eu pensei, s]ao coisas que a gente não tinha noção, mas tá aprendendo. Hoje em dia, a internet abriu muito a visão, o empoderamento das minas.