“Sempre seremos a banda de Chico Science”, diz Nação Zumbi na estreia da turnê Afrociberdelia

Um dia antes do cinquentenário de um dos nomes mais importantes do manguebeat, o segundo álbum do grupo, ainda com Chico Science nos vocais, foi relembrado na íntegra com casa lotada

Atualização em 29 de setembro de 2016, às 18h20

No dia 12 de março, o Pelourinho, em Salvador, recebeu a banda pernambucana Nação Zumbi para um show em homenagem aos 20 anos do álbum Afrociberdelia. O show antecedeu em um dia a data em que Chico Science, líder da banda, falecido meses depois do lançamento do álbum, em um acidente de carro em Olinda, completaria 50 anos.

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Foto: Rafael Flores

A apresentação seria realizada, a priori, na programação de aniversário da capital pernambucana do Recife, que também completou 479 anos no sábado. Porém, a banda anunciou a mudança de programação dias depois, nas redes sociais, pegando os baianos de surpresa. “Faremos o show de Recife em maio para termos mais tempo de fazê-lo caprichado, da maneira que tínhamos planejado e com convidados super especiais”, anunciou a banda por meio de um comunicado.

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Foto: Rafael Flores

O baixista Dengue contou que a homenagem não foi planejada. “Assim como a gente fez os 15 anos do álbum Da Lama ao Caos, que surgiu a convite do Sesc São Paulo, e só depois a gente teve a ideia de seguir com uma turnê, que foi super bem sucedida. Como a gente não pensou nos 15 do Da Lama ao Caos, logicamente a gente também não pensou nos 20 do Afrociberdelia. Mas foi uma coisa que as homenagens aos 50 anos de Chico e o lançamento do documentário instigaram”, disse.

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Foto: Rafael Flores

O documentário Chico Science – Um Caranguejo Elétrico foi dirigido pelo paulista José Eduardo Miglioli, com roteiro do jornalista pernambucano José Teles, autor do livro “Do frevo ao Manguebeat” e “Meteoro Chico”. A coprodução ficou a cargo da RTV, Globofilmes e Globo Nordeste, que o lançou na madrugada do sábado para o domingo em toda a região, menos na Bahia. “Na Bahia não teve negociação. Eles argumentaram que Chico não era importante a ponto de passar um programa às duas da manhã. Foi ridículo”, desabafou Dengue. “Nossa relação com a Bahia é tão forte quanto a de Recife, tanto que escolhemos aqui pra fazer o primeiro show dos 20 anos do Afrociberdelia“.

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Foto: Rafael Flores

O álbum, lançado em 1996, foi o último disco de estúdio gravado pela banda com Chico Science nos vocais e contém clássicos como Maracatu Atômico, Macô, Manguetown, Mateus Enter e Cidadão do Mundo. No prefácio do encarte, o escritor paraibano Bráulio Tavares, numa projeção futurista, definiu o termo como uma prática informal das tribos de jovens urbanos  durante a segunda metade do século 20.

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Foto: Rafael Flores

Afrociberdelia projetou a banda pernambucana internacionalmente e ainda segundo Tavares, estava à frente de seu tempo. “Felizmente, passamos a nos embebedar bastante daquela ideia e, nesta primeira metade do século 21, os seguidores dela crescem aos milhares, aqui e no exterior ainda que não saibam que a praticam. Afinal, desde a hibernação alienada e yuppie pela qual passou a década de 80, psicodelia, cibernética e raízes africanas são conceitos recorrentes e necessários para o jovem urbano que produz e consome cultura pop no novo milênio”, descreveu.

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Foto: Rafael Flores

Após a morte de Chico, a banda continuou produzindo e já somam seis álbuns de estúdio com Jorge Du Peixe nos vocais. “Há quem queira estabelecer uma divisão, mas nós sempre seremos a banda de Chico Science”, disse Du Peixe, que em alguns momentos do show voltou às alfaias e percursão, seus instrumentos originais na banda.

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Foto: Rafael Flores

No palco do Largo Pedro Archanjo, no Pelourinho, a banda trouxe uma apresentação das canções do álbum, na íntegra, com direito a bis com novas canções do mais recente álbum, lançado em 2014. Os ingressos esgotados e o público eufórico só provaram o quando a obra de Chico Science e da Nação Zumbi importam para os baianos.

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Foto: Rafael Flores

A turnê volta a Salvador na próxima sexta-feira (30), dessa vez na reinaugura Concha Acústica do Teatro Castro Alves.